Linha direta entre americanos e russos evita catástrofes aéreas na Síria

Eric Schmitt

Em Doha (Qatar)

  • Sergei Karpukhin/Reuters

Pouco depois que a cidade de Palmira, no centro da Síria, passou das mãos do  governo para as dos combatentes do Estado Islâmico, os Estados Unidos e a Rússia enviaram correndo aviões de guerra nesta semana para atacar alvos militantes no local.

Esse era exatamente o tipo de cenário que o Departamento de Defesa temia, depois que Moscou enviou caças e tropas para a Síria no verão de 2015 para ajudar o governo do presidente Bashar al-Assad: caças russos e americanos correndo uns em direção aos outros no espaço aéreo da Síria, elevando o risco de uma catástrofe em pleno ar.

Mas é por isso também que os dois países, apesar de suas disputas sobre como acalmar a guerra civil síria, bem como sobre a anexação da Crimeia pela Rússia e a guerra no leste da Ucrânia, criaram no ano passado uma linha telefônica direta para ajudar a evitar desastres no ar.

E é por isso que o coronel Daniel Manning estava no telefone no começo da quarta-feira (14) com sua contraparte russa, que se encontrava em uma base aérea em Latakia, na Síria, para o que se tornou uma chamada realizada três vezes por semana para bloquear, ou "deconflict" (termo em inglês que significa reduzir os riscos de colisões aéreas através de coordenação), como dizem os militares, qualquer problema em potencial nos céus sobre a Síria.

"Há muito em jogo de ambos os lados para se conseguir isto", disse Manning, 43, de Birmingham, no Alabama, que fez a ligação a partir de um imenso centro de comando aéreo americano no deserto próximo da capital do Qatar.

Manning é um guerreiro-diplomata atípico. Ele, que foi piloto do avião de ataque A-10 e efetuou missões de combate no Afeganistão, anteriormente também serviu como adido de defesa no Quirguistão, uma pequena ex-república soviética independente na Ásia Central onde se fala o russo. Ele também falava em russo com oficiais afegãos quando foi para o Afeganistão como consultor.

Manning disse que começou a ligação de quarta-feira cumprimentando sua contraparte em russo. Mas, no resto da ligação de sete minutos, ele teria falado através de um intérprete (da mesma forma que o russo do outro lado da linha) para evitar mal-entendidos ou nuances perdidas.

O coronel, falando pelo viva-voz de um telefone preto em um escritório comum no andar de cima do centro de comando (onde Manning trabalha durante o dia como vice-diretor), foi muito direto. Sem papo-furado, ainda que Manning tenha dito que desenvolveu uma boa relação ao longo dos meses com seu interlocutor da Força Aérea russa a 1.900 km de distância.

Manning disse ter contado aos russos que os analistas da inteligência americana acreditavam que combatentes do Estado Islâmico haviam capturado alguns tanques T-72 de fabricação russa e outros armamentos pesados em uma base militar síria em Palmira, que poderiam ameaçar tropas de coalizão na área.

"Assim que o tempo melhorar, vamos começar a atacar equipamentos em Palmira", Manning teria dito ao russo, dando-lhe um aviso de aproximadamente uma hora de antecedência antes que caças americanos começassem o bombardeio.

O coronel russo respondeu que aviões de guerra russos também atacariam alvos do Estado Islâmico assim que passassem os temporais pesados, e ele prometeu transmitir os planos de ataque americanos a seus superiores e ligar de volta quando tivesse notícias, de acordo com Manning.

Altos comandantes dos Estados Unidos e Manning insistem que os Estados Unidos nunca pedem permissão da Rússia para executar suas operações na Síria. Eles simplesmente comunicam seus planos.

"Não é coordenação, não é sincronização, não é colaboração. É 'deconfliction'", disse o general Joseph Votel, chefe do Comando Central das Forças Armadas, que supervisiona as operações no Oriente Médio, em Washington, no mês passado. "Tem a ver com garantir a segurança dos voos."

A cidade de Palmira tem uma importância muito diferente para os Estados Unidos e para a Rússia.

Nove meses atrás, as forças do governo sírio expulsaram combatentes do Estado Islâmico da cidade desértica, onde os militantes haviam aterrorizado os moradores e explodiram antigos monumentos insubstituíveis. Perder Palmira uma segunda vez seria um grande golpe simbólico e militar para o governo sírio, que alardeou sua reconquista da cidade em março, após 10 meses de domínio do Estado Islâmico.

A Rússia, que havia ajudado o governo sírio com apoio aéreo e consultores, enviou uma orquestra para tocar um concerto de vitória no antigo anfiteatro de Palmira naquele mês. Os russos também estabeleceram uma pequena base na cidade, mas os moradores disseram que todas as tropas russas se retiraram nos últimos dias, com a aproximação dos militantes.

Para os americanos, o fato de o Estado Islâmico reconquistar uma base em Palmira representa uma ameaça em potencial para os rebeldes sírios treinados pelos Estados Unidos que operam cerca de 96 km ao sul da cidade. O Estado Islâmico havia atacado anteriormente as forças de oposição do Novo Exército Sírio em sua guarnição na fronteira de Al-Tanf, onde se cruzam o Iraque, a Síria e a Jordânia.

Oficiais superiores das Forças Armadas americanas e russas realizaram uma videoconferência atípica em junho, dias depois que os russos jogaram bombas de fragmentação contra os combatentes da oposição na fronteira de Al-Tanf, onde oficiais do Pentágono disseram que os rebeldes estavam combatendo militantes do Estado Islâmico.

Incidentes como esse fazem comandantes americanos parar para pensar se a Rússia começará a enviar mais missões aéreas para o leste da Síria —onde operações lideradas pelos EUA estão focadas no grupo militante islâmico— uma vez que forças sírias apoiadas pelos russos consolidem o controle sobre Aleppo.

"É uma área de preocupação que estou rastreando", disse o tenente-general Jeffrey Harrigian, comandante aéreo para Síria e Iraque, em uma entrevista na quarta-feira.

Ainda naquele dia, Manning disse que o oficial russo havia ligado de volta para lhe garantir que os tanques sírios haviam sido danificados nos combates recentes e não representavam uma ameaça.

Manning disse que seu correspondente russo não o havia enganado antes, mas que analistas dos Estados Unidos voltariam a revisar os alvos e decidir por si mesmos se os atacavam ou não.

No final da quarta-feira, um clima de tempestade havia forçado tanto os caças russos quanto os americanos a adiarem seus ataques em Palmira e desviar seus aviões de guerra para outros alvos. Uma vez que as nuvens se afastem —talvez nas próximas 24 ou 48 horas— e os analistas verifiquem novamente suas fotos das câmeras de vigilância, Manning disse que ele poderia ligar de novo para os russos com um alerta para se manterem longe dos tanques.

"Se eles pertencerem ao Estado Islâmico", ele disse, "vamos destruí-los."
 

Tradutor: UOL

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