Com a proibição de viagens suspensa, famílias se reúnem com nervosismo e alívio

Caitlin Dickerson e Sarah Maslin Nir*

  • Alex Wroblewski/The New York Times

    Kamal Fadlalla, que estava impossibilitado de viajar em seu país natal Sudão, abraça a advogada Anita Eliot, no aeporto internacional de Nova York

    Kamal Fadlalla, que estava impossibilitado de viajar em seu país natal Sudão, abraça a advogada Anita Eliot, no aeporto internacional de Nova York

Em um campo de refugiados superlotado na fronteira do Quênia com a Somália, dezenas de somalis que tinham passado pelas últimas verificações de saúde e segurança para entrar nos EUA receberam a informação de que deviam se preparar para voar para sua nova vida.

Em Pittsburgh, um estudante de medicina do Irã finalmente voltou à escola depois de uma viagem caótica que o fez dormir em uma cadeira por quatro dias.

No Terminal 4 do Aeroporto Internacional Kennedy, em Nova York, um menino de 6 anos correu pelo saguão de desembarque para abraçar um amigo da família que finalmente conseguiu voltar aos EUA depois de ficar emperrado por uma semana em seu país natal, o Sudão.

Com a porta novamente aberta para viajantes e refugiados que tinham sido excluídos pela ordem sobre imigração do presidente Donald Trump, a corrida para chegar aos EUA se acelerou no domingo (5), com ondas de pessoas que temiam que a oportunidade desaparecesse.

A corrida lotou alguns aeroportos internacionais e domésticos, reuniu pessoas amadas e amigos e provocou mais uma onda de críticas de Trump de que a segurança nacional estava sendo posta em risco por ordens judiciais que impediam a entrada em vigor de sua rígida política de fronteiras. Trump e seus assessores sugeriram que os terroristas e outros que desejam prejudicar os EUA poderão chegar por meio dos canais normais de imigração, e que o governo precisa de tempo para reforçar seus procedimentos de checagem.

Os viajantes que são admitidos aos EUA de sete países de maioria muçulmana discriminados por uma proibição temporária de Trump receberam vistos depois de séria avaliação. Os refugiados desses países e de outros que corriam para chegar aos EUA também foram avaliados, ainda mais profundamente, em um processo que envolve dezenas de verificações e pode levar mais de dois anos.

Mas não estava claro se uma ordem judicial que impede a política de Trump de entrar em vigor, emitida por um juiz federal de Seattle, continuaria válida por muito tempo, criando uma sensação de urgência entre os que tentam entrar nos EUA.

As idas e vindas semearam confusão, nervosismo, medo e descrença, mas a ordem do tribunal criou "uma janela temporária que queremos aproveitar", disse Leonard Doyle, porta-voz da Organização Internacional para Migrações, uma agência intergovernamental que facilita o assentamento de refugiados. "Nossa equipe recebeu ordens de correr como loucos."

Famílias e grupos de defesa de imigrantes ficaram duplamente agitadas durante o fim de semana --primeiro quando o juiz de Seattle bloqueou temporariamente a ordem executiva e depois quando o Tribunal de Apelações do 9º Circuito, em San Francisco, rejeitou a tentativa do governo de conseguir uma suspensão de emergência.

Mas o clima de incerteza persistia depois de uma semana em que milhares de viajantes que rumavam para os EUA foram detidos em trânsito e recusados em aeroportos, e tribunais de todos os EUA emitiram decisões conflitantes sobre se e como a ordem executiva devia ser aplicada.

Trump reagiu com irritação no domingo (5). Em um post no Twitter, ele pareceu dar razão aos advogados de imigrantes para temerem que o país não volte a se abrir por muito tempo para refugiados ou detentores de vistos dos sete países --Irã, Iraque, Líbano, Somália, Sudão, Síria e Iêmen.

"Eu instruí a segurança interna para verificar as pessoas que entram em nosso país MUITO CUIDADOSAMENTE. Os tribunais estão tornando o serviço muito difícil!", escreveu Trump.

Doyle disse que entre segunda-feira (30) e 17 de fevereiro cerca de 2.000 refugiados seriam recusados em voos para os EUA. Os que deveriam sair primeiro haviam deixado seus apartamentos ou campos de refugiados, vendido seus pertences e devolvido seus cartões de alimentação.

No Quênia, dezenas de somalis que tinham passado nas últimas verificações de segurança e saúde para entrar nos EUA esperavam no domingo no campo de refugiados, onde lhes disseram que poderiam viajar nos próximos dias. Mas eles não tinham mais certeza de em quem, ou no que, acreditar.

"Sinto-me completamente arrasado", disse Ahmed Hassan, um refugiado somali que rumava para Rhode Island. Nas últimas semanas, Hassan foi levado de ônibus para fora do acampamento; enviado para um centro de trânsito em Nairóbi, capital do Quênia, a centenas de quilômetros de distância; recebeu documentos para viajar; soube que estava prestes a voar para os EUA; soube que não iria viajar para os EUA; levado de ônibus de volta para o acampamento; e soube que afinal talvez possa voar para os EUA. Ele embarcou em um ônibus em Nairóbi para voltar ao campo horas antes de o juiz federal suspender a proibição de viagens.

Hassan tinha vendido sua casa e temia que sofresse agressão como simpatizante dos EUA por militantes islâmicos e antiamericanos que entram e saem dos campos. Ele chegou de volta ao campo de refugiados na tarde de sábado (04), recuou da turba que lhe fazia perguntas e se escondeu em um quarto.

No saguão do Terminal 4 do Aeroporto Kennedy, Wael Izzeldin, 6, segurava uma caneta verde e escrevia um cartaz de boas-vindas para o melhor amigo de seu pai, o doutor Kamal Fadlalla. Este é residente no segundo ano do Centro Médico Inter-religioso em Bedford-Stuyvesant, no Brooklyn (Nova York), e estivera em férias visitando sua mãe no Sudão, a primeira vez que voltava para casa em três anos.

Quando Fadlalla apareceu, o menino correu pelo saguão, saltou e se abraçou ao médico, amassando o pequeno cartaz.

Fadlalla estava alegre, mas cansado. Apesar de ele ter um visto para pessoas de profissões especiais, tinha sido rejeitado no aeroporto e passou uma semana empacado no Sudão. Ao seu redor, membros de seu sindicato, o Comitê de Internos e Residentes, usando aventais brancos, aplaudia.

"Estou feliz porque a justiça ganhou", disse ele, acrescentando que estava contente por voltar a sua família e seus pacientes. "Preciso voltar ao trabalho."

Em todos os EUA no domingo (5), as agências não governamentais que colocam refugiados em casas de família e os ajudam a encontrar trabalho se preparavam para reassentar o maior número possível, enquanto se recuperavam do ataque da semana passada. Antes de sexta-feira (3), seu trabalho começou a diminuir, pois só podiam assentar refugiados que estavam em trânsito quando o presidente assinou a ordem. Eles vinham se preparando para que suas atividades parassem durante quatro meses, de acordo com a ordem.

Leslie Aizenman, dos Serviços Judaicos de Famílias e Crianças, uma agência de reassentamento em Pittsburgh, já tinha colocado no mercado um apartamento preparado para uma família de Homs, na Síria, que deveria chegar aos EUA na terça-feira. O Departamento de Estado cancelou a viagem na semana passada, e Aizenman não tinha certeza de quando seria remarcada.

Sua equipe tinha devolvido as mochilas cheias de suprimentos escolares e animais de pelúcia que tinham preparado para as crianças da família, um menino de 9 anos e uma menina de 8. Também disseram a outra família síria de Pittsburgh, que se oferecera para fazer uma refeição de boas-vindas a seus novos vizinhos, que não precisava se incomodar.

Devido à mudança de último minuto, Aizenman disse que a família refugiada poderá ter de morar algum tempo em abrigos temporários e ter uma primeira refeição em restaurante, em vez de caseira.

"Tínhamos interrompido o processo, mas de qualquer jeito vamos acomodá-los quando chegarem aqui", disse ela.

Uma decisão interina sobre se a ordem executiva poderá ser aplicada provavelmente virá depressa do Tribunal de Apelação. Mas a decisão final sobre se a ordem é legal demorará muito mais, e é provável que venha da Suprema Corte. Isso significa que as pessoas que tentam viajar ou se estabelecer nos EUA poderão ficar no limbo até que o caso seja finalmente resolvido. No fim de semana, advogados diziam a seus clientes para aproveitar a janela precária.

"Estamos incentivando as pessoas a virem assim que possível", disse Mary McCarthy, diretora-executiva do Centro Nacional de Justiça para Imigrantes, uma organização com sede em Chicago que oferece serviços jurídicos e de advocacia para imigrantes. "Se vocês precisarem voltar a este país, devem fazê-lo agora."

McCarthy disse que sua organização esteve em contato regularmente no fim de semana com uma rede de aproximadamente 1.500 advogados que se ofereceram para ajudar os viajantes de graça; os advogados se mobilizaram em turnos nos aeroportos de todo o país, observando as autoridades alfandegárias, para garantir que a decisão do juiz de Seattle fosse aplicada, e aconselhando os refugiados e detentores de vistos a se preparar para questões que poderão surgir com sua situação de imigração.

"Estamos muito vigilantes", disse ela.

* Colaboraram na reportagem Anne Barnard, Joel Epstein, Thomas Erdbrink, Sheri Fink, Jeffrey Gettleman, Nicholas Kulish, Ciaran McEvoy, Sean Piccoli, Liz Robbins, Somini Sengupta e Nour Youssef.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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