Onde Trump enxerga "desastre" econômico, especialistas veem algo mais complexo

Nelson D. Schwartz

  • James Brosher/The New York Times

    Médico de emergência se prepara para ver paciente no Marion General Hospital, em Marion (Indiana)

    Médico de emergência se prepara para ver paciente no Marion General Hospital, em Marion (Indiana)

O presidente eleito Donald Trump chamou a economia americana de um "desastre". Mas em Sioux Falls, na Dakota do Sul, Scott Lawrence, um empresário local e eleitor de Trump, tem uma visão diferente.

"As empresas que se prepararam para resistir no começo do ano vieram com tudo", disse Lawrence, que tem uma agência de publicidade na cidade, Lawrence & Schiller, que emprega 95 pessoas. "Estou definitivamente mais otimista do que há seis meses."

Lawrence é coerente com o que fala: sua empresa contratou cinco funcionários no final do ano passado, incluindo estrategistas digitais e designers de conteúdo, e ele pretende contratar mais quatro nos próximos três meses.

Embora Trump tenha conseguido se apoderar da Casa Branca ao retratar a economia americana como algo em frangalhos, muitas das bases econômicas estão sólidas.

A economia teve um acréscimo médio de 180 mil empregos por mês entre janeiro e novembro de 2016, sendo que até sexta-feira será feita uma análise do ano inteiro. O índice de desemprego caiu para 4,6%, a análise mais positiva desde antes da Grande Recessão.

Cole Wilson/The New York Times
Funcionário da Mizuho Securities trabalha no escritório em Manhattan

É verdade que existem algumas deficiências muito reais que Trump identificou em sua campanha. Elas incluem uma valorização salarial mínima para trabalhadores menos especializados, números quase recordistas de americanos fora da população ativa, e um número cada vez menor de empregos em fábricas.

Ainda assim, muitos economistas dizem que a agenda de Trump —voltada para diminuir impostos, retirar regulamentações e reabrir acordos comerciais— não alterarão essas tendências.

"Reduções de impostos provavelmente não incrementarão a população ativa, nem reverterão o envelhecimento da população," disse Michael Gapen, economista-chefe para os EUA do Barclays. "Uma menor regulamentação poderia ter um impacto positivo no crescimento a longo prazo, mas é improvável que ela vá mudar algo nos próximos dois anos."

Muitos trabalhadores de baixa renda salarial estão sendo beneficiados neste novo ano através de algo visto como uma maldição pelas políticas tradicionais republicanas: a regulação do governo. Dezenove Estados aumentarem seus salários mínimos no dia 1º de janeiro, com o Arizona, Washington e o Maine elevando o piso em US$ 1,50 (por hora) ou mais.

Mesmo em Estados onde o aumento salarial não foi tão alto, como na Califórnia, com seu aumento de US$ 0,50 por hora, 1 em cada 10 trabalhadores recebeu um aumento.

Assim como em muitas outras questões, Trump enviou sinais ambíguos sobre esse tema, sugerindo em alguns momentos durante a campanha que aumentos dados pelo Estado eram justificados, mas alertando nos debates das primárias que os salários estavam "altos demais."

Tamir Kalifa/The New York Times
Atendimento ao cliente da Apple em Austin (Texas)

Independentemente de o que Trump acabar decidindo sobre o salário mínimo, seus planos para a economia podem produzir no máximo resultados contraditórios para seu eleitorado da classe trabalhadora, parte do Cinturão da Ferrugem.

Políticas comerciais protecionistas, de acordo com Gapen, produzirão tanto perdedores quanto ganhadores, o que significa uma perturbação para muitas indústrias e trabalhadores, em vez de uma trajetória repentinamente melhorada para o crescimento e emprego em geral.

Ao mesmo tempo, embora a proposta de redução tributária de Trump possa dar um empurrãozinho para a economia se medida pelo PIB —uma perspectiva que encorajou Wall Street— os benefícios provavelmente migrarão para o grupo que mais prosperou durante a recuperação no governo do presidente Barack Obama: os cerca de 10% mais ricos.

De fato, como empresário, Lawrence está empolgado com a perspectiva de redução de impostos. "Em termos de Trump, votei tanto pelo programa de governo quanto pelo indivíduo", ele disse. "Pagar menos impostos me permite investir mais no meu negócio."

Isso se reflete em decisões individuais a respeito de contratações e investimentos. Mas embora os cargos que Lawrence está preenchendo sejam empregos de classe média em Sioux Falls —os salários partem de US$ 45 mil a US$ 50 mil por ano, mais benefícios —, todos eles exigem ensino superior ou alguma outra formação técnica.

John Tully/The New York Times
Funcionários trabalham na Trividia Manufacturing Solutions em Lancaster, New Hampshire

Ajudar os trabalhadores que não têm ensino superior —que compõem o eleitorado mais forte de Trump, e correspondem a cerca de 60% da força de trabalho americana— é muito mais difícil.

Economistas como Nariman Behravesh do IHS Markit, que diz que as propostas de Trump poderiam elevar o crescimento de forma significativa nos próximos dois anos, reconhecem esse dilema.

"Um maior crescimento ajudará a aumentar a população ativa, mas o que ele não vai fazer é ajudar os trabalhadores que ficaram para trás por falta de educação formal ou treinamento", disse Behravesh.

O maior risco econômico no governo de Trump vem de tarifas alfandegárias e outras medidas protecionistas, especialmente se elas provocarem uma resposta de países como a China ou o México.

E diferentemente de impostos e gastos públicos, onde uma ação do Congresso é necessária, com as tarifas o governo tem uma liberdade considerável para impô-las a países que ele rotula como parceiros comerciais injustos ou manipuladores de moedas.

"Você pode argumentar que está equilibrando o jogo", disse Gapen. "Mas o que se obtém em troca são bens mais caros para os consumidores."

Behravesh estima que a economia vá crescer 2,3% este ano, em relação a um ritmo anual de 1,6% estimado no ano passado. O crescimento poderá chegar a 2,6% ou mais em 2018, mas é muito improvável alcançar a meta de 4% de crescimento que Trump esboçou durante a campanha.

"Uma meta de 3% seria até plausível, mas nesse clima não conseguirão atingir isso", disse Behravesh.

Tradutor: UOL

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