Opinião: "Fatos alternativos" e os custos da realidade da marca Trump

Jim Rutenberg

  • Chip Somodevilla/Getty Images/AFP

    Presidente Donald Trump dança "My Way" com a primeira-dama, Melania, no primeiro baile de posse

    Presidente Donald Trump dança "My Way" com a primeira-dama, Melania, no primeiro baile de posse

Quando Donald Trump fez o juramento presidencial, na sexta-feira (20), assumiu a responsabilidade não apenas pelas alavancas do governo, mas também por um dos bens mais valiosos dos EUA, mesmo que esteja um pouco danificado: sua credibilidade.

A reverência sentimental do país pela verdade e suas bem guardadas liberdades de imprensa, embora nunca perfeitas, foram tão importantes para sua posição global quanto a força de seus militares e a confiabilidade de sua moeda. É o alicerce desse "excepcionalismo americano" de que ouvimos falar há tanto tempo.

A desinformação era para as ditaduras, as repúblicas de bananas e os Estados falidos.

No entanto, lá estava no sábado (21), emanando do atril da sala de informação da Casa Branca --o microfone oficial dos EUA--, quando o secretário de Imprensa de Trump, Sean Spicer, usou sua primeira aparição pública ali para apresentar estatísticas facilmente refutadas que questionavam as reportagens na mídia noticiosa sobre o tamanho do público na posse do presidente (dentre todas as coisas).

Spicer elaborava a mensagem de seu chefe, que havia feito falsas afirmações mais cedo naquele dia sobre a cobertura da mídia, ao declarar uma "guerra em curso" com a mídia durante uma visita à CIA, cujo dever mais solene é enviar informações verdadeiras e vitais aos presidentes quando travam guerras reais.

Causou calafrios quando a afirmação de Trump de que os repórteres estão "entre as pessoas mais desonestas da terra" provocou aplausos da multidão reunida para ouvi-lo falar diante do memorial aos agentes mortos, na sede da CIA.

Ainda mais assustador foi quando a assessora sênior da Casa Branca Kellyanne Conway apareceu no programa "Meet the Press" no domingo para afirmar que as falsidades de Spicer foram simplesmente "fatos alternativos".

Conway não fez rodeios sobre o que ela pensa da capacidade da mídia de desbancar esses "fatos alternativos" de um modo em que os americanos acreditariam, especialmente os que adoram Trump.

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"Quer falar sobre fatos comprováveis?", disse ela ao moderador do programa, Chuck Todd. "Veja: você tem uma taxa de aprovação de 14% na mídia, que você conquistou. Está querendo nos pôr para trás?" (Ela parecia estar se referindo a um número da pesquisa Gallup relacionada às opiniões dos republicanos.)

E, realmente, lá estava um princípio aparente animador da estratégia de mídia de Trump desde que ele começou a campanha. Essa estratégia supôs constantemente que a baixa opinião do público sobre o jornalismo da corrente dominante (que Trump ficou muito feliz ao ajudar a incitar) cria uma brecha para vender a versão da realidade de Trump, independentemente de sua fidelidade aos fatos.

Como Trump e seus seguidores comentam com frequência, tudo o que ele fez durante a campanha foi bem sucedido: ele venceu. Seus apoiadores mais fervorosos adoraram as críticas da mídia. E as reclamações e a verificação de fatos agressiva pela mídia noticiosa jogaram a favor dele. Trump habitualmente retratava isso como muita choradeira e oposição de mais um eleitorado privilegiado do establishment de Washington.

Mas a tática que funcionou na campanha irá funcionar na Casa Branca? A história está cheia de exemplos de novos administradores que rapidamente descobriram que as técnicas que lhes foram úteis em campanha não funcionavam bem no governo.

E se elas não funcionarem, quais são os custos em longo prazo para a credibilidade do governo de "vitórias" táticas que são conquistadas com o uso agressivo de falsidades? Sejam quais forem, Trump deve perceber que podem prejudicar sua agenda mais que qualquer outra coisa.

Há um motivo pelo qual Karen Hughes, a assessora de George W. Bush, disse ao recém-promovido secretário de Imprensa de Bush, Scott McClellan, em 2003: "Seu trabalho mais importante, na minha opinião, será garantir que o presidente mantenha sua credibilidade entre a população americana".

"É uma de suas maiores forças", teria dito Hughes, segundo a autobiografia de McClellan, "What Happened".

O livro relata como Bush apostou essa credibilidade no falso raciocínio para a invasão do Iraque --que Saddam Hussein tinha armas de destruição em massa--, e afinal perdeu a confiança dos americanos, o que o restringiu pelo resto de sua Presidência.

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Mas o dano não se limitou à posição política de Bush. Até hoje a comunidade de inteligência dos EUA tem de enfrentar perguntas remanescentes sobre sua própria credibilidade --como as censuras de Moscou (para não falar de Trump) de que as avaliações que apontavam a interferência russa na eleição presidencial são questionáveis. Afinal, ela não errou sobre o Iraque?

Há uma grande diferença na importância entre o tamanho do público na posse de Trump e as informações que levaram à guerra, sem dúvida. E, como notou o ex-secretário de Imprensa da Casa Branca de Bush, Ari Fleischer, em uma conversa comigo no domingo (22), é cedo demais para dizer se a atuação de Spicer no último fim de semana será a norma.

As emoções da equipe de Trump estavam cruas no fim de semana, disse Fleischer, depois que um relatório errado foi enviado para o restante do corpo de imprensa da Casa Branca, afirmando que Trump tinha retirado um busto de Martin Luther King do Salão Oval. Zeke Miller, o jornalista da revista "Time" que escreveu a reportagem, rapidamente a corrigiu e pediu desculpas quando a Casa Branca o alertou sobre o erro.

"Isso deixa as pessoas de dentro sentindo, com razão, que 'os repórteres se opuseram a nós desde o início por sermos racistas, e a primeira coisa que eles fizeram foi implicar que éramos'", disse Fleischer.

Mas os fatos do fim de semana não chegaram em um vácuo. Houve a reportagem na semana passada em "The Washington Post" de que o Museu Nacional de História Americana Smithsonian, conhecido por seus altos padrões de precisão, estava vendendo um livro comemorativo sobre Trump cheio de ideias duvidosas, como a de que Hillary Clinton merecia mais culpa que Trump pela campanha que questionava o nascimento e a cidadania de Barack Obama. (Depois dessa reportagem, o museu disse que estava recolhendo o livro para uma investigação sobre se cumpria os padrões de precisão.)

A decisão do governo de erradicar quase qualquer referência à "mudança climática" no site da Casa Branca era de se esperar, diante das promessas de Trump de derrubar as políticas climáticas de seus antecessores. Mas ela provocou preocupações entre os cientistas do clima de que se estenderia a dados valiosos do governo --temores que também se aplicam à segurança de outros dados controlados pelo governo. (Fleischer foi um que comentou que os burocratas de carreira denunciariam qualquer medida para manipular dados do governo.)

Depois há o centro de informação principal de qualquer Casa Branca: a sala de imprensa.

Na quinta-feira (19), Jim Hoft, fundador do site The Gateway Pundit, disse que a Casa Branca estava dando a seu site uma credencial oficial de imprensa. The Gateway Pundit promove boatos como o que diz que manifestantes em Austin, no Texas, foram levados de ônibus pelo doador de fundos liberal George Soros. (A fonte original dessa história disse a "The New York Times" que suas afirmações não foram sustentadas por fatos.)

A Casa Branca não confirmou se vai dar credenciais ao Gateway Pundit, mas o anúncio feito por Hoft instigou o nervosismo entre repórteres tradicionais de que o novo governo encha a sala de imprensa com organizações simpáticas, dispostas a promover falsidades --ou talvez "fatos alternativos". Uma coisa é se isso criar uma retroinformação falsa sobre o tamanho do público na posse --e uma muito diferente se o fizer sobre uma questão mais importante de segurança nacional, como disse no fim de semana o correspondente de segurança nacional da CNN, Jim Sciutto.

McClellan, o secretário de imprensa de Bush, advertiu em uma entrevista comigo no domingo que Spicer poderia vir a lamentar se os repórteres começassem a duvidar da veracidade do que ele diz.

"Haverá tempos difíceis pela frente --como para qualquer Casa Branca--, e é aí que essa credibilidade e confiança são mais importantes", disse McClellan. Mas mais importante, acrescentou ele, quando você está no púlpito da Casa Branca, "você está falando pelo mundo livre, em certa medida, e que ideais você apresenta por esse mundo livre?"

Não há nada excepcional nos que não são verdadeiros.

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Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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