Já viu político comprar voto ou coagir eleitor? Na Somália, a corrupção está explícita

Jeffrey Gettleman

Em Mogadício (Somália)

  • Tyler Hicks/The New York Times

    Crianças jogam bola em Mogadício, Somália

    Crianças jogam bola em Mogadício, Somália

Políticos usam maços de notas de US$ 100 para comprar votos. Outros compareceram para disputas parlamentares ao lado de desconhecidos políticos, que foram subornados ou coagidos a concorrer contra eles, para que a disputa pareça justa. Em um caso, a candidata misteriosa era a empregada do político.

Nesta semana, a Somália, que sofre sem um governo central funcional há mais de 25 anos e foi escorada por bilhões de dólares em ajuda americana, está realizando uma eleição presidencial inovadora, atentamente monitorada, que as autoridades da Organização das Nações Unidas chamam de um "marco".

Mas vários analistas, investigadores e alguns diplomatas ocidentais dizem que a eleição se transformou em um marco de corrupção, um dos eventos políticos mais fraudulentos na histórica da Somália, o que não é pouco, dado que o país é considerado pela Transparência Internacional, uma organização global anticorrupção, como o mais corrupto do planeta.

Investigadores somalis estimam que pelo menos US$ 20 milhões trocaram febrilmente de mãos durante as eleições parlamentares que culminarão na escolha do presidente, na quarta-feira.

Acredita-se amplamente que forças externas como Turquia, Sudão, Emirados Árabes Unidos e Qatar estão comprando candidatos presidenciais para obtenção de acordos comerciais substanciais, disseminação de uma versão mais austera do Islã ou espionar as forças americanas.

O processo todo tem sido tão ruim, disseram vários analistas, que o Al-Shabab, um grupo militante e uma das organizações islamitas mais mortíferas do mundo, nem mesmo está tentando atrapalhar a eleição, porque a corrupção desenfreada quase faz os militantes parecerem respeitáveis em comparação.

Arte UOL

"Esta eleição tem sido ótima para o Shabab", disse Mohamed Mubarak, que dirige uma organização anticorrupção somali, a Marqaati, que significa "testemunha". "O governo perde ainda mais legitimidade e o Shabab tem a chance de comprar uma cadeira!"

Por décadas, o mundo doou  mais sangue e recursos à Somália do que praticamente a qualquer outro lugar fora o Iraque e o Afeganistão. A disfunção política da Somália provocou sofrimento e morte em escala épica, e seus problemas tendem a não respeitar fronteiras.

Os Estados Unidos reforçaram recentemente sua presença militar aqui, vendo a Somália como uma grave ameaça à segurança. Senhores da guerra fazem seu próprio povo passar fome, levando centenas de milhares de somalis a países vizinhos e ao exterior. O Al-Shabab massacrou centenas de inocentes, incluindo ocidentais, por todo o Leste da África. E quem pode esquecer os piratas somalis do século 21, que sequestraram o comércio global com pequenas lanchas?

Mas oficiais militares americanos, europeus e africanos dizem que poder de fogo por si só não resolverá esses problemas. A única resposta, segundo eles, é o governo da Somália se endireitar e fornecer uma alternativa ao caos.

Mesmo antes desta eleição ser manchada por uma corrupção impressionante, a paciência já estava se esgotando. Agora, com a mensagem do presidente Donald Trump de "América Primeiro", muitos trabalhadores de ajuda humanitária e diplomatas que passaram anos tentando ajudar a consertar a Somália temem que ela entre na mira de Trump.

Ele fez da Somália um dos sete países sob sua proibição de entrada nos Estados Unidos e alguns temem que ele suspenderá a ajuda. Muitos especialistas somalis acreditam que isso apenas desestabilizaria ainda mais o país, alimentando o caos que transformou a Somália em uma ameaça global de terrorismo. E o pessoal de ajuda humanitária diz que seria um momento difícil para cortes de fundos à Somália, pois o país poderia caminhar para outra fome.

'Um Estado falso'

A Somália tem se arrastado de uma crise a outra desde 1991, quando o governo central desintegrou, senhores da guerra baseados em clãs arrasaram o país e uma fome teve início.

De lá para cá, várias combinações de senhores da guerra, tecnocratas e islamitas foram reconhecidos como o governo oficial, apesar de não governaram muito território, não fornecerem nenhum serviço ou manterem o país seguro.

O Al-Shabab continua sendo uma ameaça impossível de deter. No final de janeiro, em um espaço de três dias, combatentes do Al-Shabab detonaram duas bombas grandes em Mogadício e mataram dezenas de soldados quenianos da força de paz a várias centenas de quilômetros de distância.

"O governo somali não tem autoridade, não tem apoio popular, nem o monopólio sobre a violência", disse Abdirahman Abdishakur Warsame, um ex-ministro do planejamento que agora está concorrendo à presidência. "É um Estado falso."

Há poucos anos, os maiores apoiadores da Somália, os Estados Unidos, Reino Unido, União Europeia, Suécia e Itália, consideraram um plano para realização de eleições. Vários diplomatas ocidentais disseram que foram pressionados por seus governos para mostrar que, após tanto dinheiro investido, a Somália estava fazendo algum progresso.

Mas a ameaça do Al-Shabab tornava difícil a realização de eleições populares em muitas partes do país, de modo que os governos ocidentais passaram a apoiar um processo de votação mais limitado, baseado nos clãs tradicionais da Somália.

Apesar de quase todos os somalis compartilharem a mesma língua, cultura e etnia, a sociedade somali é dividida em um número vertiginoso de clãs, subclãs, subsubclãs e subsubsubclãs baseados em linhagem. Essas divisões de clãs se tornaram unidades políticas oficialmente reconhecidas, quase como distritos eleitorais.

Eleições corruptas baseadas em clãs não são novidade aqui. Segundo vários pesquisadores, quando o presidente Hassan Sheikh Mohamud foi escolhido em 2012, muitos dos anciãos de clãs receberam uma propina de US$ 5.000 para escolha do representante do clã no Parlamento.

Mas agora, em vez dos anciãos dos clãs escolherem todos os representantes, os diplomatas ocidentais pressionaram por um processo mais amplo, mais inclusivo, no qual cada um dos 275 membros da câmara baixa do Parlamento seriam escolhidos por convenções de clãs contendo 51 delegados por convenção.

Os diplomatas ocidentais disseram que achavam que ter 51 votos em vez de um para cada cadeira tornaria a compra de votos mais difícil.

Agora dizem que estavam errados.

De mão em mão

O novo sistema eleitoral provocou "inflação de corrupção", disse Abdirazak Fartaag, um ex-funcionário do governo somali. Ele disse que todas as etapas foram repletas de corrupção e que algumas cadeiras no Parlamento acabaram custando mais de US$ 1 milhão cada.

"A comunidade internacional estava determinada a ter uma eleição a todo custo e é nisso que deu", ele disse. "É realmente patético."

Nos últimos quatro meses, os clãs concluíram suas convenções. Tanto a Câmara quanto o novo Senado, cujos representantes foram escolhidos de uma forma ligeiramente diferente, tomaram posse.

Porém mais de 10 anciãos somalis disseram em entrevistas ter pago ou recebido propina. Eles disseram que poderiam ser mortos por revelar como o processo realmente funcionou.

Um ancião em Kismayo, uma cidade portuária abandonada no sul da Somália, disse que na noite que antecedeu a escolha pelo seu clã do membro do Parlamento, um dos candidatos foi ao hotel onde os delegados estavam hospedados e começou a distribuir maços de notas de US$ 100. O candidato disse aos delegados que cada um receberia US$ 3.000 por seus votos.

O dinheiro, disse o ancião, foi passado de mão em mão.

"Todo mundo sabe que é errado", disse o ancião. "Mas você não pode recusar. Se o fizer, o clã não confiará em você e talvez você passe a ter problemas."

Quando perguntado sobre que tipo de problemas, ele disse: "Problemas de segurança pessoal".

Outro ancião disse que em uma disputa acirrada por uma cadeira no Parlamento em Mogadício, a convenção de 51 membros ficou dividida, 25 a 25, restando um voto indeciso. O ancião reconheceu que foi oferecido US$ 10 mil ao resistente.

Ele explicou o quão importante é ter proteção política em um lugar como Mogadício. Ele disse que se você se tiver uma disputa imobiliária ou um de seus parentes for preso de forma arbitrária (coisas que acontecem rotineiramente nesta cidade), ajuda muito poder contar com a intervenção de um amigo membro do Parlamento.

Vários anciãos pareceram achar graça com o advento do que chamam de candidatos "noiva", pois seguem outros candidatos para que esses pareçam ter um oponente. Em uma disputa no sul da Somália, disseram os anciãos, os representantes do clã ficarão tão cheios do candidato principal, que estava tentando comprar sua cadeira, que o seguidor neófito acabou vencendo a disputa.

'O presidente é uma hiena'

São mais de 20 candidatos na disputa presidencial. Analistas argumentam que Mohamud tem uma boa chance de manter o cargo, pois recebeu milhões de dólares da Turquia e dos Emirados Árabes Unidos para compra de um número suficiente de parlamentares que escolherão o novo presidente. A Turquia, disseram analistas, investiu milhões no porto e aeroporto de Mogadício. Mohamud se recusou a comentar.

Pode parecer estranho que a Somália, um dos países mais pobres e negligenciados do mundo, seja tamanho foco de geopolítica.

Mas segundo diplomatas, os Emirados e o Qatar estão apoiando candidatos diferentes aqui, em uma rivalidade em torno da Irmandade Muçulmana, enquanto o Egito e a Etiópia apoiam candidatos diferentes, devido ao seu duelo pelo Nilo. E o Sudão está apoiando certas figuras políticas para manter seu acesso aos serviços de inteligência somalis, que também trabalham com a CIA. Desse modo, disseram analistas, o Sudão poderia espionar o que os americanos estão fazendo na Somália.

Michael Keating, chefe da missão da ONU na Somália, argumenta que talvez a eleição somali não deva ser julgada segundo os mesmos padrões que uma eleição em um país estável.

Ele disse que apesar da corrupção ser "claramente um grande problema", este processo eleitoral foi mais legítimo que anteriores, resultando em mais parlamentares do sexo feminino e alguma reconciliação em clãs.

Mesmo assim, ele acrescentou: "Não estamos saindo por aí dizendo que foi fantástico. Não foi".

A população concorda. Os slogans nos outdoors eleitorais, "Justiça", "Paz", "Desenvolvimento", "Somos Todos Irmãos", a faz rir.

"O presidente é uma hiena", disse Mohamed Said Mohamed, um peixeiro. "Esse pessoal aceita propinas de US$ 100 mil enquanto a maioria de nós mal consegue pagar por um prato de espaguete."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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