A história por trás das cenas perdidas de Marilyn Monroe

Helene Stapinski

  • Ryan Christopher Jones/The New York Times

    Bonnie Siegler olhar para um filme em 16mm de Marilyn Monroe, gravado por seu avô

    Bonnie Siegler olhar para um filme em 16mm de Marilyn Monroe, gravado por seu avô

Aconteceu em uma noite no final do verão de 1954.

Jules Schulback, um peleteiro e aficionado de filmes domésticos de Nova York, ouviu que Marilyn Monroe estaria no Upper East Side de Manhattan fazendo mais cenas para seu novo filme, "O Pecado Mora ao Lado". Dois dias antes, Schulback a havia filmado com sua câmera Bolex de 16 mm, próximo a seu prédio.

Então ele pegou a câmera --que normalmente é usada para piqueniques de família, desfiles e cenas do dia a dia-- e se encaminhou para o respiradouro do metrô na frente da loja Wright's Food, na mesma rua do cinema Trans-Lux na Lexington Avenue com a Rua 52.

Embora fosse em torno de 1h da manhã, uma grande multidão se formou, a maior parte deles fotógrafos de jornais e homens curiosos esperando para ver Marilyn. O estúdio de cinema e o diretor, Billy Wilder, haviam contado com isso, convidando a imprensa e o público para criar uma comoção em torno do novo filme, estrelando Marilyn como a "garota do andar de cima", que atiça um executivo de meia-idade, representado por Tom Ewell, enquanto sua mulher está viajando com os filhos durante as férias de verão.

Na famosa cena de rua, os dois estão saindo do cinema quando Marilyn para sobre um respiradouro para sentir o vento vindo do metrô que sopra seu vestido para cima em uma noite quente de verão. "Não é uma delícia?", ela ronrona. O vento vinha de um grande ventilador embaixo da grade operado pelo diretor de efeitos especiais do filme. A noite de 15 de setembro estava bem fria, na verdade. Mas o truque deu certo, e ficou conhecido como "a cena que o mundo inteiro viu".

Mas havia algo mais pesado implícito na comédia. Naquela hora da noite estavam reunidos centenas de curiosos, a maioria homens, que assobiavam e gritavam coisas como "Sobe mais! Sobe mais!", enquanto o vestido de Monroe esvoaçava acima de sua cabeça. Durante duas horas, homens de prédios vizinhos e da rua assistiram a cena.

"Infelizmente, um deles era seu marido, Joe DiMaggio", Wilder teria dito, como citado em sua biografia "Ninguém é Perfeito". "E ele não gostava do que estava vendo, ou do que todos estavam vendo."

DiMaggio não havia planejado visitar o set de filmagens naquela noite, e estava esperando por sua mulher no Hotel St. Regis, onde o casal estava hospedado. Mas o colunista Walter Winchell havia o convencido a vir junto. Marilyn não estava feliz com o fato de seu marido ter aparecido. Mas ele ficou ainda mais infeliz e foi embora furioso. Mais tarde, naquela noite, o casal teve uma briga aos berros em seu quarto. Na manhã seguinte, o cabeleireiro de Marilyn teve de cobrir seus hematomas com maquiagem. Três semanas depois, Marilyn entrou com o pedido de divórcio.

Wilder nunca usou as cenas feitas na Avenida Lexington e refez a cena em um espaço fechado em Hollywood, embora fotografias daquela noite tivessem pipocado em toda parte. Com exceção de algumas cenas breves e borradas de um noticiário que cobria o divórcio, as cenas daquela noite nunca foram exibidas.

"O material filmado logo desapareceu", disse Wilder em sua biografia. "Mas um dia tenho certeza de que algum estudioso de cinema vai desenterrar isso."

A história da noite em que o vestido branco de Marilyn Monroe esvoaçou era bem conhecida entre os filhos de Jules Schulback,  e mesmo entre seus netos. Sua neta Bonnie Siegler disse que de tempos em tempos ele se gabava de sua filmagem pessoal de Marilyn.

""Ele era um tremendo contador de histórias", disse Siegler, uma designer gráfica que tem sua própria empresa, a Eight and a Half. "Eu não sabia se a história era verdadeira". Mas embora ela nunca tivesse visto o material, ela costumava contar às pessoas que seu avô tinha uma filmagem de Marilyn Monroe sobre o respiradouro do metrô.Mas a irmã mais velha de Siegler, Rayna Dineen, disse que seu avô, a quem chamavam de Opi (um termo carinhoso em alemão), raramente andava sem sua câmera. "Ele filmava tudo, o tempo todo". Havia filmes de férias, piqueniques de família, festas de aniversário e bar mitzvahs. Ele havia até filmado 12 minutos de um dia na vida de suas filhas, mostrando-as acordando, escovando os dentes e indo à escola.

"Mas a história da Marilyn era uma das que ele mais gostava de contar", disse Dineen.

Era só uma das dezenas de histórias fantásticas. Schulback teve uma longa vida em tecnicolor, uma vida tão repleta de drama que às vezes sua história com Marilyn parecia só uma nota de rodapé.

Em 1938, Schulback brigou com sua família na Alemanha, argumentando que Adolf Hitler era muito mais perigoso do que as pessoas pensavam. De acordo com Siegler, sua família acreditava que o discurso de ódio de Hitler era simplesmente retórico, e que ele não faria nada do que estava dizendo. Schulback, na época com 25 anos, implorou para que eles fizessem as malas e fossem embora de Berlim com ele. Mas eles resistiram, preferindo esperar para ver como as coisas andariam, nunca imaginando o horror que esperava por eles e milhões de outros judeus europeus.

Schulback não quis arriscar.

Em 1938, os judeus que estavam imigrando para os Estados Unidos precisavam de um patrocinador, alguém que se responsabilizasse financeiramente por eles. Schulback vendeu tudo que tinha, comprou um terno caro, reservou uma passagem no Queen Mary, reservou um quarto no Plaza e foi para os Estados Unidos para encontrar um patrocinador para ele e sua mulher, Edith, e a filha deles Helen, que na época tinha pouco mais de um ano.

"Ele falava assim: 'Sou seu parente rico perdido. Não vou ser um fardo.' Mas ele não tinha dinheiro. Ele blefava", disse Siegler. Ele conseguiu uma assinatura, e depois voltou para buscar sua família, mas foi parado por um guarda de fronteira desconfiado enquanto tentava entrar na Alemanha nazista. Por saber que os alemães eram grandes fãs do sucesso de 1934 de Clark Gable, "Aconteceu Naquela Noite", Schulback disse ao guarda que ele era o distribuidor do novo filme de Gable. Ele alegou que se não conseguisse entrar no país, o filme também não entraria. "O cara falou: 'Ah, a gente adora o Clark Gable', e o deixou passar", contou Siegler.

Schulback pegou Edith e Helen, mais uma vez implorando para que seus outros parentes fossem embora, e escapou de volta para os Estados Unidos com algumas poucas malas, afirmando para os agentes de imigração nazistas que sua família estava saindo de férias. A data era 8 de novembro, o dia antes da Noite dos Cristais.

Em Berlim, ele trabalhara como peleteiro, e sua loja foi destruída naquela noite. Sua família remanescente --quatro irmãs, pais e sogros-- todos vieram a morrer no Holocausto.

Os Estados Unidos foram bons para Schulback. Ele e sua família viveram uma vida feliz e bem-sucedida em Nova York, boa parte dela preservada em seus filmes domésticos.

Quando criança, Siegler adorava ir até o apartamento de seu avô no Upper East Side não somente por causa de suas histórias incríveis e seu senso de humor, mas também porque ele morava em frente ao Hospital de Bonecas de Nova York. Da janela do apartamento, ela conseguia ver os baldes de olhos e braços de bonecas. "Era muito intenso", ela disse.

Quando Edith sofreu um derrame nos anos 1970, deram-lhe somente algumas semanas de vida. Mas Schulback, sempre um homem de ação, se recusou a deixar sua mulher morrer no hospital e a levou para casa. O casal se mudou para o apartamento térreo de um prédio no mesmo quarteirão, e Schulback virou seu enfermeiro. "Metade do corpo dela ficou paralisado, e ela não conseguia falar", disse Siegler. "Mas ele a amava e cuidou dela por 26 anos até que ela finalmente morreu".

Depois de 35 anos nesse mesmo apartamento, Schulback --que havia sido presidente da Associação de Bairro da Rua 61-- foi forçado a sair. A Fundação Andrew W. Mellon havia comprado a casa onde ele morou e a casa de trás, e queria reconfigurar a propriedade. Então Siegler e seu marido, Jeff Scher, ajudaram seu avô de 92 anos a se mudar para um novo lugar do outro lado do Central Park.

Em 2004, durante o árduo processo de embalar a mudança da casa de Schulback, o casal encontrou uma grande quantidade de filmes, armazenados em um quartinho dos fundos que a família chamava de "quarto de pele do Opi", onde Schulback costumava montar roupas com peles de animais para vender. "Ninguém nunca quis voltar lá", disse Siegler. "Mas quando entramos, encontramos esse saco plástico cheio de filmes, filmes domésticos, filmes comprados, tudo misturado".

O marido de Siegler, um cineasta experimental, mal podia esperar para projetar os filmes. Ele estava especialmente interessado em ver se a filmagem de Marilyn no respiradouro do metrô realmente existia. "Era como uma lenda de família", disse Scher. "Um boato tão antigo, mas nunca confirmado".

O mesmo valia para seu material de origem. Durante décadas, houve insinuações em torno da filmagem da Avenida Lexington para o filme "O Pecado Mora ao Lado". Marilyn e DiMaggio haviam se casado em janeiro e já haviam passado por percalços. O Yankee Clipper ficava furioso com o exibicionismo dela e com os rumores de infidelidade, de acordo com Lois W. Banner, autora da biografia de 2012 "Marilyn: The Passion and the Paradox" ("Marilyn: a paixão e o paradoxo", em tradução livre, sem lançamento no Brasil).

"Ela estava tendo um caso com seu diretor musical na época, e todos no meio do entretenimento sabiam disso", disse Banner, uma professora emérita de história e estudos de gênero na Universidade do Sul da Califórnia. Então mesmo antes de ele chegar ao set, havia tensão no ar. "DiMaggio", disse Banner, "não estava feliz com Marilyn".

Existem várias teorias sobre o porquê de o material daquela noite nunca ter sido usado. Alguns acreditam que a filmagem de Manhattan foi feita puramente como um golpe publicitário, que despertou ainda mais curiosidade quando DiMaggio apareceu. Alguns biógrafos dizem que a multidão era barulhenta demais, tornando a filmagem inutilizável.

Uma terceira teoria dizia que as imagens ficaram picantes demais e que Marilyn quis filmar uma versão mais recatada, para não enfurecer ainda mais seu marido. Houve até boatos na época de que ela não estava usando roupa de baixo. Wilder tentou enterrar esses rumores em sua biografia. Ela estaria usando não somente um, como dois conjuntos de roupa de baixo, segundo ele.

Banner disse que as três razões provavelmente influenciaram na decisão final de refazer a filmagem. "Mas as fotos daquela noite já haviam viralizado quando o filme estava sendo editado", ela disse, "e foram muito importantes para sua fama". A cena da saia esvoaçante usada no filme final é incrivelmente breve e inofensiva. A imagem que muitos têm desse momento vem de fotos da imprensa e de divulgação em Nova York, e não da versão final do filme.

No quarto de peles do apartamento de Schulback, Schek reuniu animado as antigas latas de filme. Nenhuma delas estava etiquetada, lembra Scher. Parte dos filmes estava fora do rolo e parados ali como grandes bolas de espaguete, como se um projetor tivesse enguiçado anos atrás.

Mais tarde, naquela noite, no estúdio do apartamento do casal na Rua 16-Oeste, Scher enrolou o filme cuidadosamente, já que parte dele estava muito quebradiço com risco de romper. Ele fez alguns reparos e então começou a examinar o filme usando uma mesa de luz, enrolando-o a mão rolo por rolo. Havia cerca de 50 rolos de filme 16 mm e uns 75 rolos de filme 8 mm.

Havia imagens de passeios de família e desfiles, aniversários e bar mitzvahs.

E ali, em meio às cenas mundanas de uma preciosa vida cotidiana, estava Marilyn Monroe, em um nítido e colorido Kodachrome. "Aquilo simplesmente apareceu", disse Scher. "Era verdade! Preservado como os filmes domésticos, também. Só aqueles momentos no tempo".

Scher conseguia ver claramente o vestido da atriz inflando. "Como um paraquedas com um par de pernas penduradas", ele disse. "Foi um susto, como se fosse um mito se materializando".

Era uma versão não oficial de uma filmagem perdida entre filmes domésticos de uma família que quase certamente não teria existido se os Schulbacks tivessem permanecido na Alemanha.

Scher chamou sua mulher: "Está mesmo aqui!" Eles assistiram pasmos aos 3 minutos e 17 segundos.

"Tinha algo mágico a respeito daquilo", disse Siegler. "Durante anos eu não soube se aquilo era real. Eu certamente não acreditava totalmente. E lá estava. Foi como o fim da história".

Tradutor: UOL

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos