Atacada na internet, adolescente se une à família antes de cantar na posse de Trump

Katie Rogers

Em Pittsburgh

  • Ross Mantle/The New York Times

    Jackie Evancho, que cantará o hino na posse de Trump, em um estúdio em Pittsburgh

    Jackie Evancho, que cantará o hino na posse de Trump, em um estúdio em Pittsburgh

As duas irmãs sabem do quê as pessoas as chamam. "Traidora", escrevem completos estranhos pela internet. "Bicha", sussurram outros alunos do colegial.

Jackie Evancho, uma cantora de 16 anos de idade que com seu sucesso no programa "America's Got Talent" da NBC foi alçada à fama internacional, se tornou alvo de intensas críticas a respeito de sua decisão de cantar o hino nacional na cerimônia de posse de Donald Trump no dia 20 de janeiro. Juliet Evancho, 18, sempre defendeu sua irmã mais nova, mas ela está tendo de lidar com repercussões negativas de outro tipo. Juliet se assumiu como transgênero em 2015, e sua família está processando a administração de sua escola pelo direito de usar o banheiro feminino.

Enquanto em uma noite as garotas se aconchegavam uma junto da outra no sofá da sala de estar da família, em um subúrbio de Pittsburgh, as pressões sobre elas—e a devoção mútua—ficavam muito evidentes.

Juliet, que durante anos acompanhou Jackie torcendo por ela em suas apresentações, inclusive na cerimônia de acendimento da Árvore de Natal Nacional com o presidente Barack Obama em 2010, disse que ela não viajaria com a família para Washington para celebrar a apresentação de sua irmã no Capitólio. Juliet disse que ela havia começado a tomar cuidado com "literalmente" tudo para evitar mais críticas. Na semana que vem, ela disse, ela tinha "outros compromissos já marcados".

Jackie gentilmente a defendeu. "É só um acontecimento pessoal, acho", ela disse.

"Eu definitivamente estarei lá", disse Juliet, com dificuldade para encontrar as palavras. "Em espírito", sugeriu Jackie. "Em espírito", sua irmã concordou.

Ross Mantle/The New York Times
Jackie com os irmãos Juliet, 18, Zachary, 14, e Rachel, 13

As garotas, em uma rara entrevista, insistiram que a ausência de Juliet não tinha nada a ver com a polarização da política em torno da posse.

Não ficou claro sequer se Juliet foi convidada para a posse. O pai das garotas, Mike Evancho, disse que ele ainda não sabia se a família inteira, incluindo os pais e os três irmãos de Jackie, teria ganho ingressos.

Boris Epshteyn, um porta-voz do comitê da posse de Trump, não respondeu se a família inteira havia sido convidada.

Com a aproximação da posse, Jackie e alguns outros artistas têm enfrentado um escrutínio fora do normal por parte de uma nação dividida, determinada a conhecer suas motivações e inclinações políticas. Algumas ex-integrantes das Rockettes questionaram a disposição de integrantes atuais em dançar para Trump como planejado, e uma petição online circulou pedindo para que o Coro do Tabernáculo Mórmon não cantasse para ele.

Dois dos antigos colaboradores de Jackie também negaram boatos de que se apresentariam na posse: o tenor italiano Andrea Bocelli negou que ele se apresentaria no evento. David Foster, produtor e compositor que Jackie chama de seu "pai musical", foi convidado para se apresentar mas recusou, e não quis comentar a respeito.

A pouco mais de uma semana até a posse de Trump, Jackie continua sendo a única atração que se comprometeu a se apresentar. O presidente eleito e a cantora já se cruzaram antes, quando ela se apresentou em um evento em seu resort Mar-a-Lago em Palm Beach, na Flórida. Ela descreveu Trump como sendo "muito educado" e disse que ela decidiu por si mesma aceitar a oferta para cantar na posse.

"Eu só meio que pensei que isso é pelo meu país", ela disse. "Então se as pessoas vão me odiar, será pela razão errada."

Nas mídias sociais, onde as pessoas têm uma linha direta com o Twitter e o Instagram das irmãs, uma enxurrada de comentários criticava Jackie por se apresentar para Trump mesmo tendo uma irmã transgênero. Seus críticos estão focando no histórico na causa gay do vice-presidente eleito de Trump, Mike Pence, que quando foi govenador de Indiana validou uma lei de liberdade religiosa que foi amplamente condenada por permitir discriminações contra os gays.

Jackie, uma estudante do penúltimo ano do colegial que é bastante confiante para sua idade - mas se descreve como sendo tão tímida que tem somente uma amiga próxima -, insistiu diplomaticamente que ela consegue apoiar em "100%" a luta de sua irmã por direitos legais e cantar para Trump ao mesmo tempo.

"Para mim não é algo político", disse Jackie sobre o processo do banheiro feminino. "É só a respeito de aceitar as pessoas pelo que elas são."

As críticas feitas contra Jackie atraíram uma refutação mordaz por parte de Trump e de seu comitê de posse, que tem enfrentado dificuldades para conseguir artistas para o evento. O presidente eleito postou no Twitter na semana passada que as vendas do álbum de Jackie haviam "disparado depois de anunciada sua apresentação na cerimônia de posse". (As vendas de seu mais recente álbum, "Someday at Christmas", de fato aumentaram bruscamente, segundo uma análise da Billboard.)

E Epshteyn, o porta-voz do comitê, advertiu àqueles que atacaram Jackie, a quem chamou de "a melhor e mais brilhante dos Estados Unidos."

"É muito entristecedor que estejamos em um lugar em nosso discurso onde aqueles que estão ansiosos para honrar os Estados Unidos na posse de um presidente sejam sujeitos ao ódio e à ridicularização", escreveu Epshteyn por e-mail.

Mike Evancho e sua mulher, Lisa, que se negaram a dar declarações a respeito da posse à maior parte da mídia, têm tentado ignorar a controvérsia em torno da oportunidade de apresentação que pode definir a carreira de sua filha, ao mesmo tempo em que se preparam em casa para dar continuidade ao processo contra o Distrito Escolar de Pine-Richland.

Mike Evancho, que não quis revelar em quem votou nas eleições nacionais, disse que a política presidencial não influenciava a decisão da família de apoiar Juliet.

"Estamos lutando contra essa discriminação no colégio", disse Evancho, 47, sobre sua filha mais velha. "Não importa quem vai assumir o cargo, nós ainda assim compraríamos essa briga."

Juliet, com suas maçãs do rosto salientes e longo cabelo castanho, pretende seguir a carreira de modelo. Hoje no último ano do colegial, ela quer passar um ano depois de se formar militando pela causa gay e transgênero. Ela disse que a cerimônia de posse havia a transformado em referência para os jovens que não têm certeza de como se assumir, mas ela não quer que suas ações sejam vistas como políticas.

"Estou me expondo e militando", ela disse. "Não é de fato para nenhum aspecto supra- político quando se trata de uma presidência."

Antes de chegar em casa naquela noite, Jackie havia passado a maior parte do dia gravando "The Way We Were", juntamente com o hino "How Great Thou Art", para seu próximo álbum, um projeto sem nome que ela pretende lançar essa primavera.

Ela considerou cuidadosamente como ela poderia mudar sua carreira de cantora saindo do crossover clássico, onde ela se manteve firme desde que ela cantou a ária "O mio babbino caro", no programa "America's Got Talent". Devido à sua popularidade, seu lançamento de 2010, "O Holy Night", tornou-a a mais jovem artista solo dos Estados Unidos a ganhar um álbum de platina.

O trabalho em seu novo álbum tem sido uma bem-vinda distração de tudo que envolve cantar o hino nacional americano ao vivo diante de uma nação polarizada. Ela conta que se para para pensar sobre isso por um momento sequer, sente um frio na barriga.

Um agressivo ambiente midiático acabou prejudicando muitas celebridades associadas a Trump. Mas Howard Bragman, que trabalhou como relações públicas da indústria do entretenimento durante quase quatro décadas, disse que a pouca idade de Jackie provavelmente permitiria que ela se apresentasse sem o mesmo nível de críticas que músicos mais velhos poderiam enfrentar.

"Acho que ela é provavelmente uma figura bastante agradável", ele acrescentou. "Se as pessoas começarem a atacar uma menina de 16 anos, vai pegar mal para elas."

Tradutor: UOL

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