Nova presidente do Conselho de Segurança da ONU quer "política externa feminista"

Somini Sengupta

  • Abbas Momani/AFP

    16.dez.2016 - A ministra das Relações Exteriores da Suécia, Margot Wallstrom, fala durante encontro com autoridades palestinas em Ramallah, na Cisjordânia

    16.dez.2016 - A ministra das Relações Exteriores da Suécia, Margot Wallstrom, fala durante encontro com autoridades palestinas em Ramallah, na Cisjordânia

Margot Wallstrom, ministra de Relações Exteriores da Suécia, tem procurado promover o que ela chama de uma política externa feminista. Mas o que isso significa?

Ela diz que é uma forma de usar as ferramentas costumeiras da diplomacia para abordar três questões: As mulheres têm direitos iguais? Há mulheres nas mesas de decisões? E os recursos são distribuídos de forma equitativa às mulheres?

"Uma política externa feminista", segundo ela, "é uma análise do mundo."

Essa visão de mundo passará pelo maior de seus testes no próximo mês, quando a Suécia começará um mandato de dois anos no Conselho de Segurança da ONU, inclusive como presidente do conselho, logo agora que a Rússia e os Estados Unidos parecem prestes a entrar em conflito.

Em seus dois anos como ministra das Relações Exteriores da Suécia, Wallstrom descobriu que cumprir uma posição de centro-esquerda de seu governo pode ser complicado. Na semana passada, ela visitou Israel, mas teve negado um pedido de reunião com oficiais israelenses, e só se encontrou com líderes da Autoridade Palestina. A Suécia é um dos poucos países que reconhecem a Palestina como Estado, e seus comentários sobre os palestinos que recorrem à violência foram condenados pelo governo do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu.

No ano passado, ela criticou as restrições da Arábia Saudita contra as mulheres, causando uma rusga diplomática. O reino convocou seu embaixador de volta à Suécia e se recusou temporariamente a emitir vistos de negócios para suecos. A medida arrepiou a comunidade empresarial da Suécia. A Arábia Saudita é uma importante parceira comercial, e Wallstrom se apressou a dizer que as relações foram normalizadas desde então.

Wallstrom precisa lutar contra o que ela chama de "postura provocadora" da Rússia e um futuro governo americano que, ela teme, pode não ter interesse em uma cooperação internacional. A Suécia resistiu incondicionalmente a entrar para a Otan, a aliança militar ocidental, e, até recentemente, seu orçamento para a Defesa vinha encolhendo constantemente.

Neste momento em que a Suécia se prepara para seu mandato no Conselho de Segurança, conversei com Wallstrom em Nova York sobre a política externa do presidente eleito Donald Trump, o futuro da Otan e a crise internacional de refugiados.

Esta entrevista foi editada e resumida.

NYT: Como uma ministra de Relações Exteriores feminista, qual a sua mensagem para Trump?

Wallstrom: É claro que usarei o argumento de que o que devolverá aos Estados Unidos sua grandeza é ele incluir as mulheres e se certificar de que trabalhará pela igualdade de gênero. Sem isso, ele não conseguirá tornar os Estados Unidos grandiosos novamente. É uma política inteligente. Não é só a coisa certa a se fazer.

NYT: A senhora acredita que o governo Trump continuará a cooperar com a Suécia em questões de defesa?

Wallstrom: Não acho que ninguém esteja preocupado que eles vão quebrar proativamente um acordo que seja benéfico para ambos os lados. Não acho que deveríamos fazer especulações. Você deve ser julgado pelo que você faz. Só precisamos nos preparar. Precisamos nos manter firmes em nossas posições e apresentar nossos argumentos. Devemos cooperar, e precisamos insistir em querer continuar nossos contatos próximos.

NYT: Considerando as preocupações da Suécia a respeito das intenções russas na Europa, o não-alinhamento ainda é a melhor política?

Wallstrom: Somos um país independente que optou durante 200 anos por ser não-alinhado militarmente. Isso foi bom para nós. Temos de mostrar capacidade militar também provando que estamos prontos para nos defender. Temos uma situação de cada vez menos segurança em nossa vizinhança. Tem sido uma ameaça para a ordem da segurança europeia desde que a Rússia anexou ilegalmente a Crimeia. Temos visto ameaças de uso de armas nucleares. Eles tiveram uma postura muito provocativa em nossa vizinhança, não que a consideremos como ameaças diretas à nossa integridade territorial ou a nossa segurança. Não há ameaças diretas para a Suécia. Mas é um comportamento que tem sido muito provocativo.

NYT: A Suécia tem aprofundado sua cooperação com a Otan. Algum dia ela entrará para a aliança?

Wallstrom: Neste momento, estamos muito confortáveis onde estamos. Não queremos estar sob um guarda-chuva de armas nucleares, e achamos que deveríamos permanecer não-alinhados militarmente. Estamos em uma boa posição, especialmente agora, quando não sabemos o que vai acontecer com a Otan, com o novo comandante-em-chefe dos Estados Unidos ou com a Turquia se tornando cada vez mais difícil, também. Existe muita incerteza. Não sabemos o que Trump fará com a Otan.

NYT: A Suécia abriu suas fronteiras para mais de 100 mil refugiados em 2015, mas reduziu sua abertura desde então. A Suécia continuará a receber refugiados?

Wallstrom: Não é como se tivéssemos fechado nossas fronteiras, mas estamos aplicando regras mais rígidas, por assim dizer. Não podíamos receber tantas pessoas, especialmente crianças. Precisávamos que outros países europeus assumissem uma maior responsabilidade. Àqueles a quem demos asilo supostamente devem usufruir dos mesmos direitos e ter as responsabilidades que aqueles que vivem na Suécia há muito tempo. Esse é nosso princípio. Precisamos construir casas, precisamos nos certificar de que haja escolas. Precisávamos de mais de 30 mil novos professores em todo o país. No final, você também precisa de apoio público para continuar sendo generoso. Então você precisa de um equilíbrio.

NYT: Qual a sua posição a respeito da proibição dos véus islâmicos, como aconteceu em alguns países europeus?

Wallstrom: Não temos nenhuma regra sobre isso. Você pode usar um véu, não é um problema.

NYT: A senhora tem alguma preocupação a respeito de Trump?

Wallstrom: A falta de convicção a respeito de soluções multilaterais, pois a maior parte dos problemas que vemos são globais. Se um país grande ou uma superpotência como os Estados Unidos diz que não vai nem honrar sua assinatura no acordo climático de Paris, isso me preocupa bastante. Queremos encontrar soluções que sejam de interesse mútuo, que criem uma situação com os Estados Unidos em que todos ganhem. Fazer comércio trará mais empregos e uma melhor economia para ambos os lados. A ligação transatlântica é boa para a segurança de ambos os lados. E esses são os argumentos que devemos usar, talvez nem tanto a ideologia, a política partidária ou os valores. Talvez seja isso que ele entenda melhor.

Tradutor: UOL

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