Empresas norte-americanas 'abrem a carteira' para bancar posse de Trump

Nicholas Fandos

Em Washington (EUA)

  • Seth Wenig/ AP

Quando Donald Trump entrar no salão de baile da posse nesta semana, em meio à ampla celebração do início de seu mandato, ele terá a América corporativa e muitos de seus titãs para agradecer pela entusiástica recepção. 

A Chevron, a gigante do petróleo, doou US$ 500 mil para o dia de festividades. A Boeing, que tem sido um alvo de Trump, doou US$ 1 milhão. E Sheldon e Miriam Adelson, gigantes do setor de cassinos, teriam doado mais do que isso pessoalmente. E não são os únicos. 

Ao todo, o grupo que planeja as festividades da posse diz ter levantado mais de US$ 100 milhões, o que representaria quase o dobro do recorde para uma posse, com grande parte desse dinheiro vindo em cheques de seis e sete dígitos dados pelas corporações americanas. 

Em troca, os principais doadores de Trump terão acesso ao que representa uma semana paralela de posse, cuidadosamente planejada e em grande parte longe dos olhares públicos, durante a qual poderão se misturar em meio a refeições com os membros do governo que tem início e testemunhar das primeiras filas a ascensão de Trump. 

Independente de qual partido esteja no controle da Casa Branca, empresas e indivíduos ricos abrem seus talões de cheque a cada quatro anos, e o governo recompensa seus doadores com eventos privados e outros incentivos. 

Mas especialistas em ética dizem que os doadores de Trump estão recebendo maior acesso e enfrentando menos limites às doações do que em outras posses recentes, apesar da promessa dele de "drenar o pântano" dos interesses especiais em Washington. 

"Isso representa uma venda do acesso ao presidente, ao vice-presidente e ao Gabinete", disse Craig Holman, um lobista registrado da Public Citizen, um grupo de ética não partidário em Washington. "Trata-se de uma venda de acesso, descarada e sem restrições. Certamente vai contra a promessa de qualquer candidato presidencial de drenar o pântano." 

Para aqueles que bancaram os eventos, a semana da posse parecerá um tanto diferente daquela que os americanos comuns verão em casa ou no Passeio Nacional. As festividades terão início na noite de terça-feira com o "Jantar Global do Presidente" black-tie para os escolhidos para o Gabinete de Trump, líderes do Congresso, diplomatas estrangeiros e alguns poucos dos maiores doadores. 

Na quarta-feira, os eventos incluem uma recepção na hora do almoço tendo como anfitrião Reince Priebus, o futuro chefe de gabinete da Casa Branca, e um jantar em homenagem ao vice-presidente eleito Mike Pence, segundo uma cópia da agenda da semana obtida pelo "New York Times". 

Na quinta-feira haverá outro "almoço da liderança", um concerto público no Memorial de Lincoln com a apresentação de artistas como Toby Keith e 3 Doors Down, e um jantar à luz de velas com Trump e sua família para cerca de 1.500 pessoas no grande salão da Union Station. 

Diferente das campanhas, os comitês de posse enfrentam poucas regulamentações que limitam o que podem arrecadar e como podem fazê-lo. Tradicionalmente fica a cabo de cada governo estabelecer suas próprias restrições. 

George W. Bush não impôs restrições a quem poderia doar, mas estabeleceu um teto às doações de US$ 100 mil em 2001 e US$ 250 mil em 2005. 

Barack Obama foi além em 2009, proibindo doações de lobistas e empresas, e limitando as doações individuais a US$ 50 mil, apesar de sua equipe de arrecadação de fundos ter levantado US$ 53 milhões, um recorde na época. Ele relaxou essas restrições em 2013, em geral aceitando doações de empresas de até US$ 1 milhão e doações individuais de até US$ 250 mil. 

A equipe de Trump disse que não aceitaria doações de lobistas federais registrados ou que solicitaria doações de empresas acima de US$ 1 milhão. O comitê não estabeleceu um teto para as contribuições de indivíduos. 

Apesar de Obama e Bush também terem oferecido pacotes de incentivo, Holman, da Public Citizen, disse que os pacotes oferecidos pela equipe de Trump parecem prometer maior acesso do que os do passado. 

O comitê não será obrigado a revelar seus doadores até o final de abril, 90 dias após a posse. 

Os fundos cobrirão toda a programação não oficial da posse, apesar do comitê não ter detalhado exatamente o quanto planeja gastar. Um porta-voz, Boris Epshteyn, disse que qualquer dinheiro que sobrar será doado para a caridade. 

Thomas Barrack Jr., o investidor de private equity que lidera o comitê, disse que o trabalho do grupo foi facilitado consideravelmente por um grande pool inexplorado de doadores que, por um motivo ou outro, não apoiaram a campanha de Trump. 

O esforço de arrecadação de fundos também mostra que a América corporativa está aceitando a realidade de que terá que lidar com Trump, que já demonstrou disposição de transformar empresas individuais em alvos de críticas. A posse dele oferece a elas uma primeira chance de demonstrar seu apoio. 

"Muitas pessoas que não estavam a bordo no início agora estão", disse Mel Sembler, um antigo arrecadador de fundos republicano que ajudou a solicitar doações. 

Vários membros do comitê rejeitaram as críticas à arrecadação de fundos. 

"Veja, muitas pessoas são apenas bons cidadãos americanos e desejam apoiar a transferência de poder", disse Ray Washburne, um investidor de Dallas e membro do comitê. "Quanto a comprar influência, não sei que tipo de influência isso pode comprar." 

Sembler concordou, mas disse que certamente se trata de "boas relações públicas" para as empresas americanas apoiar a celebração. 

"É importante ter seu nome lá se você está nesse negócio", ele disse. "É como apoiar sua comunidade."

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Tradutor: George El Khouri Andolfato

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