De olho em Trump, Obama corre com medidas para cimentar seu legado

Michael D. Shear

Em Washington (EUA)

  • AFP PHOTO / Nicholas Kamm Informações

Apenas dois dias depois da eleição, o presidente Barack Obama sentou-se ao lado do presidente-eleito Donald Trump no Salão Oval e declarou que a prioridade número um em seus últimos dias na Casa Branca seria garantir uma transição de poder suave.

O que Obama não disse foi que ele também pretendia criar o máximo de bloqueios políticos e ideológicos possíveis antes que Trump tome posse, em 20 de janeiro.

Com menos de três semanas para que a Casa Branca de Obama se torne história, abrindo caminho para um novo governo com prioridades radicalmente diferentes, o presidente está usando todos os poderes de que dispõe para cimentar seu legado e estabelecer suas prioridades como leis efetivas.

Ele proibiu a prospecção de petróleo no litoral do Atlântico, estabeleceu novos monumentos ambientais, protegeu as verbas para as clínicas de planejamento familiar, ordenou a transferência de prisioneiros de Guantánamo, criticou os assentamentos israelenses e puniu a Rússia por interferir nas últimas eleições com ataques cibernéticos.

O próximo presidente talvez consiga reverter alguns, ou mesmo a maioria, desses atos, um ponto que os principais assessores de Obama admitem. Mas cada passo que o presidente dá exige que Trump supere um ou mais obstáculos legislativos ou processuais para tentar mudar de direção em Washington.

Obama continua preenchendo as fileiras do governo com seus indicados; desde o dia da eleição ele nomeou 103 pessoas para cargos importantes no serviço público, em conselhos, comissões importantes e painéis supervisores, incluindo o Conselho Nacional sobre Deficiências, o conselho de diretores da Amtrak [companhia de trens e ônibus], o Conselho do Memorial do Holocausto e os conselhos de visitantes em academias militares.

Ele também está levando à frente seu objetivo de libertar condenados por drogas não violentos das prisões federais. Nas últimas semanas, Obama comutou as penas de 232 detentos federais e perdoou outros 78. E na quarta-feira (4) se reunirá com legisladores democratas para discutir maneiras de proteger a Lei de Acesso à Saúde de iniciativas de Trump e dos republicanos para desmontá-la.

Para muitos conservadores, Obama está atuando por despeito, assim como por convicção. "Ele está fazendo tudo isso como seu legado", disse Newt Gingrich, o ex-presidente da Câmara dos Deputados, comparando Obama a um deus mal-humorado em uma ópera de Wagner. "Se ele continuar com essa coisa por mais três semanas, quem o país irá considerar extremista? Trump ou Obama?"

Assessores da Casa Branca comentam que muitos dos atos de última hora do presidente foram iniciados meses ou mesmo anos antes que o resultado da eleição ficasse claro. E nenhum rompe com a abordagem ideológica que Obama adotou durante seus oito anos no cargo.

Mas eles representam uma determinação do 44º presidente de reforçar todas as realizações da era Obama antes que Trump assuma. O novo presidente prometeu desfazer essas conquistas. Isso animou alguns dos aliados liberais de Obama, que gostariam que ele fizesse mais.

"Os republicanos estão enlouquecidos porque de repente Obama está fazendo muito governo", disse Matt Bennett, vice-presidente sênior de assuntos públicos no grupo de pensadores Third Way [Terceira Via]. "Eles não gostam disso. Eu entendo. Mas ele tem esse direito, e deve fazê-lo. Ele está tentando limitar Trump? É claro --e deve."

Obama renovou saúde e diplomacia; tensão racial subiu

Os atos de Obama não passaram despercebidos por Trump e pelas pessoas que trabalham freneticamente para montar o novo governo. Um dia depois de Obama ter permitido a aprovação de uma resolução do Conselho de Segurança da ONU que critica os assentamentos israelenses, Trump escreveu irritadamente no Twitter que a medida tornaria "muito mais difícil negociar a paz". Trump acrescentou, em tom otimista: "Que pena, mas nós vamos fazer isso de qualquer maneira!"

Dois dias depois, em um sinal de sua crescente frustração com Obama, Trump fez nova postagem no Twitter, dizendo que está fazendo o máximo para "desconsiderar as muitas declarações inflamatórias e os bloqueios do presidente O".

Ele continuou: "Pensei que seria uma transição suave --mas NÃO!"

Essa mensagem aparentemente provocou um telefonema de Obama no dia seguinte, quando o atual presidente e o próximo tentaram enfatizar novamente sua cooperação. O porta-voz de Obama emitiu uma declaração dizendo que a conversa foi positiva e que os dois prometeram "trabalhar juntos para realizar uma transição de poder suave em 20 de janeiro".

Naquela noite, em sua propriedade Mar-a-Lago, na Flórida, Trump insistiu que a transição está ocorrendo "muito, muito suavemente" e que sua conversa com Obama foi "muito, muito boa".

"Nossas equipes estão se entendendo muito bem, e estou me dando muito bem com ele, fora algumas declarações a que eu respondi", disse Trump.

Autoridades da Casa Branca rapidamente insistem que Obama ordenou que todos os níveis do governo cooperem totalmente com Trump na mecânica da transição. Essa diretriz se mantém, segundo eles, apesar do abismo ideológico entre os dois.

Mas não é raro que um presidente de saída tome medidas nos dias finais de sua administração que limitam as opções de um sucessor do outro partido.

Em meados de dezembro de 2008, o presidente George W. Bush assinou um acordo com validade de vários anos com o primeiro-ministro do Iraque, Nouri al-Maliki, que exigia a saída das tropas americanas do país até o final de 2011. Preocupações sobre segurança e estabilidade no Iraque em 2011 levaram o governo Obama a negociar com os líderes locais para deixar algumas forças americanas depois do prazo, mas as negociações foram interrompidas e Obama acabou seguindo o limite que herdou de Bush.

"Fale em amarrar as mãos de seu sucessor", disse Bennett. "Bush estava plenamente em seus direitos e poderes. São questões muito grandes e importantes de segurança nacional e política externa. Temos um presidente de cada vez, e ele tem de agir como presidente."

Algo semelhante transpirou com os atos de Obama nesta última semana na ONU. Ao se abster na votação da resolução que condena os assentamentos, os EUA abriram caminho para sua aprovação. Os conservadores viram com desdém os atos do presidente.

"Obama e John Kerry são como inquilinos que destroem um lugar quando são despejados", disse no Twitter Erick Erickson, autor de um destacado site conservador.

O ato mais permanente de Obama poderá ser sua ordem que proíbe a extração de petróleo no litoral atlântico, uma decisão baseada em uma lei de 1953 que, segundo especialistas, será difícil Trump reverter. Grupos ambientalistas e outras organizações liberais esperam mais medidas semelhantes de Obama até seus últimos momentos no cargo.

"A Constituição estabelece que o presidente é presidente até 20 de janeiro às 12h", disse Neera Tanden, presidente do Centro para o Progresso Americano, um grupo de pensadores liberais em Washington.

Tanden disse que os atos de Obama foram reforçados por índices de aprovação significativamente maiores que os de Trump, uma raridade histórica. A maioria dos presidentes-eleitos modernos goza de resultados favoráveis nas pesquisas após a eleição, enquanto os que deixam a Casa Branca perdem a simpatia do público.

Obama está "apropriadamente lendo isso como um 'pleno vapor à frente'", disse Tanden. "O presidente adequadamente vê que a população americana apoia seus atos."

Autoridades da Casa Branca disseram que Obama continuará tomando as medidas que considera necessárias até a posse de Trump. "O presidente está decidido a usar seus dias que restam no governo para construir e solidificar" suas políticas, disse Brandi Hoffine, uma porta-voz da Casa Branca. Mas as autoridades também dizem que é improvável que Obama satisfaça as exigências dos ativistas liberais que querem que ele vá ainda mais longe.

Em uma entrevista coletiva em meados de dezembro, Obama comentou essa tensão em suas responsabilidades de fim de mandato, ao responder a uma pergunta sobre a violência na Síria.

"Eu ajudarei o presidente Trump --o presidente-eleito Trump-- com qualquer conselho, sugestão, informação que possamos lhe dar, para que ele, ao assumir o cargo, possa tomar uma decisão", disse Obama à imprensa. "Entre hoje e essa data, são decisões que eu tenho de tomar com base nas consultas que tenho com nosso militares e com as pessoas que trabalharam nisto todos os dias."

Pouco depois da entrevista, Obama rumou para o Havaí para suas últimas férias como presidente. 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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