Hoje "distante", Trump caçou negócios na Rússia por três décadas

Megan Twohey e Steve Eder*

  • Xinhua/Vyacheslav Prokofyev/ITAR-TASS/ZUMAPRESS

    Trump com os empresários do grupo Crocus, da Rússia, em Moscou, em 2013. Presidente eleito dos EUA realizou um concurso Miss Universo na capital russa quatro anos atrás

    Trump com os empresários do grupo Crocus, da Rússia, em Moscou, em 2013. Presidente eleito dos EUA realizou um concurso Miss Universo na capital russa quatro anos atrás

Era 2005, e Felix Sater, um imigrante russo, estava novamente em Moscou atrás de um plano ambicioso: construir uma Trump Tower no terreno de uma antiga fábrica de lápis junto ao rio Moscou, que ofereceria quartos de hotel, apartamentos residenciais e escritórios.

Cartas de intenção tinham sido assinadas, e a área a ser construída estava sendo analisada. "Havia uma oportunidade de explorar em escala internacional a construção das Trump Towers", disse Sater, que trabalhava em uma incorporadora sediada em Nova York que foi sócia de Donald Trump em diversos negócios naquela década. "E a Rússia era um desses países."

Os comentários favoráveis do presidente-eleito sobre o presidente Vladimir Putin, da Rússia, e a conclusão de autoridades de inteligência dos EUA de que Moscou agiu para ajudar na campanha de Trump concentraram a atenção nos interesses comerciais de Trump na Rússia. Perguntado sobre o assunto em sua entrevista coletiva na semana passada, Trump foi enfático sobre um ponto: "Não tenho negócios com a Rússia". E repetiu: "Não tenho negócios que poderiam ocorrer na Rússia, porque nos mantivemos distantes".

O projeto na antiga fábrica de lápis afinal esfriou. E quando Trump entrou na corrida presidencial havia falhado em erguer do chão qualquer negócio imobiliário na Rússia. Mas não foi por falta de tentar.

Trump repetidamente buscou negócios na Rússia desde 1987, quando viajou até lá para avaliar a construção de um hotel. Ele pediu registro de sua marca no país em 1996. E seus filhos e sócios apareceram em Moscou diversas vezes em busca de joint ventures, encontrando-se com empreiteiros e autoridades do governo.

Durante uma viagem em 2006, Sater e dois filhos de Trump, Donald Jr. e Ivanka, hospedaram-se no histórico Hotel Nacional Moscou, em frente ao Kremlin, conectando-se com potenciais parceiros durante a estada de vários dias.

Já em 2013, Donald Trump esteve em Moscou. Ele vendeu a empreiteiras russas o direito de organizar o concurso de Miss Universo daquele ano e aproveitou a visita como oportunidade para discutir negócios imobiliários. Trump escreveu no Twitter na época: "TRUMP TOWER MOSCOU é a próxima".

Quando o mercado russo se abriu, na era pós-soviética, Trump e seus sócios procuraram russos que haviam enriquecido recentemente para que comprassem apartamentos em Trump Towers em Nova York e na Flórida, vendas de que ele se gabou em uma entrevista em 2014. "Conheço os russos melhor que ninguém", disse a Michael D'Antonio, um biógrafo do empresário que compartilhou com "The New York Times" trechos de entrevista não publicados.

Buscar negócios na Rússia tornou-se parte de uma estratégia mais ampla para expandir a marca Trump no mundo todo. Em meados dos anos 2000, o empresário estava principalmente licenciando seu nome para hotéis, condomínios e torres comerciais, mais que construindo ou investindo em imóveis. Ele descobriu que seu nome era especialmente atraente nos países em desenvolvimento, onde os ricos em ascensão aspiravam ao tipo de glamour vistoso que ele personificava.

Quando perguntado sobre a afirmação de Trump de que ele havia "se mantido distante" da Rússia, Alan Garten, advogado-geral da Organização Trump, disse que era uma caracterização correta, já que nenhuma das oportunidades de empreendimento se materializou. O interesse de Trump pela Rússia, segundo ele, não era diferente de sua atração por outros mercados emergentes em que ele investigava possíveis empreendimentos. Garten não respondeu a perguntas sobre com quem Trump se encontrou em Moscou em 2013 e o que foi conversado.

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Negócios à espreita

Ted Liebman, um arquiteto estabelecido em Nova York, recebeu a ligação em 1996. Trump e a Liggett-Ducat, empresa de tabaco americana que possuía imóveis em Moscou, queriam construir um empreendimento residencial de alto nível perto de um antigo estádio olímpico russo. Enquanto se preparavam para se reunir com autoridades em Moscou, precisavam de esboços da Trump Tower que imaginavam.

O arquiteto correu para atender ao pedido e entregou projetos a Trump em seu escritório em Manhattan. "Espero que possamos fazer isso", Liebman lembra que Trump lhe disse.

Pouco depois, Trump estava na Rússia, promovendo a proposta e fazendo elogios ao mercado russo.

"Já vi cidades do mundo inteiro. De algumas eu gostei, de outras não", disse Trump em uma entrevista coletiva em Moscou em 1996, segundo o jornal "The Moscow Times". Mas ele acrescentou que nada do que havia visto o "impressionou tanto como potencial de uma cidade quanto Moscou".

Trump vinha espreitando esse potencial havia quase uma década, manifestando interesse a autoridades que vão do líder soviético Mikhail Gorbachev (eles se encontraram pela primeira vez em Washington em 1987) ao personagem militar Alexander Lebed.

O projeto de 1996 não se materializou, mas Trump ficou muito conhecido na Rússia. Moscou estava em pleno boom de construção, que transformou a capital de um conjunto soviético sem graça em uma cidade moderna reluzente.

Yuri Luzhkov, que era prefeito de Moscou na época, disse em uma entrevista que havia se encontrado com Trump e mostrara a ele planos de um enorme shopping center subterrâneo próximo aos portões do Kremlin. Trump sugeriu conectá-lo ao metrô, "uma observação muito importante", disse Luzhkov. Hoje, os visitantes do shopping center Okhotny Ryad podem ir diretamente do metrô à loja Calvin Klein sem passar frio.

Nos anos seguintes, a atuação de Trump na Rússia foi reforçada por um círculo crescente de sócios e parceiros no Canadá e nos EUA que tinham raízes na região. Entre eles estava Tevfik Arif, uma ex-autoridade comercial soviética originária do Casaquistão que fundou uma empreiteira chamada Bayrock Group, e Sater, um sócio da firma que tinha se mudado da Rússia para Nova York quando criança.

A Bayrock ficava na Trump Tower, dois andares abaixo da Organização Trump. Enquanto trabalhava para levar torres com a marca Trump ao Arizona, à Flórida e ao bairro do SoHo em Nova York, a Bayrock também começou a prospectar negócios na Rússia e em outros países.

"Examinamos algumas propriedades muito grandes na Rússia", disse Sater. "Imagine um grande arranha-céu de Las Vegas."

Quando Sater viajou a Moscou com Ivanka e Donald Trump Jr. para encontrar empreiteiros em 2006, ele disse que sua atitude podia ser resumida como "uma grande cidade, bonita, ótima. Vamos fazer negócios aqui".

Deixando uma marca

A marca Trump apareceu na Rússia, mas não como imaginava o magnata dos grandes imóveis.

A Trump Super Premium Vodka, com o brilho de garrafas revestidas de ouro 24 quilates, foi apresentada na Feira dos Milionários em Moscou em 2007, e seguiram-se grandes encomendas da bebida. A vodca foi vendida na Rússia até 2009, mas acabou perdendo o fôlego. Em um comunicado à imprensa, Trump a anunciou como "uma tremenda conquista".

Donald Trump voltou a Moscou em 2013, para o concurso Miss Universo, em que tinha sociedade com a rede de TV NBC.

No início daquele ano, no Miss EUA em Las Vegas, ele tinha anunciado que Aras e Emin Agalarov, pai e filho investidores imobiliários na Rússia, organizariam a competição mundial.

Erin Brady, vencedora do Miss EUA naquele ano, que ouviu o anúncio nos bastidores do auditório do Planet Hollywood Resort and Casino, disse que a notícia foi uma surpresa. Ela esperava um país latino-americano, onde os concursos de beleza são amplamente comemorados. "Eu pensei: 'Puxa, a Rússia, não tinha imaginado isso'", disse ela.

Phil Ruffin, sócio de Trump na Trump International Hotel and Tower em Las Vegas, disse que ficou contente ao lhe emprestar seu novo jato Global 5000 para a viagem. Ele e sua mulher encontraram Trump em Moscou, e também se hospedaram no Ritz-Carlton. Ruffin disse que ele e Trump almoçaram no hotel com os Agalarov.

Estes também teriam oferecido um almoço a Trump na noite do concurso, juntamente com Herman Gref, um ex-ministro da Economia russo que atua como executivo-chefe do banco estatal Sberbank PJSC, segundo a Bloomberg News.

Conversas sobre investimentos giraram durante a visita, e Trump enviou seu tuíte prometendo que a Trump Tower Moscou estava próxima. Mas ela nunca apareceu no perfil da cidade.

*Jo Becker e Michael Schwirtz colaboraram na reportagem. Kitty Bennett colaborou na pesquisa.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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