Na França, alguns suspeitos presos pareciam qualquer coisa, menos terroristas

Adam Nossiter

Em Estrasburgo (França)

  • Benjamin Kilb/The New York Times

Um era o assistente querido de escola primária. O outro era um operador de carga. O terceiro era um amistoso vendedor de uma mercearia. Eles eram velhos amigos em seu tranquilo bairro suburbano, brincavam com os adolescentes e cumprimentavam as crianças com um sorriso.

Mas na madrugada de 20 de novembro, agentes de segurança interna da França detiveram os três e um outro suspeito em seus apartamentos, os acusando de tramarem um ataque terrorista e os prendendo em uma detenção fora de Paris.

Era um novo tipo de prisão relacionada a terrorismo: homens de remuneração decente na faixa dos 30 anos que não exibiam sinais de radicalização, sem barbas, sem túnica. E diferentemente de muitos jovens problemáticos em Paris e Bruxelas que aderiram ao Estado Islâmico, eles não eram marginalizados. Contavam com empregos estáveis e não tiveram problemas anteriores com drogas ou criminalidade.

Foi a própria normalidade deles que teve um efeito altamente perturbador tanto sobre as autoridades quanto moradores.

"Ninguém percebeu nada", disse Olivier Bitz, o vice-prefeito de Estrasburgo encarregado da contrarradicalização. "E isso é profundamente desconcertante. É profundamente desestabilizador para a sociedade. Agora a ameaça pode vir de qualquer lugar."

"Isso pede por uma vigilância reforçada", acrescentou Bitz. "Não são pessoas que estão de fora da sociedade francesa."

Nos dias que se seguiram às prisões, as autoridades francesas se parabenizaram por impedir o que chamaram de plano "mortal". Os homens "estavam prestes a entrar em ação", disse François Molins, o promotor-chefe para terrorismo da França, em Paris, logo após as prisões.

"A célula de Estrasburgo tinha instruções para obter armas, dadas por um comandante na zona da Síria-Iraque", disse Molins, acrescentando que armas e juramentos de lealdade ao Estado Islâmico foram encontrados nas buscas.

As autoridades não divulgaram os nomes completos dos homens. Mas Molins disse que pelo menos dois, o operador de carga e o funcionário da escola, aparentemente tentaram ir à Síria, chegando pelo menos até a Turquia.

Molins, a face pública do contraterrorismo na França, atacou a imprensa francesa por revelar que agentes infiltrados foram usados nos oito meses de investigação. Fora isso, ele insistiu que as prisões impediram "uma ação prevista pelo grupo de Estrasburgo para primeiro de dezembro".

No último fim de semana, outro homem ligado à célula de Estrasburgo foi preso, disseram as autoridades, elevando o total para sete, incluindo um em Marselha e outro no Marrocos. Os alvos potenciais, segundo as autoridades seriam o quartel-general da polícia no coração de Paris, o mercado de Natal na Champs-Élysées, e os cafés no 20º distrito da cidade.

As prisões podem proporcionar um alivio apenas temporário. As autoridades francesas dizem que descobriram 17 planos desde o início do ano, e realizaram 43 prisões apenas em novembro.

Foi a segunda vez em dois anos que os bairros de imigrantes de Nauhof e Meinau, que são adjacentes e separados por estradas movimentadas da cidade velha de Estrasburgo, foram alvo de grandes prisões envolvendo terrorismo.

Esses distritos de prédios residenciais subsidiados, baixos em cores pastel, são asseados e bem cuidados, e não lugares de óbvia privação. Mas parecem ter um mundo de distância do comércio próspero do movimentado centro de Estrasburgo, que também é sede do Parlamento Europeu. Entre a população de segunda e terceira gerações de imigrantes, o desemprego entre os jovens chega a 50%.

Em junho, sete homens jovens do bairro de Meinau de Estrasburgo, que foram presos em 2014, foram julgados e condenados por acusações de terrorismo em um tribunal em Paris.

Mas desta vez os suspeitos de terrorismo eram diferentes.

Não eram jovens muçulmanos na faixa dos 20 anos, à deriva em empregos à margem ou desempregados. Eles não estavam presentes nos notórios "Arquivos S" do governo francês, onde milhares estão listados como ameaças potenciais, incluindo alguns que foram posteriormente presos.

Mas é precisamente o perfil discreto do mais recente grupo que fez com que os homens parecessem ainda mais ameaçadores. Eles não se destacavam nos bairros tranquilos onde barbas cheias e véus são incomuns.

O vendedor comercializava bebida alcoólica em sua loja. Se as autoridades tiverem identificado corretamente os homens como terroristas, eles se encaixariam perfeitamente nas ordens do Estado Islâmico de ocultação e dissimulação.

As pessoas que os conheciam no bairro disseram que eles usavam a internet. Um vizinho disse considerar que dois dos homens podem ter tentado ir para a zona de guerra, e que recrutadores também tentaram o atrair.

Certamente existem candidatos mais óbvios para a jihad (guerra santa). Os quatro presos não exibiam sinais externos de radicalização. Muitas pessoas ficaram surpresas ao saber que os homens tinham um plano, caso isso seja confirmado.

"Eu era como irmã deles", disse Brik Souhaira, 17. "Eles costumavam, tipo, apertar minha bochecha", ela disse. "Francamente, mal posso acreditar."

Souhaira estava com amigos no centro comunitário de Neuhof, em uma recente noite de sexta-feira. Todos expressaram desaprovação à jihad, e nenhum usava roupas com algum indício de serem inspiradas pela religião.

"Estamos como medo", disse Ibrahim El Kasbaoui, 19, que também estava no centro com seus amigos. "Esses caras estavam aqui, perto de nós. Eles podiam ter feito algo."

Um dos homens presos, identificado pelas autoridades apenas como Yassin B., 36, era um popular coordenador de atividades extracurriculares em uma escola primária em Meinau. As autoridades disseram que encontraram armas no apartamento dele.

As autoridades se reuniram logo depois com os pais para tranquilizá-los. "Todo mundo o considerava exemplar", disse Jamila Haddoum, a diretora do centro comunitário jovem de Neuhof.

"Ele era muito calmo", ela disse. "Sério. Era uma pessoa que ia para casa ao anoitecer, que mantinha sua cabeça baixa. Tímido e sensível."

O vendedor que foi preso adorava crianças, disseram os vizinhos. "Era calmo e estável", disse Haddoum.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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