Chantagem com gravações ilegais e prostitutas era arma tradicional da União Soviética

Andrew Higgins e Andrew E. Kramer

  • Mike Segar/ Reuters

    Trump pode ter sido vítima de um dossiê difamatório produzido por espiões russos

    Trump pode ter sido vítima de um dossiê difamatório produzido por espiões russos

Quando a União Soviética criou o hotel e a agência de turismo Intourist durante o governo de Stálin, os mensageiros, motoristas, cozinheiros e camareiras trabalhavam todos para a NKVD, a polícia secreta que depois passou a ser conhecida como KGB. Na folha de pagamento também havia as prostitutas usadas para ludibriar e chantagear políticos e empresários estrangeiros em visita.

Os hotéis russos da Intourist foram vendidos desde então, incluindo o decadente carro-chefe da companhia de viagens na mesma rua do Kremlin. Depois de uma extravagante reforma e dotado de um spa, além de funções especiais de segurança, hoje o hotel é um Ritz-Carlton, um templo cinco estrelas de luxo que se promove como "um inesquecível retiro no coração da cidade".

Mas, de acordo com memorandos altamente difamatórios e não confirmados preparados por um ex-agente da inteligência britânica para uma empresa de pesquisas corporativas e políticas de Washington, o Ritz continuou sendo um lugar onde hóspedes estrangeiros, incluindo Donald Trump, podem acabar sendo vítimas da arte russa do "kompromat", a coleta de material comprometedor como fonte de chantagem.

Um resumo das descobertas do ex-espião foi apresentado na semana passada ao presidente Barack Obama e ao presidente eleito Trump, que em uma coletiva de imprensa realizada na quarta-feira acusou as alegações publicadas de serem "notícias falsas". Uma porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia minimizou as acusações como sendo "um absurdo desconcertante" e um "disparate ultrajante".

Trump admite que Rússia pode ter hackeado Hillary

Uma porta-voz do hotel se recusou a discutir a questão. "Seguindo o padrão de nossa empresa de proteger a privacidade de nossos hóspedes, não falamos sobre nenhum indivíduo ou grupo com quem possamos ter feito negócios", disse por e-mail Irina Zaitseva, gerente de marketing e comunicação do hotel.

O que quer que tenha acontecido ou não na suíte de Trump em 2013, quando ele visitou Moscou para participar de um concurso do Miss Universo, a Rússia tem um longo e bem documentado histórico do uso de kompromat para acabar com a reputação dos inimigos do Kremlin e ganhar o apoio de amigos em potencial.

Durante décadas, hotéis por toda a antiga União Soviética visitados por estrangeiros foram equipados com dispositivos de espionagem e câmeras pela KGB. Um remanescente disso ainda pode ser visto em Tallinn, capital da antiga república soviética da Estônia, onde os novos proprietários finlandeses de um antigo hotel Intourist criaram um museu para mostrar como eram a vigilância e outras técnicas usadas para espionar e chantagear hóspedes estrangeiros.

Peep Ehasalu, que ajudou a criar o museu, disse que 60 dos 423 quartos do hotel eram espionados e reservados para "pessoas interessantes" como empresários estrangeiros. Os hóspedes que fossem considerados vulneráveis eram colocados em quartos com buracos nas paredes através dos quais câmeras especiais filmavam encontros com prostitutas. Todas as prostitutas, segundo Ehasalu, trabalhavam para a KGB, que espantavam trabalhadoras do sexo independentes que não tivessem sido oficialmente aprovadas.

A maioria dos hóspedes na época eram da Finlândia, que tinham relações excepcionalmente próximas e obsequiosas com Moscou, mas com os quais líderes soviéticos sempre tinham a preocupação de penderem para o Ocidente. Para desencorajar isso, a KGB tinha como alvo figuras chave da Finlândia que viajavam para a Estônia.

"Se um politico ou empresário sabe que a KGB pode publicar fotos constrangedoras dele ou enviá-las para sua mulher, essa pessoa é muito fácil de controlar", disse Ehasalu em uma entrevista por telefone. Segundo ele, empresários que caíram nessa armadilha "voltaram todos para casa dizendo que a vida na União Soviética era ótima e que a Finlândia deveria fazer mais negócios com os soviéticos".

A Rússia, diferentemente da Estônia, mal abandonou os métodos da era soviética. A FSB, agência que sucedeu a KGB, perdeu boa parte de sua influência no começo dos anos 1990, mas voltou a se afirmar desde que Vladimir Putin assumiu o poder 16 anos atrás.

Antes de se tornar presidente, Putin teve um papel proeminente em uma operação particularmente bem-sucedida de kompromat. Como chefe da FSB em 1997, ele conquistou a confiança do presidente Boris Yeltsin ajudando a destruir a carreira do procurador-geral da Rússia, Yuri Skuratov. Depois de iniciar uma investigação sobre a corrupção no Kremlin, o procurador caiu em desgraça em rede nacional após a divulgação de um vídeo que mostrava um homem parecido com ele na cama com duas jovens.

Putin atestou em público que o homem no vídeo, que muitos pensavam ter sido armado e então filmado pela FSB, de fato era o procurador-geral. Skuratov renunciou, a investigação sobre corrupção foi encerrada e um Yeltsin grato nomeou Putin primeiro-ministro, abrindo seu caminho para a presidência.

Diferentemente de relatórios inteiramente fabricados de comportamento criminoso ou simplesmente constrangedor, o kompromat em geral é verdadeiro, embora as fotos e vídeos às vezes sejam editados para aumentar o constrangimento. Isso faz dele uma arma particularmente perigosa que pode facilmente dar um tiro pela culatra.

Mark Galeotti, um especialista em serviços de segurança da Rússia no Instituto de Relações Internacionais em Praga, disse que a estratégia não verificada sugerida pelo espião britânico era "muito arriscada", e que não faria sentido a Rússia chantagear Trump.

"Se os russos algum dia divulgassem um vídeo desses, eles estariam declarando guerra a Trump", ele disse. "E isso definitivamente não é algo que Putin gostaria de fazer."

Para adversários de Putin na oposição da Rússia, o kompromat, incluindo vídeos de sexo gravados secretamente, se tornaram um problema sério.

A divulgação de material constrangedor teve consequências devastadoras para as famílias e as carreiras de alguns ativistas, deixando cicatrizes durante anos. Mas a divulgação de um material como esse também pode ser uma honra, indicando que o alvo não sucumbiu à chantagem.

Tradutor: UOL

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos