Ele ajudou a derrubar um ditador africano e hoje vive como um anônimo em NY

Dionne Searcey

Em Nova York

  • Angel Franco/The New York Times

Todo conjunto habitacional dos Estados Unidos está repleto de histórias pessoais de luta e sobrevivência. Esta é a história de um homem de chapéu fedora preto que vive na unidade 16G no Bronx. Seu nome é Souleymane Guengueng, e ele derrubou um ditador africano assassino.

Nos anos 1980, Guengueng foi uma das inúmeras pessoas presas e torturadas durante o reinado cruel do presidente do Chade, Hissène Habré, um país sem costa marítima da África Central. Quando ele foi solto da prisão depois de dois anos e meio, Guengueng partiu em busca de justiça, gravando meticulosamente os depoimentos de sobreviventes e dos parentes daqueles que foram mortos por determinação de Habré. Ele acabou obtendo registros com detalhes sobre o abuso e o assassinato de mais de 700 pessoas.

Ativistas dos direitos humanos coletaram seus relatos e os usaram como peças-chave para entrar com uma ação criminal contra Habré. Não era um caso fácil, e foi difícil encontrar um tribunal para julgar um chefe de Estado. Durante mais de 16 anos, o caso foi jogado de um lado para outro entre nações e continentes, com Guengueng oferecendo seu clamor pessoal por justiça a qualquer um que quisesse ouvir.

Em maio, em Dacar, no Senegal, onde Habré viveu durante o exílio, o ditador foi finalmente condenado. Na semana que vem, um tribunal no país ouvirá sua apelação.

No dia do veredicto que o declarou culpado, um Habré insolente, usando óculos escuros e a cabeça envolta em lenços brancos como se estivesse enfrentando uma tempestade no deserto, ergueu os punhos e gritou para seus simpatizantes no tribunal.

Guengueng também estava no tribunal, com seu indefectível chapéu ao seu lado, rodeado por ativistas dos direitos humanos que haviam entrado na Justiça contra outros ditadores. Ele havia sido uma testemunha-chave no julgamento. Lágrimas corriam de seus olhos, com uma mistura de orgulho, vingança, tristeza e alívio.

"Foi como uma experiência extracorporal para mim", disse Guengueng, 67. "Habré está na prisão agora. Habré deve estar dizendo: 'Olhe para mim agora, ele está nesse lugar e eu estou na prisão.'"

Para Guengueng, "esse lugar" é um arrumado apartamento de três quartos no Bronx, um dos 160 apartamentos em um elevado conjunto habitacional de uma rua pouco notável da Cidade de Nova York.

No mundo dos direitos humanos, Guengueng é uma celebridade, que às vezes é até parada na rua por pessoas que o reconhecem quando ele viaja pelo mundo. Em Nova York, ele é só mais um rosto na multidão.

Angel Franco/The New York Times

Guengueng saiu de sua casa em Ndjamena, capital do Chade, e veio aos Estados Unidos pela primeira vez em 2002, para aceitar um prêmio de direitos humanos. Ele conheceu o ator Samuel L. Jackson, cruzou a State Route 1 da Califórnia junto à costa do Pacífico em um conversível e parou para visitar Carmel-by-the-Sea, na Califórnia. ("Très chic!", ele disse, de sobrancelhas erguidas.)

Em 2005, enquanto vivia no Chade, Guengueng sofreu um rasgo na retina. Durante muito tempo ele usou óculos fundo de garrafa por causa de problemas de vista, e ele disse suspeitar que seu tempo na prisão havia agravado sua condição.

Reed Brody, um ex-advogado da Human Rights Watch que obstinadamente tocou o caso contra Habré, providenciou para que Guengueng voasse até Nova York para receber tratamento médico. Ele se recuperou no apartamento de Brody no Brooklyn, fazendo longas caminhadas pelo Prospect Park.

Enquanto seus olhos saravam, ele começou a ouvir de amigos e familiares que sua vida poderia estar em risco se ele voltasse para casa. Habré foi derrubado por um golpe em 1990, mas ele ainda tinha muitos partidários no Chade.

Com a ajuda da Human Rights Watch, Guengueng se candidatou com sucesso ao asilo nos Estados Unidos, e ele logo trouxe sua mulher e sete filhos para Nova York.

Então ele começou a ter problemas financeiros e azar. Guengueng estava na folha de pagamentos da Human Rights Watch, trabalhando no caso a partir de Nova York. Mas esse trabalho acabou.

Ele foi contratado como vigia noturno. Mas, em 2007, durante um passeio no calçadão de Coney Island, ele caiu e quebrou a perna. Sua recuperação foi longa, e ele perdeu o emprego.

Sua filha mais velha sustentava a família trabalhando em um restaurante, mas ela ficou doente e morreu, deixando a família quase sem renda.

A vida familiar era tensa. Guengueng é trilíngue, mas o inglês era difícil de aprender e as aulas não ajudavam. Em Nova York, sua mulher sentia que havia perdido a independência vivendo em um lugar desconhecido onde ela não falava o idioma. E Nova York era fria. No Chade, as temperaturas durante a tarde raramente caíam para baixo de 32º C.

Guengueng não desistiu. Ele e alguns amigos juntaram seus recursos para comprar uma delicatessen, mas perderam o dinheiro quando o contrato não deu certo. Ele se matriculou em um curso para aprender sobre intermediação entre seguradoras e hospitais, mas não conseguiu encontrar trabalho na área. Ele tentou dirigir um táxi, mas o trabalho piorou a condição de sua perna, que nunca mais foi a mesma desde a fratura. Sua mulher fez um curso de babá, mas não tinha espaço para cuidar de crianças. Lá no Chade, outra filha sua morreu em um incêndio.

Guengueng intercalava suas atribulações diárias com o trabalho no caso Habré, indo junto com Brody para tribunais de todo o mundo para clamar por justiça pessoalmente.

"Ele é um herói", disse Brody. "Ele fez muito para mudar a história. No entanto, seu dia a dia é de percalços e desgostos."

A família se mudou da casa de um amigo em Long Island para um pequeno imóvel alugado no Queens. Eles não conseguiram pagar o aluguel mensal de US$ 2 mil (cerca de R$ 6 mil) e foram despejados.

Três anos e meio atrás, a família de Guengueng teve de se mudar para um abrigo de sem-teto, onde eles se espremiam em dois quartos. Determinado a encontrar algo melhor, ele praticamente memorizou as complexidades das leis de habitação de Nova York enquanto procurava por uma moradia subsidiada pelo governo.

Por fim, em março, a família deixou o abrigo e se mudou para o apartamento onde vivem atualmente no Bronx. Ele mora ali com três de seus filhos. Os outros cresceram e saíram de casa. A maioria deles fala inglês, e um dos filhos, Jacob, de 25 anos, se formou na faculdade e trabalha como motorista do Uber.

Em uma tarde dessas no apartamento de Guengueng, passava um filme da Costa do Marfim na televisão. Brody chegou para ver seu velho amigo. Guengueng insistiu em tirar seu empoeirado prêmio e estatuetas de direitos humanos de seu armário. Ele os acariciava cuidadosamente como se fossem pedras preciosas.

Guengueng estará no tribunal na semana que vem para a apelação, mas sua antiga obsessão com o caso terminou.

"É como se tivesse acontecido uma cura psicológica", disse Guengueng, cujo rosto é marcado por profundas cicatrizes tribais. "Se eu tivesse simplesmente permitido que essa situação persistisse e continuasse levando uma vida normal, eu teria me sentido incompleto. Como se fosse um homem pela metade."

Guengueng, que se diz velho demais para encontrar um bom emprego, passa seus dias percorrendo postos da prefeitura em busca de vales-alimentação e auxílio-moradia. De vez em quando a rotina é quebrada por algum jantar de gala em Manhattan, onde ele recebe prêmios por seu trabalho.

Ele quer criar uma fundação onde ele possa aconselhar outras vítimas como ele, mas ainda precisa encontrar um grande doador. Seu tormento acabou.

"Agora", ele disse, "eu penso nos outros."

Tradutor: UOL

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