Por alto custo de vida em centros urbanos, cidade no interior do Canadá enfrenta superlotação

Dan Levin

Em Nelson (Colúmbia Britânica)

  • Andrew Testa/The New York Times

A maconha, os desertores da Guerra do Vietnã e artistas deram a Nelson sua alma boêmia e hippie.

Essa remota cidade montanhosa na Colúmbia Britânica recebeu recentemente uma nova onda de colonizadores: refugiados urbanos, para quem se tornou cada vez mais caro viver em cidades como Vancouver, em busca de uma vida mais simples. Eles são atraídos por uma cidade de cartão-postal que parece ter de tudo: uma escola de música, duas locadoras de vídeo, três lojas de discos, uma charcutaria cujos donos são franceses de verdade e uma rua principal livre de Starbucks ou redes de fast-food.

Muitos dos moradores recentes de Nelson fugiram de cidades canadenses, onde até mesmo um casal com trabalhos de escritório pode ter dificuldades para sobreviver. Outros estavam dispostos a trocar salários altos por empregos que lhes permitissem ir fazer mountain biking à tarde.

"Ninguém se muda para cá para se matar de trabalhar", diz Amy Bohigian, 43, uma cineasta formada em Harvard que se mudou junto com sua mulher de Toronto para Nelson, em 2006. Contudo, para ficar elas tiveram de se adaptar às habilidades um tanto excêntricas da cidade. "Você pode ter que vender sabonete de leite de cabra no mercado de artesanato nos primeiros anos até que sua clínica de massagem tenha clientes o suficiente", ela diz, só meio de brincadeira.

Mas o charme de Nelson meio que se tornou uma maldição. O fluxo recente de pessoas para essa compacta cidade de 10 mil habitantes levou a uma crise de moradia acessível, causada pela disputa por sua disponibilidade mínima de imóveis e por seu 0% de disponibilidade de lugares para locação causado em parte por proprietários que alugam seus imóveis para turistas através de sites como o Airbnb.

O abrigo para os sem-teto de Nelson está lotado há meses, e alguns moradores, por não conseguirem encontrar um lugar para alugar, passaram a primavera e o verão vivendo em barracas ou trailers no camping da cidade. A faculdade comunitária da cidade perdeu cerca de 60 estudantes este ano porque eles não conseguiram encontrar moradia.

A crise de moradia de Nelson reflete um problema mais amplo na Colúmbia Britânica, província em expansão, onde um mercado imobiliário restrito, um menor apoio governamental para moradias acessíveis e uma inflação crescente geraram um índice de vagas de 1,3%, e tornou praticamente impossível encontrar imóveis para aluguel em Vancouver, de acordo com a Canada Mortgage and Housing Corp.

Mas Nelson não é nenhuma metrópole. Fundada durante uma corrida da prata em 1897, a cidade se encontra entre um lago e as íngremes encostas das Montanhas Selkirk, cerca de 643 km a leste de Vancouver por estrada. Há cerca de um século, uma seita de pacifistas cristãos da Rússia, conhecidos como Dukhobors, se estabeleceram na região, incutindo-a com um fervor antiguerra. Durante a guerra do Vietnã, Nelson se tornou um refúgio para jovens americanos que fugiam da convocação, muitos dos quais foram levados clandestinamente para o outro lado da fronteira por membros de uma comunidade Quaker local.

Nos anos 1970, Nelson e o Vale Slocan, ao seu redor, ficaram repletos de desertores, comunidades hippies e "a melhor maconha do mundo", diz Mike Hames, 68, um carpinteiro canadense cuja excêntrica casa, construída por ele mesmo, e que parece "um barco em uma viagem de cogumelo", é um marco local.

Nelson perdeu sua serraria e sua universidade uma década depois, obrigando a cidade a se reinventar através do turismo e do empreendedorismo. "A maconha definitivamente era o meio como as pessoas ganhavam dinheiro", diz Deb Kozak, a prefeita.

A tolerância liberal de Nelson foi importante para torná-la um hub regional para fornecedores de serviços sociais. Mas eles não conseguiram dar conta de uma população cada vez maior e do crescimento da pobreza. "É uma combinação perfeita de problemas da cidade grande", diz Jenny Robinson, diretora-executiva da Nelson Cares Society, que administra o abrigo de 17 leitos para sem-tetos e fornece serviços para moradores de baixa renda.

Ela disse que o grupo recebeu verbas e doações para manter e construir novos alojamentos, mas não o suficiente para resolver a extrema crise de moradia da cidade. "Nos 18 últimos meses virou uma loucura", diz Robinson.

Janet Mulloy e sua irmã gêmea Judy, ambas artistas, viviam na contracultura quando se mudaram para Nelson em 1984. Até uma década atrás, diz Judy, elas conseguiam alugar um apartamento por menos de US$ 800 ao mês, juntando dinheiro de sua pequena joalheria, de trabalhos diversos e subsídios do Estado. Mas a crise de moradia de Nelson as levou para a rua este ano.

"Esta é a primeira vez que vivemos separadas em mais de 20 anos", diz Janet Mulloy, 51, que está dormindo no abrigo há um mês, enquanto sua irmã foi morar com uma amiga. A miséria da situação de rua agravou um sentimento de que a Nelson que elas conheciam estava desaparecendo.

"É a gentrificação desta cidade que ajudamos a criar", diz Judy Mulloy com um suspiro.

A Baker Street, principal rua de Nelson, é prova das tensões que têm perturbado a comunidade. Em uma tarde dessas, um músico de rua de rabo de cavalo grisalho tocava uma música de Tom Petty em frente a uma cafeteria que vende café orgânico, mendigos com mãos inchadas que sugerem um vício em heroína pediam dinheiro em frente a uma butique que vendia calças de ioga feitas de cânhamo, velas de cera de abelha e pôsteres explicando "Como Ser um Aliado dos Povos Indígenas."

É complicado equilibrar o futuro econômico e o patrimônio cultural de Nelson pela localização da cidade, situada em um pequeno espaço ao lado da montanha. "Não conseguimos nos expandir geograficamente", diz Kozak. Contudo, ela diz que Nelson está trabalhando para desenvolver um "espectro completo" de moradias para aliviar a crise, ao mesmo tempo em que tenta atender às preocupações de moradores com a possibilidade de um novo desenvolvimento arruinar seu paraíso da contracultura.

A comunidade uma vez impediu a construção de uma megaloja do Wal-Mart, mas desde então a prefeitura instalou internet de banda larga e estão à espera da aprovação de um novo centro de inovação tecnológica, que faz parte de um plano para conter a fuga de cérebros da zona rural.

Os recém-chegados não estão se queixando. Adam Thomas, 42, que se mudou para Nelson em julho com sua família depois de vender sua casa em Vancouver, diz que mesmo a renda dupla lá não estava mais sendo suficiente para mantê-los sem dívidas.

"Nós nos sentíamos presos em Vancouver", ele diz, sentado ao lado da lareira em sua casa de três quartos que eles compraram por US$ 250 mil. "Temos sorte. Sinto que preciso conquistar o direito de estar aqui."

Sua mulher conseguiu um emprego de escritório e ele mergulhou na economia coletiva, dando aulas na faculdade local e trabalhando na estação de rádio comunitária.

No dia do "Leve sua filha ao trabalho", Thomas levou sua filha para seu turno na vídeo locadora do Reo, uma movimentada locadora retrô comprada e ampliada este ano por outro ex-morador de Vancouver. Ela tem um acervo de 15 mil filmes, uma seção de títulos estrangeiros e todos os vencedores de Melhor Filme do Oscar.

"É como viver nos anos 1990", ele diz.

Tradutor: UOL

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