Opinião: Não, Trump, não podemos nos dar bem

Charles M. Blow

Em Nova York (EUA)

  • Hiroko Masuike/The New York Times

Donald Trump se arrastou pela cidade na terça-feira (22) para reunir-se com o diretor de redação de "The New York Times" e alguns editores, colunistas e repórteres do jornal.

Como relatou o "Times", Trump realmente pareceu abrandar algumas de suas posições:

Ele pareceu indicar que não processaria Hillary Clinton. Mas não deveria ter dito que o faria, para começar.

Ele pareceu indicar que não incentivaria os militares a usar tortura. Mas não deveria ter dito que o faria, para começar.

Ele disse que manteria a "mente aberta" sobre a mudança climática. Mas essa deveria ter sido sua posição desde sempre.

Você não ganha tapinhas nas costas por recuar do fanatismo depois de explorar esse mesmo radicalismo em seu benefício. O oportunismo obstinado revela uma surpreendente falta de caráter e de cuidado que não pode ser simplesmente apagada da memória. Você causou um dano real a este país e a muitos de seus cidadãos, e eu nunca, nunca, esquecerei isso.

Ao ler a transcrição e depois escutar o áudio, o fator gosma era avassalador.

Depois de uma campanha atacando o "Times" incessantemente, cara a cara com os jornalistas ele temperou seus choramingos com lisonjas.

A certo ponto, disse:

"Eu aprecio a reunião e tenho grande respeito pelo 'New York Times'. um tremendo respeito. É muito especial. Sempre foi muito especial".

E terminou a reunião dizendo:

"Eu direi: o 'Times' é uma grande, grande joia americana. Uma joia mundial. E espero que possamos todos nos dar muito bem".

Eu direi com orgulho e alegria que não estive presente nesse encontro. A própria ideia de sentar-me do outro lado da mesa com um demagogo que lucrou com hostilidades raciais, étnicas e religiosas e tratá-lo com decoro e polidez social me enche de nojo, a ponto de transbordar. Deixe-me dizer minha posição sobre seu "espero que possamos nos dar bem": nunca.

Você é uma aberração e uma abominação que se dispõe a fazer e dizer qualquer coisa --não importa quem se alinhe a você e a quem prejudique-- para satisfazer suas ambições.

Não acredito que você se importe muito com este país, ou seu partido ou a população americana. Acredito que a única coisa com que você se importa é o próprio engrandecimento e enriquecimento. Sua mais forte fidelidade é com sua própria cobiça.

Eu também acredito que grande parte da sua campanha foi um ato de projeção psicológica, como agora estamos sabendo que muitas das coisas de que você acusou Hillary Clinton na verdade são coisas das quais você pode ser culpado.

Você agrediu Hillary por destruir e-mails, depois a "Newsweek" relatou no mês passado que suas empresas "destruíram e-mails, desafiando ordens judiciais". Você atacou Hillary e a Fundação Clinton por discursos pagos e conflito de interesses, mas afinal, como relatou o BuzzFeed, a Fundação Trump recebeu uma doação de US$ 150 mil em troca de você fazer um discurso em 2015 em vídeo para uma conferência na Ucrânia. Você atacou Hillary sobre conflito de interesses enquanto ela era secretária de Estado, e agora seus possíveis conflitos de interesses estão brotando como cogumelos em um charco.

Você é uma fraude e um charlatão. Sim, você será presidente, mas não terá qualquer folga porque um ramo da sua língua bifurcada é prateado.

Não sou facilmente enganado por idiotas.

Eu tenho não apenas o dever ético e profissional de denunciar como sua própria existência é obscena no topo do governo americano; tenho a obrigação moral de fazê-lo.

Não estou tentando convencer ninguém de nada, mas sim falar em nome da verdade, da honra e da inclusão. Isto não é só sobre você, mas também sobre a bússola moral daqueles que o veem como você é, e sabem que a escuridão que você anuncia só é mantida afastada pelas luzes da verdade.

Não é que eu não acredite que as pessoas podem mudar e crescer. Elas podem. Mas o verdadeiro crescimento vem de aceitar a responsabilidade e arrepender-se da culpa. A reversão interesseira não é crescimento; é grotesca.

Por isso, deixe-me dizer isto no Dia de Ação de Graças: agradeço por ter esta plataforma porque enquanto houver tinta e pixels você será o foco do meu olhar destruidor.

Agradeço por ter a resistência e poder assumir uma posição que nunca permitirá que o que você representa jamais seja visto como cotidiano e comum.

Não, senhor Trump, não vamos todos nos dar bem. Pois enquanto uma ameaça ao Estado for o chefe de Estado, todos os cidadãos de boa fé e fidelidade nacional --e certamente este colunista-- têm a absoluta obrigação de enfrentar você e sua agenda com resistência, em cada curva.
Sinto-o nos meus ossos, e agradeço por isso.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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