Nos EUA, agricultor decide vender pinheiros de Natal tingidos e cria negócio lucrativo

Noah Remnick

Em Belvidere (Nova Jersey)

  • Bryan Anselm/The New York Times

Em 1850, Charles Dickens publicou "Uma Árvore de Natal". O conto começa com uma descrição da árvore "iluminada por uma infinidade de velas" e decorada com armas de brinquedo, alfineteiras, limpadores de canetas, balinhas, piões redondos e multifacetados. Contudo, apesar de sua imaginação fértil, Dickens não mencionava uma árvore pintada com spray, em um tom brilhante de roxo.

Esse trabalho ficou para John Wyckoff, que subverteu séculos de tradições natalinas quando começou a vender uma vibrante coleção de árvores de Natal pintadas na fazenda de sua família na cidadezinha rural de Belvidere, em Nova Jersey, a leste do rio Delaware. As coloridas coníferas, que podem vir nas cores rosa, roxo, branco e dois tons de azul, são mais do que um tanto chamativas em meio a uma floresta verde-escuro, criando uma visão que está mais para Dr. Seuss do que para Dickens.

Embora ocupem somente uma pequena parcela de uma fazenda de 26 hectares com cerca de 65 mil árvores, as pintadas causaram comoção em uma indústria obcecada por tradição. Embora muitos compradores de árvores tenham recebido bem o estilo, alguns veem as plantas como uma ruptura espalhafatosa da ortodoxia natalina. Ainda assim, centenas de clientes foram até a Fazenda de Árvores de Natal Wyckoff nas duas últimas semanas em busca de uma árvore colorida. Até domingo, Wyckoff e sua família haviam vendido cada uma de suas quase 250 árvores pintadas, que custam US$ 11 por pé (30,48 cm), US$3 por pé a mais do que uma árvore tradicional.

"Mesmo as pessoas que odeiam não conseguem parar de olhar", diz Wyckoff, 50, que faz parte da terceira geração de uma família que cultiva árvores de Natal. "Pode não ser para todos, mas é algo um pouquinho diferente."

O experimento com as árvores coloridas começou em Wautoma, no Wisconsin, onde trabalhadores da Kirk Co., um atacadista de produtos de Natal, queriam tentar algo novo. Durante anos eles fabricaram uma tinta à base de látex verde, à prova de fogo, para ajudar os fazendeiros a cobrirem manchas marrons que ocorrem naturalmente em suas árvores. Mas alguns Natais atrás, eles decidiram testar outros pigmentos, que tiveram uma popularidade modesta na rural Wisconsin. Este ano, Kirk começou a oferecer as novas cores para um público maior.

"Alguns tradicionalistas fieis dizem que uma árvore precisa ser verde", disse T. Jay Roland, gerente regional de produtos da Kirk. "Mas os tempos estão mudando, e tem uma nova geração de produtores de árvores por aí."

No passado, Wyckoff deu preferência a uma estética natalina mais clássica. De fato, várias de suas árvores decoraram a Casa Branca em 2013 depois de vencer um concurso nacional. Mas em uma convenção de produtores de árvores de Natal no último verão, as tintas chamaram a atenção de Wyckoff e ele não conseguiu resistir. Intrigado, ele trouxe para casa alguns materiais promocionais para avaliar as reações de sua mulher Leslie e de seus filhos.

"Eles me olharam como se eu fosse doido", ele disse. Mesmo assim, Wyckoff seguiu em frente. Recentemente, em uma noite de sábado, ele colocou uma máscara de gás e pintou com spray 18 árvores Douglas-fir (9 roxas e 9 brancas) à beira da Country Road 519, no Condado de Warren. Na manhã seguinte, seu estacionamento estava lotado de clientes ansiosos para comprar uma árvore pintada, e de curiosos querendo dar uma olhada. Alguns telefonaram depois de passarem de carro pelo local para confirmar que não estavam alucinando. Todo o rebuliço foi suficiente para convencer Wyckoff de que ele estava no caminho certo, e ele começou a pintar o quanto ele conseguisse de árvores.

O padrão da árvore de Natal verde natural já fora desafiado antes. Nos anos 1930, árvores artificiais feitas do mesmo material usado em escovas de vasos sanitários chegaram ao mercado, seguidas de árvores feitas de PVC, alumínio e luzinhas, cada uma dessas novidades corroendo o conservadorismo do Natal. Mas algo nessa mistura de árvores de verdade com cores de bala de goma causou um alvoroço nessa parte tipicamente tranquila do norte de Nova Jersey.

"Para falar a verdade, todos na indústria são bem tradicionais, então essa é uma grande revolução", disse Donna Cole, secretária executiva da Associação de Produtores de Árvores de Natal de Nova Jersey. "Nunca vimos nada tão drástico assim antes."

Cole elogiou o sucesso dos Wyckoff, mas chamou as árvores pintadas de "monstruosidade" e disse que nunca as venderia em sua fazenda, no nobre condado de Hunterdon. "Na minha cidade, as pessoas dariam risada das árvores pintadas", ela disse. "Gostamos das coisas clássicas, não da ostentação. Queremos que nossas árvores pareçam um catálogo da L. L. Bean."

Na fazenda dos Wyckoffs, Tracy Henrikson e Todd Hawthorne viram as árvores de um jeito um pouco diferente. O casal dirigiu por quase uma hora e meia saindo de Princeton, em Nova Jersey, para comprar um pinheiro azul-marinho. "Achamos incrível", disse Henrikson. "É como ter uma obra de arte."

"Além disso, nossa filha vai adorar", disse Hawthorne.

Nem todas as famílias entraram em um consenso de forma tão fácil. Assim que Bob e Erin Yeisley chegaram à fazenda no fim de semana, seus três filhos foram direto para as árvores pintadas. "De jeito nenhum", disse Yeisley. "Simplesmente não tem cara de Natal". Ela se manteve firme em sua objeção, mas não tinha muito o que fazer.

"Sinto muito, mãe", disse sua filha de 13 anos, Jordan. "A maioria venceu."

Já para os Wyckoffs não teve nem discussão. Todos concordaram em ficar com um pinheiro verde clássico.

"Na minha cabeça", disse Wyckoff, "uma árvore de Natal é verde."

Tradutor: UOL

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