Nova 'Casa Branca de inverno', resort na Flórida é lar de um Trump mais calmo

Maggie Haberman

Em West Palm Beach, Flórida (EUA)

  • Hilary Swift/The New York Times

    Resort Mar-a-Lago, de Donald Trump, retiro do presidente eleito dos Estados Unidos

    Resort Mar-a-Lago, de Donald Trump, retiro do presidente eleito dos Estados Unidos

Quando o presidente eleito Donald Trump comemorou o ano novo, no último fim de semana, o fez com opulência digna de um Gatsby, junto com o ator Silvester Stallone, o frequentador das páginas de fofocas Fabio e uma turma de ricos empreiteiros que desfrutavam o farfalhar das palmeiras no resort de Trump em Palm Beach, o Mar-a-Lago.

O presidente George W. Bush teve sua fazenda em Crawford, no Texas. Seu pai teve um complexo em Kennebunkport, no Maine. O presidente Barack Obama tirou férias frequentes no Havaí, hospedando-se em uma residência particular.

Mas o clube privativo de Trump na Flórida, com 118 quartos, onde ele passou as últimas duas semanas longe de sua residência em Nova York, provavelmente eclipsará a todos como a Casa Branca de inverno do 45º presidente dos EUA. E essa sempre foi a intenção de Marjorie Meriweather Post, a herdeira dos cereais e dona original da propriedade, que deixou Mar-a-Lago para o governo federal quando morreu em 1973, esperando que ela servisse de residência para presidentes.

Mas o governo não se interessou por esse plano, e Trump mais tarde comprou a propriedade por menos de US$ 10 milhões (R$ 32,6 milhões), transformando-a em um clube cujo título de sócio custa seis dígitos.

A chegada de Trump foi recebida com desdém pela elite de Palm Beach, e ele abriu a afiliação a Mar-a-Lago a judeus e afro-americanos, que haviam sido barrados em outros estabelecimentos exclusivos para sócios. Ele também foi o primeiro dono de clube na ilha a admitir um casal abertamente gay.

Desde a vitória de Trump em novembro, Mar-a-Lago esteve lotado de hóspedes atraídos por uma característica única deste clube: a possibilidade de estar muito perto do próximo presidente.

"É como ir à Disneylândia e saber que Mickey Mouse estará lá o dia todo", disse Jeff Greene, um empreiteiro da Flórida e candidato democrata derrotado ao Senado em 2010, que é sócio de Mar-a-Lago e apoiou Hillary Clinton.

Em vez de receber executivos de empresas e potenciais secretários do gabinete para entrevistas em um escritório fechado na Trump Tower, em Nova York, Trump tem se sentado em um sofá com design ornamentado, forrado de tecido claro com detalhes dourados, sob um lustre de candelabros. A cena lembra uma mansão de "Sunset Boulevard" ou "Cidadão Kane", dois filmes prediletos de Trump.

À noite, os sofás são levados para fora e mesas são adicionadas para acomodar a turma do coquetel vespertino, entre os quais Trump se desloca de mesa em mesa, como o mais poderoso anfitrião do mundo.

Na festa de Ano Novo no sábado à noite, um menu branco com enfeites dourados incluía a "Salada de alface de Mr. Trump", um ravióli de cogumelos silvestres e erva-doce e um "breakfast buffet". Os participantes deslizavam sob um toldo listrado amarelo e branco, os homens de smoking, as mulheres de vestido longo, muitas com os cabelos puxados para cima.

AP Photo/Evan Vucci
Trump e sua esposa, Melania, chegam à festa de Ano-Novo em Mar-a-Lago

Os convidados percorriam uma passarela vermelha na entrada do clube e se dirigiam à festa junto da piscina. Mais tarde Trump fez comentários, segundo um convidado, agradecendo a sua família e aos membros do clube pelo apoio dado ao longo dos anos.

Howie Carr, um apresentador de rádio conservador que apoiou Trump, perambulou entre os convivas e mais tarde postou no Twitter que sua filha perguntou a Trump se poderia ser estagiária na Casa Branca. Os dois filhos adultos de Trump, Eric e Donald Jr., posaram para fotos. Joe Scarborough e Mika Brzezinski, do programa "Morning Joe" da MSNBC, também estavam lá.

Como muitos aspectos dos interesses empresariais de Trump, a festa provocou polêmica pois os convites eram oferecidos aos sócios do clube e a convidados por pouco mais de US$ 500 (R$ 1.630,00). Os assessores de Trump recusaram perguntas.

Trump voltou a Nova York no domingo à noite. Mas o clube continuará sendo um escape para ele. Seus polêmicos posts no Twitter traem sua calma relativa quando ele está em Mar-a-Lago, comparados com quando fica isolado na Trump Tower. A personalidade pública combativa de Trump --muitas vezes exibida durante sua campanha-- praticamente se dissolve por baixo das paredes de pedra esculpida de seu castelo.

"Mar-a-Lago é um ambiente que ele pode controlar", disse o historiador Douglas Brinkley, que na semana passada esteve em Mar-a-Lago para um almoço com um antigo membro do clube, Chris Ruddy, executivo-chefe da Newsmax Media. "Eu o vi reunir a corte, e parecia muito à vontade em sua própria pele, muito descontraído."

Ruddy foi o anfitrião no clube de Carr e Laura Ingraham, outra apresentadora de rádio conservadora que apoiou Trump, e apresentou Trump a uma série de figuras da mídia, políticos e doadores. Ele descreveu o presidente eleito como "buscando o Donald Trump de antes da eleição: totalmente à vontade, muito positivo, muito sociável".

Trump parece alimentar-se do contato com as pessoas no clube.

Durante o feriado de Ação de Graças, ele indagou a convidados para o jantar se deveria nomear Rudy Giuliani ou Mitt Romney para secretário de Estado (acabou não escolhendo nenhum deles).

Durante esta viagem, ele cobriu de elogios sua escolha final para o cargo, Rex Tillerson, o chefe da Exxon Mobil (Trump chamou-o de "Mr. Exxon"). Ele fala sobre o trabalho que fez para encontrar uma solução para os problemas no Departamento de Assuntos de Veteranos, que incluíram uma reunião recente com diversos executivos em Mar-a-Lago. Trump disse a um repórter de "The New York Times" que pretendia nomear Brian Burns, um empresário filho de um confidente de Joseph P. Kennedy, embaixador na Irlanda.

Isaac Perlmutter, o recluso diretor da Marvel Entertainment, é um sócio de Mar-a-Lago que ajudou Trump a organizar essa reunião. Trump também teve encontros com Robert Kraft, dono dos New England Patriots e membro do clube, e hospedou figuras destacadas como Carlos Slim, o bilionário que é o homem mais rico do México.

Trump, sua mulher, Melania, e seu filho de 10 anos, Barron, moram em uma área residencial do clube. Seus filhos adultos e suas famílias geralmente ficam em chalés próximos, na propriedade. Trump frequentemente janta no pátio, um ponto de ação central, onde à noite há um cantor com uma pequena banda, às vezes atendendo a pedidos de Trump e de outros hóspedes ("My Way", canção popularizada por Frank Sinatra, foi uma escolha recente). Um violonista às vezes se movimenta entre as mesas, interpretando músicas como o tema de "Um Violinista no Telhado".

Trump deu ao quadro de jornalistas da Casa Branca que fazem sua cobertura certo acesso ao clube, mas sob resmungos. Mais uma vez ele enganou os repórteres que o seguiam no sábado, escapulindo sem avisar para jogar golfe em outro de seus clubes próximos, em Jupiter.

E fora dos limites de Mar-a-Lago velhos desentendimentos se acendem. No campo de golfe, Trump avistou Harry Hurt, um biógrafo que escreveu em tom crítico sobre Trump anos atrás, preparando-se para jogar com David Koch, um doador conservador bilionário. Trump mandou que funcionários do clube retirassem Hurt da propriedade, segundo uma postagem do próprio Hurt no Facebook.

Ao longo dos anos, Trump também teve constantes atritos com as autoridades de Palm Beach. Ele moveu processos para tentar impedir que aviões ruidosos passassem sobre Mar-a-Lago, e houve disputas sobre a altura de seu mastro de bandeira gigante no terreno.

Com o próximo emprego de Trump, o clube sofreu algumas mudanças. Os hóspedes hoje passam por uma elaborada checagem de segurança para ter acesso à entrada principal. Agentes do serviço secreto estão espalhados pela propriedade, à noite, misturando-se aos arbustos do terreno.

Robin Bernstein, um sócio do clube há quase 25 anos, disse que alguns membros podem manifestar frustração, mas que a maioria acha importante "mantermos Donald e sua família em segurança". Os frequentadores parecem ver um benefício até agora em ter o presidente eleito por perto, e esperam que isso continue.

"O perdedor neste jogo é Camp David", disse Brinkley, referindo-se ao antigo retiro presidencial em Maryland. "Quando você está em Mar-a-Lago, tão opulento e equipado quanto um resort, a ideia de se colocar no ambiente montanhoso de Camp David parece improvável."

Vitória em Estados-chave fez de Trump o 45º presidente dos EUA

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos