Negócio com empresa chinesa sigilosa coloca assessor de Trump no limbo

Sharon LaFraniere, Michael Forsythe e Alexandra Stevenson*

Em Washington (EUA)

  • Kevin Hagen/The New York Times

    Anthony Scaramucci, ex-arrecadador de fundos de campanha para Donald Trump

    Anthony Scaramucci, ex-arrecadador de fundos de campanha para Donald Trump

Uma sigilosa empresa chinesa, com laços profundos com o Partido Comunista do país, se transformou em uma das maiores investidoras estrangeiras nos Estados Unidos ao longo do ano passado, adquirindo empresas americanas em uma série de acordos multibilionários. Mas é um de seus menores acordos que aparentemente está emperrando a carreira na Casa Branca de um alto assessor do presidente Donald Trump.

Anthony Scaramucci, um extravagante ex-arrecadador de fundos de campanha para Trump e que foi nomeado pelo presidente como contato da Casa Branca com a comunidade empresarial, está no limbo há mais de uma semana, desde que concordou em vender sua firma de investimento para uma subsidiária do conglomerado chinês HNA Group. Scaramucci ocupa o cargo mas ainda não foi oficialmente empossado, em parte por preocupações com o negócio de 17 de janeiro, segundo dois funcionários do governo que falaram sob a condição de anonimato, por não estarem autorizados a discutir publicamente o assunto.

É a segunda transação conhecida entre uma empresa chinesa com ligações políticas e um novo funcionário da Casa Branca. E é evidência da confluência incomum de interesses entre os membros super-ricos do novo governo Trump, que precisam se desvincular de portfólios financeiros complexos para atender as regras do governo, e empresas estrangeiras ávidas em comprar ativos americanos.

"Você não terá um governo com milhares de nomeados políticos sem ter pessoas que tenham contatos com os chineses", disse Derek Scissors, um especialista em China do Instituto da Empresa Americana, uma organização de pesquisa de inclinação conservadora em Washington.

Mesmo assim, ele disse, ninguém deve ter ilusões sobre a motivação chinesa por trás desses acordos. "A HNA está buscando influenciar um governo que parece estar se posicionando contra a China", ele disse. "Eles todos estão."

Governos anteriores raramente enfrentaram questões como essa, em parte porque o aumento do investimento chinês nos Estados Unidos é relativamente recente. As empresas chinesas estão em uma onda de compras, investindo cerca de US$ 50 bilhões em empresas e projetos americanos apenas no ano passado. O HNA Group, um conglomerado focado em maior peso em aviação, ingressou no mercado americano no ano passado, quando comprou um quarto da empresa hoteleira Hilton Worldwide por US$ 6,5 bilhões, além de ter pago US$ 6 bilhões pela gigante de tecnologia da informação Ingram Micro.

No ano passado, o Anbang Insurance Group, um colosso financeiro chinês, começou a negociar um investimento em uma torre de apartamentos de propriedade do genro de Trump, Jared Kushner. Kushner, 36 anos, agora é um dos conselheiros mais influentes do presidente, com uma pasta na Casa Branca que deverá incluir o relacionamento dos Estados Unidos com a China. Trump adotou uma posição linha-dura com a China, ameaçando aumentar tarifas sobre as importações chinesas, além de exigir que a China abandone as ilhas artificiais que construiu no Mar do Sul da China, em uma tentativa de reforçar sua reivindicação sobre a vasta área.

Em comparação a Kushner, Scaramucci parece estar se desfazendo de sua empresa, a SkyBridge Capital. Apesar do preço de venda poder chegar a US$ 230 milhões, dependendo do desempenho da empresa, o pagamento de Scaramucci é fixo, como ele disse em uma entrevista na segunda-feira.

A HNA é recém-chegada no campo de gestão de ativos nos Estados Unidos e empresas como a SkyBridge, os chamados fundos de fundos que atuam como intermediários que investem o dinheiro dos clientes em fundos hedge, enfrentaram dificuldades nos últimos anos. Citando taxas elevadas e desempenho decepcionante, os investidores sacaram bilhões dessas firmas. O pool de ativos da Skybridge encolheu em mais de US$ 2 bilhões desde meados de 2015, e seu fundo principal apresentou retorno negativo pelo segundo ano consecutivo em 2016.

Apesar das negociações de Kushner com a Anbang terem causado pouca surpresa entre o círculo interno de Trump, alguns funcionários da Casa Branca parecem ter visto a venda por Scaramucci de sua firma para a HNA com mais suspeita. Scaramucci ficou de fora do grupo de duas dúzias de assessores que foram empossados em 22 de janeiro.

Um funcionário da Casa Branca citou preocupações de que demoraria até três meses para o fechamento do acordo da SkyBridge e pela aprovação pelo escritório de ética. O advogado de Scaramucci disse que esse prazo é padrão para qualquer negócio grande e complexo.

Um porta-voz da Casa Branca não comentou o status de Scaramucci.

Aliados de Scaramucci disseram que a venda de sua empresa é uma distração e atribuíram o adiamento de sua posse às objeções de Reince Priebus, o chefe de Gabinete da Casa Branca, que segundo eles não queria dar a Scaramucci um cargo na Casa Branca. Os aliados de Priebus negam isso.

Em uma entrevista, Scaramucci rejeitou qualquer noção de que o HNA estava buscando um amigo dentro do governo, dizendo que sua empresa é um investimento atraente e que o HNA era um comprador lógico. O HNA descreveu a compra como um pé importante dentro do mercado americano por seu crescente negócio de gestão de ativos.

Mesmo se o HNA estivesse buscando influência, disse Scaramucci, ele se isolou de qualquer discussão com a empresa chinesa. David Boies, seu advogado, disse que Scaramucci foi além do que lhe era exigido para eliminar qualquer percepção de conflito de interesse.

"Eles sabem que não podem falar comigo, então que influência estão comprando?" disse Scaramucci na entrevista. "Se as pessoas estão dizendo que o HNA está tentando comprar influência, então as pessoas estão dizendo que o HNA é idiota."

"Eu aceitei a oferta deles porque protegeria meus clientes, sócios e investidores", ele disse. "Então, o que fiz de errado?"

Descrevendo a si mesmo como uma "diva" incontrolável, Scaramucci, 53 anos, é tão franco quanto os proprietários do HNA são sigilosos. Seu apoio a Trump nas primárias republicanas veio tarde e apenas após ter inicialmente atacado Trump como um "político oportunista" com "boca grande". Ele apoiou inicialmente Scott Walker, o governador de Wisconsin, e depois Jeb Bush, o ex-governador da Flórida.

Mesmo assim, ele foi um dos primeiros financistas de Wall Street a ingressar na campanha de Trump e foi um incansável líder de torcida desde maio, usando discursos diretos e coloridos que o transformaram em convidado frequente de programas de notícias. Em uma conferência de negócios nacional patrocinada pela SkyBridge, em maio, Scaramucci disse que a Trump estava apenas "dizendo loucuras" por saber que o "americano comum que come carne vermelha adora ataques aos sabe-tudo".

Analistas de estratégia e política chinesa dizem que os laços entre funcionários do governo e empresas como Anbang e HNA precisam ser cuidadosamente observados, porque apesar dessas firmas serem de propriedade privada, a própria sobrevivência delas depende da boa vontade do governo chinês.

"Elas farão, como fizeram repetidas vezes, muitas, muitas coisas em prol do governo chinês", disse Victor Shih, um professor de ciência política da Universidade da Califórnia, em San Diego, que é especializado no nexo entre negócios e política na China.

E poucas empresas privadas apresentam laços tão óbvios com o governo chinês quanto o HNA, cujas conexões rivalizam até mesmo as da Anbang, cujo presidente se casou com a neta de Deng Xiaoping, o ex-líder supremo da China.

Fax e e-mails enviados para a assessoria de imprensa do HNA em Pequim e Hainan não foram respondidos, assim como os telefonemas. Um porta-voz da empresa nos Estados Unidos se recusou a comentar.

Chen Feng, o presidente e fundador da firma, possui títulos políticos chineses que equivalem aos de nobreza ou cavaleiro. Ele é delegado desde 2002 dos conclaves de alto escalão do Partido Comunista que são realizados a cada cinco anos, para escolha da liderança do país, uma posição que quase nenhum outro executivo de empresa privada possui.

Apesar da estrutura de propriedade do HNA ser obscura, ele se associou a uma empresa dirigida pelo filho de um ex-membro do mais alto corpo governante do partido, o Comitê Permanente do Politburo. Em 2008, o HNA formou um empreendimento na cidade de Tianjin, no norte, com a Womei Investment Management, parte de um grupo de firmas dirigidas pelo filho de He Guoqiang, na época o poderoso chefe de disciplina do Partido Comunista, como mostram documentos chineses.

Com mais de US$ 90 bilhões em ativos, o HNA conta com linhas de crédito baratas que ajudaram a alimentar suas compras no exterior. Os valores são extraordinários para uma empresa privada.

Os maiores credores do HNA são dois bancos de desenvolvimento do governo, seguidos por vários bancos comerciais estatais que, até o final de 2015, concederam ao HNA uma linha de crédito combinada de US$ 67,4 bilhões, segundo um prospecto de títulos.

Um grande acionista, Guan Jun, que documentos mostram possuir indiretamente mais de um quarto da empresa, lista seu endereço como sendo um prédio de apartamentos decrépito em Pequim. No corredor sujo do lado de fora de sua porta, se encontra uma cama velha em pé, com um saco de lixo pendurado em sua estrutura.

Algumas pessoas no círculo interno de Trump argumentam que a capacidade de Scaramucci como vendedor o tornam perfeito para ser o contato da Casa Branca com a comunidade empresarial. Scaramucci disse estar tão ansioso para servir ao seu governo que aceitou o cargo pelo salário de US$ 1 por ano e abriu mão de uma empresa "fenomenal".

Scaramucci, que tinha participação acionária controladora na firma, disse que três outras entidades além do HNA apresentaram oferta pela Skybridge, incluindo uma que lhe ofereceu mais dinheiro, mas que teria demitido 40 funcionários. O HNA, que se associou com uma segunda firma para compra da empresa, se tornará seu proprietário majoritário.

Se a venda de sua firma para ingresso na Casa Branca foi uma decisão sábia, ainda não se sabe. "Por que as pessoas são tão estúpidas a ponto de arruinarem suas vidas para servir o país que amam?" disse Scaramucci em uma entrevista na segunda-feira.

"Talvez essa seja a história sobre a qual você deveria estar escrevendo."

* Maggie Haberman contribuiu com reportagem.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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