Escondida em montanha, usina nuclear chinesa renasce como atração turística

Amy Qin

Em Fuling (China)

  • Gilles Sabrie/The New York Times

Nesse sossegado distrito do Rio Yangtze, mais conhecido por seus picles crocantes de tubérculos de mostarda, se destacam elevadas montanhas cobertas de árvores. Mas uma dessas montanhas é diferente das outras.

No pico do Monte Jinzi em Fuling, uma única chaminé solitária monta guarda sobre o Rio Wu, ao lado. A chaminé está ociosa desde que foi construída, décadas atrás. Só nos últimos anos é que a população descobriu o motivo.

Quinze anos atrás, o governo local anunciou que dentro da montanha escavada por dentro jaziam os restos do que foi um dia um dos mais ambiciosos projetos de infraestrutura militar da China: a ultrassecreta usina nuclear 816.

Iniciado nos anos 1960 durante o auge das tensões entre a China e a União Soviética, o projeto 816 foi a primeira tentativa da China de construir um reator nuclear que pudesse produzir plutônio próprio para armas nucleares sem o envolvimento soviético.

Mas existia um porém. Para reduzir a possibilidade de um ataque, oficiais e engenheiros chineses tomaram a inusitada decisão de colocar o reator no subsolo, complicando um já desafiador processo de engenharia.

Ao longo dos 18 anos seguintes, mais de 60 mil trabalhadores participaram desse arriscado projeto, alguns de forma fatal. O resultado foi o que dizem ser a maior caverna artificial do mundo, capaz de suportar a força de milhares de toneladas de explosivos, bem como um terremoto de magnitude 8. Mas quando a China deu início a um amplo movimento de conversão para o civil de muitos de seus projetos militares no começo dos anos 1980, as obras na usina quase terminada foram interrompidas bruscamente.

Durante 26 anos, ela funcionou parcialmente como uma fábrica de fertilizantes químicos antes de ser reativada como atração turística em 2010, um improvável capricho do destino para essa peculiaridade da história da Guerra Fria.

Gilles Sabrie/The New York Times

Ainda assim, para muitos ex-trabalhadores, o projeto 816 continua sendo uma fonte de profundo pesar. Mesmo que a China siga em frente com seu ambicioso —ainda que controverso— plano de construir usinas nucleares por todo o país e expandir o uso da energia nuclear, projetos nucleares militares outrora importantes como o 816 foram praticamente esquecidos.

"Naquela época, o projeto tirou muito desses jovens, inclusive nossos meios de sustento", disse Chen Huaiwen, 69, um ex-soldado que trabalhou na escavação da montanha entre 1969 e 1974. "Precisamos esclarecer isso para o público. Do contrário terá sido um grande desperdício de nossos esforços e de mão de obra".

Para lidar com essas questões, a usina 816 passou recentemente por um ano de reformas. Desde que ela reabriu em setembro, os visitantes —inclusive estrangeiros, pela primeira vez— agora podem ver cerca de um terço da caverna, que contém quase 20 km de túneis.

Recentemente, em uma tarde, um grupo de turistas, liderado por um animado guia turístico vestido de farda militar e botas de combate, subiu em um carrinho de golfe na entrada de um dos túneis, na beira da estrada. De lá, o carrinho embrenhou-se direto para dentro do Monte Jinzi, em meio a uma sibilante rajada de ar frio.

Na primeira parada do passeio, um salão cavernoso que no passado continha as instalações de geração de energia da usina, uma assustadora música apocalíptica tocava enquanto luzes de neon banhavam de azul, vermelho e cor-de-rosa a sala de paredes de concreto. Era um cenário talvez mais adequado para uma rave clandestina do que um tour educativo sobre a história comunista, exceto por um painel que mostrava, entre outras coisas, uma imagem de uma nuvem de cogumelo do primeiro teste nuclear da China em Lop Nur, em 1964.

Falando em um microfone, Qi Hong, o guia turístico, explicou: "Esta caverna representa não somente os esforços dos 816 trabalhadores, mas também uma importante parte da história do desenvolvimento nuclear e da defesa nacional da China".

Em volta de Qi estavam 30 ou mais pessoas, em sua maioria chineses idosos. Ao longo do tour de 90 minutos, Qi conduziu o grupo através de um labirinto de salas de reatores vazias, salas de exposição e escadarias escuras, parando frequentemente para dar as explicações de forma que os visitantes mais velhos pudessem recuperar o fôlego.

Embora a maior parte do grupo só tivesse ouvido falar no projeto recentemente, eles tinham idade o suficiente para se lembrar das circunstâncias históricas que levaram o governo a escolher esse pitoresco lugar no sudoeste da China —também cenário do relato autobiográfico best-seller de Peter Hessler, "River Town"— como o ponto para um imenso complexo nuclear.

Qi explicou que tudo começou com o Terceiro Front, o colossal programa de defesa iniciado pela China em 1964 para criar a base industrial no interior do país. A China já tinha um reator nuclear, o projeto 404 desenhado pelos soviéticos na província de Gansu, no noroeste. Mas com as crescentes manifestações de preocupação a respeito da vulnerabilidade do reator a ataques, o premiê Zhou Enlai aprovou em 1966 o plano de construir uma réplica subterrânea do projeto 404 em Fuling.

Logo depois, cientistas, engenheiros, soldados e demais equipes de apoio vieram de todos os cantos do país até essa área remota —na época, só acessível por barco— para trabalhar no projeto 816. Eles representavam parte dos principais talentos do país, por terem estudado nas melhores universidades da China, bem como na União Soviética e no Japão.

"A usina reflete a grandeza do povo chinês", disse Xia Renhui, 66, uma aposentada da cidade de Shenyang, no nordeste, que estava visitando a usina. "E agora a China está ainda mais forte. O Exército dos EUA não é bom o suficiente para brigar conosco!"

Desde o início foi um projeto ultrassecreto. Os moradores da região e mesmo muitos dos soldados que trabalharam na obra eram alheios ao verdadeiro propósito do projeto. O complexo incluía escolas, um mercado e um hospital para que os trabalhadores pudessem viver em total isolamento. A cidade vizinha de Baitao sumiu do mapa.

"Tudo que sabíamos era o codinome 816", disse Li Tingyoung, um morador da região que se tornou diretor do bureau de turismo de Fuling, em um programa de TV de 2010 sobre a usina 816. "Mas não fazíamos ideia do que havia por trás desse codinome. Era muito misterioso".

A vida era especialmente difícil para os mais de 20 mil jovens soldados. Muitos haviam se alistado pensando que estavam indo para Pequim, para depois descobrirem que haviam sido designados para trabalhar na obra do projeto 816. Por um pequeno salário mensal de aproximadamente 6 renminbi (ou pouco menos de R$ 8 na época), os soldados —cuja média de idade era de 21 anos— tinham a tarefa de escavar aquela dura rocha usando pequenas furadeiras, dinamite e pás.

Era um trabalho perigoso, e a pressão para terminar o projeto era imensa. Soldados trabalhavam dia e noite, estimulados pelo slogan "Corram contra o imperialismo, o revisionismo e os contrarrevolucionários!" Muitos ficaram feridos ou morreram. Os dados oficiais de hoje dão como 100 o número de mortos.

"Mas eu não acredito nisso", disse Qi, em um raro desvio de seu roteiro, sugerindo que o número verdadeiro era maior. "O ambiente era cruel demais".

Quando o projeto foi cancelado em 1984, 85% da construção estava terminada. No total, o investimento no projeto 816 foi estimado em mais de 746 milhões de renminbi, ou cerca de R$ 1,14 bilhão na época.

"Na época, era o equivalente ao custo da construção da Hidrelétrica de Três Gargantas", contou He Chengfu, gerente do Grupo Industrial Químico Chongqing Jianfeng, que supervisionou a conversão da usina em uma fábrica de fertilizantes, ao 81.cn, um site de notícias militares da China. Ele se referia ao colossal projeto hidrelétrico no Yangtze, que segundo a mídia estatal chinesa, em 2009, teria custado R$ 117 bilhões, incluindo os custos de realocamento de pessoas deslocadas.

Mas, custos irrecuperáveis à parte, alguns especialistas dizem que a decisão de abandonar o projeto 816 acabou sendo sensata.

"A única coisa boa que aconteceu com o projeto foi que eles não o terminaram", disse Hui Zhang, um pesquisador sênior do Project on Managing the Atom da Universidade de Harvard. "Em termos de desenvolvimento geral do programa nuclear da China, o projeto 816 realmente não contribuiu em nada".

Ainda assim, para muitas pessoas como Chen, que dedicaram anos de suas vidas ao projeto 816, permanece um sentimento de perda e ressentimento.

"No final, trabalhamos no projeto porque pensávamos estar trabalhando pelo país", disse Chen. "Se soubéssemos que no final ele seria transformado em um ponto turístico, nunca teríamos participado".

* Com contribuição de Kevin Shen.

Tradutor: UOL

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