Nos EUA, universidades são cobradas de responsabilidade por alunos estupradores reincidentes

Stephanie Saul

Em Manhattan (Kansas)

  • Amy Stroth/The New York Times

Ela tinha 18 anos, cursava o preparatório para medicina e estava começando a se sentir à vontade em seu primeiro ano na Universidade Estadual do Kansas, a faculdade de seus sonhos. Seis semanas depois, a carreira universitária de Crystal Stroup saiu dos trilhos de forma violenta e repentina.

Em outubro de 2015, após uma pequena reunião em seu apartamento, seus amigos ficaram preocupados porque Stroup teria bebido demais. Eles escalaram o estudante "almofadinha" do andar de baixo para cuidar dela enquanto iam buscar comida.

Na manhã seguinte, Stroup acordou desorientada e com dor. Grandes marcas de mãos estavam surgindo em seu braço e coxa. Com muita dificuldade, ela foi para a aula, onde contou a uma amiga: "Fui estuprada".

A Universidade Estadual do Kansas já havia sido alertada sobre o homem, Jared Gihring. Outra aluna, Sara Weckhorst, disse ter se queixado à diretoria da universidade, mais de um ano antes, de que ele havia a estuprado enquanto ela estava desmaiada devido à embriaguez, na sede de uma fraternidade.

No dia 3 de janeiro, Gihring, 22, declarou-se inocente das acusações de estupro cometido contra as duas mulheres. A advogada de Gihring, Brenda Jordan, não respondeu a pedidos de comentários.

Mas foi só depois que a polícia prendeu Gihring em julho —mais de dois anos depois da primeira queixa de Weckhorst— que a Universidade do Kansas tomou a iniciativa de expulsá-lo.

Independentemente de o suposto estupro de Stroup ter sido previsível ou não —uma das questões levantadas por uma ação judicial que ela iniciou contra a universidade— seu caso levanta dúvidas perturbadoras a respeito de reincidências no campus, e se as universidades fazem o suficiente para evitá-las.

Amy Stroth/The New York Times
Sara Weckhorst (esq.) e Tessa Farmer

Há vários anos pesquisadores têm debatido intensamente sobre quantos estupros são cometidos em campus por reincidentes. Um estudo de 2002 baseado em pesquisas junto a 1.882 universitários homens e publicado na "Violence and Victims", um jornal acadêmico, descobriu que até 63% daqueles que admitiram ter comportamentos que se encaixam na definição de estupro ou tentativa de estupro disseram ter tido esses comportamentos mais de uma vez.

Mas, em 2015, um estudo realizado junto a 1.642 homens em duas faculdades diferentes foi publicado pela "JAMA Pediatrics" e descobriu que, embora um número maior de homens tenha admitido ter comportamentos que constituíam estupro, uma menor porcentagem deles, mais próxima de 25%, era de reincidentes.

A diferença poderia afetar a maneira como as universidades abordam as investigações sobre estupros e a prevenção. Por exemplo, casos de reincidência levantam a questão de se as universidades deveriam expulsar os alunos mais rapidamente do campus após as acusações.

"Existem os reincidentes que procuram vítimas e farão isso sempre em impunidade, porque não há punição", disse Annie E. Clark, cofundadora da End Rape on Campus, uma ONG que fornece assistência a vítimas de estupros e trabalha para prevenir a violência sexual no campus. E acrescentou, "Qualquer que seja o número, ele é alto demais".

Alguns casos recentes e as ações judiciais geradas por eles —como a da Universidade do Kansas— voltaram a colocar em evidência os estupros reincidentes nas universidades, e as questões que eles levantam, de que talvez algo pudesse ter sido feito. Muitos administradores de universidades dizem se ver entravados em investigações sobre agressões sexuais por mulheres que relutam em identificar seus agressores ou em apresentar queixa. Eles também dizem que as agressões ocorrem frequentemente durante festas nas quais os estudantes bebem, o que torna suas lembranças difusas e a verdade sobre o que aconteceu difícil de lembrar.

O governo federal entrou no caso da Universidade do Kansas e passou a investigar a forma como a universidade lidou com a queixa feita em 2014 por Weckhorst. A universidade está sendo processada por Weckhorst e outra aluna da Universidade do Kansas, Tessa Farmer, que também alega ter denunciado um estupro que não foi devidamente investigado, bem como pelo caso trazido por Stroup, hoje com 19 anos, que se juntou à ação judicial de Weckhorst em novembro.

A Universidade de Stanford está sendo processada por uma estudante que diz ter sido agredida sexualmente em 2014 por um homem que fez o mesmo com outra aluna já em 2011, e que agrediu física ou sexualmente duas outras estudantes. No entanto, segundo a ação judicial, a universidade permitiu que ele permanecesse no campus até ele se formar em 2014.

A universidade —que no ano passado passou pelo turbilhão do caso de agressão sexual cometido por Brock Turner e mais recentemente do artigo do "The New York Times" sobre como ela lidou com as acusações de agressão sexual contra um jogador de futebol americano— diz, segundo documentos de tribunal da ação judicial, que a primeira mulher não identificou o homem por quase um ano, e depois se negou inicialmente a participar de uma investigação.

"Nós nos solidarizamos com a autora desse caso, mas nos defenderemos vigorosamente nessa ação judicial, pois acreditamos que a Stanford agiu com a diligência e a compaixão apropriadas dentro dos limites das leis da privacidade", disse uma porta-voz da universidade, Lisa Lapin.

Denise Cordova, diretora do departamento que investiga acusações de agressão sexual na Universidade de Nevada, em Reno, disse que a maioria das alunas não fornece o nome da pessoa que as agrediu. "Eu penso, da minha perspectiva", ela disse, "que nem sempre temos a informação sobre a pessoa que fez isso".

No entanto, essa não foi a situação na Universidade do Kansas.

Danielle Dempsey-Swopes, uma ex-investigadora de agressões sexuais na Universidade Estadual do Kansas, disse ter pedido à faculdade que fosse mais agressiva na forma de lidar com as queixas de agressões sexuais, tendo por fim denunciado a universidade ao Departamento de Educação dos Estados Unidos. "Sinto-me terrível em pensar que talvez pudéssemos ter evitado isso", ela disse.

Ela e outros da Universidade do Kansas dizem que o problema foi o fato de a universidade ter assumido o posicionamento de que ela não seria responsável por investigar acusações de estupro em sedes de fraternidades porque elas se situam fora do campus.

Em sua queixa ao Departamento de Educação, Dempsey-Swopes disse que ela recebeu as ordens de "postergar" uma acusação de estupro porque a universidade não queria se responsabilizar. Além disso, o presidente em final de mandato do Conselho Inter-Fraternidades, Zach Lowry, disse que a universidade encaminhava queixas de agressões sexuais envolvendo fraternidades para sua organização sem uma investigação.

"Esses casos que chegam para a gente são bem perturbadores", disse Lowry, um aluno de graduação de ciências políticas de Stockton, no Kansas. "Nós os encaminhamos ao nosso comitê jurídico, mas ele é composto por estudantes. Eles não são treinados para conduzir investigações".

Responsáveis pela Universidade do Kansas se recusaram a dar entrevistas, mas em uma declaração a universidade disse que seu protocolo era e sempre foi "tratar de más condutas e questões de segurança de forma diligente". A declaração dizia ainda que "a afirmação generalizada de que a K-State não investiga incidentes ocorridos fora do campus é simplesmente incorreta".

Mas Stroup acredita que seu estupro poderia ter sido evitado se a universidade tivesse prestado atenção aos alertas de Weckhorst, de Doylestown, Pennsylvania.

A ação judicial iniciada por Stroup em novembro diz que, após uma pequena reunião em seu apartamento no dia 6 de outubro de 2015, seus colegas de casa deixaram Gihring cuidando dela enquanto eles saíram para comprar comida. "Uma vez sozinho no apartamento, J.G. entrou no quarto de Crystal e a estuprou", diz a queixa, referindo-se a Stroup.

Seguindo orientações de sua advogada, Cari Simon, Stroup não quis discutir detalhes sobre aquela noite porque ela pode ser chamada a depor no julgamento criminal contra Gihring, agendado para maio.

Stroup disse ter passado por um imenso estresse, em parte porque era impossível evitar Gihring no campus e em seu complexo residencial. A situação acabou afetando suas notas e a levou a abandonar a faculdade, segundo ela.

Hoje ela trabalha na cozinha de um asilo, não exatamente a carreira no setor de saúde que ela esperava. "Não sei como recolher os cacos e recomeçar", ela disse.
 

Tradutor: UOL

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos