Enquanto Trump se aproxima de Putin, tropas americanas chegam à Polônia

Rick Lyman e Joanna Berendt

Em Varsóvia (Polônia)

  • Agencja Gazeta/Anna Krasko/Reuters

    Soldados americanos chegam a Zagan, na Polônia, como parte de destacamento da Otan

    Soldados americanos chegam a Zagan, na Polônia, como parte de destacamento da Otan

O longo comboio de uma brigada blindada dos EUA deslizou sem empecilhos pela fronteira da Alemanha com a Polônia pouco antes das 10h da última quinta-feira (12). Uma dezena de moradores da cidade de Olszyna, na fronteira sudoeste, vieram espiar.

"Os americanos chegando aqui é a maior coisa que já nos aconteceu", disse um morador, Mieczyslaw Mroz, 62.

O comboio --a primeira leva dos prometidos milhares de soldados da Otan que ficarão baseadas em todo o leste da Europa-- se arrastou pela cidade próxima de Zagan para uma cerimônia oficial de boas-vindas em uma praça gelada, guardada por tanques de guerra.

"Já estava na hora", disse Jan Siemion, 62, um trabalhador de segurança aposentado que chegou no final dos discursos. "Talvez isso detenha esse sujeito do leste que nos aterroriza há décadas."

Depois de anos desejando uma presença permanente de tropas da Otan ao longo do flanco oriental da aliança --para manter à distância o "sujeito do leste", o presidente russo, Vladimir Putin--, os líderes poloneses e de outros países ficaram felizes quando foi aprovado, na cúpula da aliança em Varsóvia no último verão, o plano de estacionar um contingente multinacional rotativo de alguns milhares de soldados.

Mas agora, quando as tropas chegam ao local, a situação mudou radicalmente e a promessa de segurança parece muito menos garantida.

O presidente eleito Donald Trump chega ao governo dos EUA com uma série de declarações às vezes contraditórias sobre a Otan e insistindo em uma nova era de relações mais próximas com o líder autocrático da Rússia.

Por isso há uma preocupação considerável em Varsóvia e em outras capitais do leste sobre se as tropas realmente virão no volume prometido e se esse desejo de relações mais amistosas com Moscou levará a um acordo que prejudique toda a iniciativa.

"Cada novo presidente americano quer iniciar algum tipo de grande barganha com a Rússia", disse Marcin Zaborowski, vice-presidente executivo do Centro para Análise Política Europeia e diretor de seu escritório em Varsóvia. "E essa região sempre sofre em consequência disso. Eu desconfio que o sofrimento será maior desta vez."

As autoridades da Otan, atuais e passadas, dizem estar convencidas de que a mobilização continuará e confiantes em que o novo presidente logo compreenderá a natureza da ameaça que Putin representa para a Europa e os EUA.

"Estou absolutamente confiante em que o compromisso dos EUA é sólido como rocha", disse em entrevista por telefone Jens Stoltenberg, o secretário-geral da Otan. "Donald Trump me disse isso. Ele foi muito firme."

As declarações que Trump fez durante a campanha, questionando se a Otan havia perdido a utilidade, refletiam em parte seu senso de empresário, porque os aliados não estavam pagando sua parcela devida dos custos da aliança, segundo autoridades.

"Nossos serviços de inteligência têm fontes muito precisas sobre o comportamento russo", disse James Stavridis, um almirante aposentado da Marinha dos EUA, comandante supremo da Otan de 2009 a 2013 e hoje reitor da Escola Fletcher de Direito e Diplomacia na Universidade Tufts.

"Quando o novo presidente vir isso, ele dará seu apoio. Conforme ele absorver mais informação sobre a Rússia, seu ceticismo sobre Vladimir Putin se aprofundará."

E o futuro comportamento da Rússia também poderá obrigar a aliança a continuar as mobilizações.

"Eu acho que é altamente improvável que Putin mude de um tubarão para um peixinho dourado", disse Stavridis. "Vamos ver o comportamento de tubarão continuar em torno da periferia da Otan."

As mobilizações são estruturadas em rodízios de nove meses. A brigada blindada que cruzou a fronteira na manhã de quinta-feira, baseada em Fort Carson, no Colorado, permanecerá até o outono, algumas tropas em uma base perto de Zagan e outras espalhadas pela região. Mas elas não deverão partir antes que a substituição esteja no local, o que torna a mobilização permanente, de fato.

Um segundo contingente americano, esperado para abril, deverá ser posicionado no leste da Polônia e no Corredor de Suwalki [área que conecta a Belorus, aliada de Moscou, ao enclave russo de Kaliningrado, no mar Báltico], considerado a parte mais vulnerável a uma invasão russa por terra, embora tal medida seja considerada improvável.

Mas aqui no leste europeu líderes poloneses e outros da região têm menos certeza disso. Eles se perguntam se essas futuras tropas aparecerão depois que Trump assumir o cargo e, em caso positivo, se ficarão baseadas no leste, como prometido.

Isso não leva em conta preocupações sobre outras iniciativas prometidas pelos EUA e a Otan para tranquilizar o leste nervoso, incluindo um escudo antimísseis americano a ser construído na Polônia, semelhante ao existente na Romênia, e a abertura de depósitos avançados de suprimentos por toda a região, onde a Otan poderia estocar armamentos para possibilitar uma rápida mobilização no caso de uma invasão.

"Eu diria que o posicionamento avançado não acontecerá e, se houver algum, será no oeste da Polônia", disse Zaborowski. "Trump chegará a algum tipo de acordo com Putin sobre manter o nível das tropas o mais baixo possível, mantendo a capacidade de dissuasão real o mais baixa possível e com as tropas no oeste da Polônia, e não no leste."

Stavridis disse esperar que as mobilizações de tropas ocorram como programado, mas suspeita que o desejo da nova administração em Washington de um acordo com Moscou leve a alguma barganha, talvez envolvendo o prometido escudo antimísseis.

A indicação do general James Mattis, um forte defensor da Otan, como secretário da Defesa de Trump dá mais confiança aos europeus orientais.

"Eu ficaria muito surpreso se o general Mattis recuasse", disse Thomas Donnelly, codiretor do Centro Marilyn Ware para Estudos de Segurança no Instituto Americano de Empresas. "Essa mobilização pode não ser tudo o que gostaríamos, mas é um avanço real. É definitivamente mais que meia medida."

Agora, pelo menos, se os russos atravessarem a fronteira, "poderão se deparar com forças da Otan ou até matar alguns americanos", disse ele, e isso será um dissuasor poderoso.

"Trump está falando pelos dois lados da boca", disse Donnelly. "Mas ele respeita homens-fortes. Ele se considera um homem-forte. Acho que haverá mais na relação EUA-Rússia do que Trump fazer o que Putin quiser que ele faça."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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