Pensado para terroristas, veto de Trump está barrando médicos

Donald G. McNeil Jr.

  • Jenn Ackerman/The New York Times

    O médico sírio Naeem Moulki em hospital em Minneapolis

    O médico sírio Naeem Moulki em hospital em Minneapolis

A administração Trump armou uma enérgica defesa de seu veto à entrada de cidadãos de sete países de maioria muçulmana, dizendo ser necessário evitar que terroristas entrem nos Estados Unidos. Mas o veto, agora suspenso por um juiz federal, também afetou viajantes importantes para o bem-estar de muitos americanos: os médicos.

Médicos nascidos em outros países se tornaram cruciais para o atendimento médico nos Estados Unidos. Eles trabalham em cidades pequenas onde não há outros médicos, em bairros urbanos carentes e em hospitais de veteranos de guerra.

Quarenta e dois por cento das consultas na zona rural dos Estados Unidos são feitas com médicos estrangeiros, de acordo com a Academia Americana de Médicos de Família.

Médicos estrangeiros "são os médicos nas cidadezinhas do Maine e de Iowa", disse a Dra. Patricia F. Walker, diretora associada do Global Health Pathway da Universidade de Minnesota, que ajuda médicos refugiados a atuarem nos Estados Unidos.

"Eles vão para os lugares aonde formados da Faculdade de Medicina de Harvard não querem ir", ela disse.

Em todo o país, mais de 15 mil médicos vêm dos sete países de maioria muçulmana cobertos pela proibição de entrada, de acordo com a Medicus, uma empresa que recruta médicos para vagas difíceis de preencher. Isso inclui quase 9 mil do Irã, quase 3.500 da Síria e mais de 1.500 do Iraque.

Dr. Hooman Parsi, um oncologista tão talentoso que detém um visto O-1, concedido a indivíduos com "habilidades ou realizações extraordinárias", estava programado para começar a atender pacientes na quarta-feira em San Bernardino, na Califórnia.

Um juiz federal em Seattle suspendeu o veto da administração na sexta-feira, e um tribunal federal de apelações se negou a restaurá-lo. Mas Parsi continua aguardando no Irã por um visto adiado em meio à confusão, enquanto seu empregador nos Estados Unidos espera furioso.

"Precisamos desesperadamente dele", disse o Dr. Richy Agajanian, sócio administrativo do Instituto de Oncologia da Esperança e da Inovação, que havia acabado de contratá-lo. "Mandamos construir um consultório do zero --passamos três meses nisso, e ele deveria ser inaugurado no dia 1º de fevereiro. Agora não podemos abrir, é muito triste e frustrante".

A clínica de 30 médicos é bastante atuante em Inland Empire, em San Bernardino e em condados de Riverside, observou Agajanian. "É muito pequena a concentração de médicos ali, são quilômetros entre um oncologista e outro", ele disse. "Agora os pacientes que ele atenderia precisarão viajar mais 40 km. Nossos médicos já estão sobrecarregados, e agora eles precisarão estar à disposição com mais frequência".

Os Estados Unidos têm uma falta constante de médicos, apesar de 31 novas faculdades de medicina terem sido abertas desde 2002 e muitas já existentes terem aumentado o número de turmas, de acordo com Merritt Hawkins, uma empresa de recrutamento baseada em Dallas.

Nota-se também que há 22% mais residências disponíveis a cada ano do que formados nos Estados Unidos para assumi-las. São os alunos formados em faculdades estrangeiras de medicina que preenchem essa lacuna hoje; o maior número vem da Índia, seguida pelo Paquistão, China, Filipinas, Irã e Israel.

(O Irã está na lista de exclusão do presidente Donald Trump; o Paquistão, um país de maioria muçulmana com histórico de ataques terroristas internos e externos, não está.)

Muitos graduados estrangeiros têm vistos J-1, que lhes dá cerca de três anos para completar suas residências. "Eles precisam prestar exames de revalidação e fazer uma residência para atuar aqui, mesmo que sejam 'celebridades' em seus países de origem", disse Phillip Miller, um porta-voz da Merritt Hawkins.

Graduados nascidos em outros países muitas vezes trabalharam em instituições de nível internacional e publicaram artigos acadêmicos, então eles têm notas melhores do que formados americanos na parte de conhecimento médico dos exames de validação, de acordo com a pesquisa da Merritt Hawkins --ainda que inicialmente tenham notas menores na parte de habilidades clínicas, que incluem habilidades de comunicação e inglês.

"Precisei trabalhar muito para chegar aqui", disse o Dr. Naeem Moulki, um médico sírio que está terminando uma residência em Minneapolis e deve começar um treinamento em cardiologia no Centro Médico da Universidade de Loyola, em Chicago, no outono --se o seu visto for estendido. "Eles só aceitam os melhores alunos de faculdades de países como o meu".

Esses graduados estrangeiros precisam voltar para casa quando seus vistos expiram, mas eles podem conseguir extensões caso concordem em trabalhar em uma área que o Departamento de Serviços de Saúde e Humanos considere "subservida em médicos", que de forma geral é definida como tendo menos de um clínico geral para cada 3 mil pessoas.

Aqueles que atuam em uma área com escassez de profissionais por vários anos podem se candidatar a um green card. "Depois disso, eles podem atuar em qualquer lugar, mas pelo menos você terá três ou quatro anos de um médico em sua cidade, e isso é bem significativo", disse Miller.

Citando números do Conselho de Medicina de Iowa, o "The Moines Register" noticiou na semana passada que 172 médicos atuantes em Iowa eram dos sete países sujeitos ao veto de Trump, e que 23% dos 13 mil médicos atuantes do Estado eram nascidos fora dos Estados Unidos.

Andrea Clement, uma porta-voz da Medicus, disse que 76% dos médicos estrangeiros recrutados pela empresa no ano passado foram para regiões com menos de 25 mil pessoas ou para cidades de pequeno e médio porte com 25 mil a 500 mil habitantes.

Segundo ela, a empresa recrutou mais médicos estrangeiros para Wisconsin do que qualquer outro Estado, seguido pela Califórnia, Texas, Maryland, Oregon, Missouri, Tennessee, Ohio e Arizona.

Algumas áreas urbanas também sofrem com a falta de médicos. Enquanto o Upper East Side de Manhattan tem cinco vezes mais médicos do que precisa para ser adequadamente atendida segundo as diretrizes federais, partes do Bronx e do Brooklyn têm uma profunda escassez de médicos.

Por exemplo, mais de 150 mil moradores do bairro de Bedford Stuyvesant, no Brooklyn, são considerados como subservidos em médicos segundo as diretrizes federais. Um dos médicos que não puderam entrar no país na semana passada, de acordo com a Pro Publica, era o Dr. Kamal Fadlalla, um especialista em clínica geral do Sudão que é um residente do segundo ano no Interfaith Medical Center, que atende Bedford Stuyvesant e Crown Heights.

Muitos médicos estrangeiros, segundo especialistas, atuam em medicina familiar, pediatria, clínica geral, cirurgia geral e outras especialidades de linha de frente onde eles examinam milhares de pacientes por ano, incluindo muitos pelo Medicare e pelo Medicaid, em vez de seguir especialidades urbanas lucrativas como a cirurgia plástica.

Como um oncologista, Parsi era uma exceção. Ele se mudou para os Estados Unidos em 2007 para um trabalho de pós-doutorado em biologia molecular. Então, depois de fazer seu exame de validação, ele completou sua residência na Universidade de Cincinnati e um treinamento em hematologia e oncologia no Centro Médico da Universidade de Pittsburgh.

Como ele tinha de sair do país para obter seu novo visto, ele foi para Dubai. Ele conta ter passado por um teste de segurança lá, mas tinha de esperar alguns dias pelo visto, então ele foi para Teerã para ver seu pai.

Mas a nova decisão judicial afeta somente aqueles que têm vistos válidos em seus passaportes, então embora ele vá receber um novo visto, ele ainda não pode voltar para os Estados unidos, ele disse no sábado.

O Dr. Abdelghani el Rafei, um residente de primeiro ano na Universidade de Minnesota, disse que o veto, que significa que ele não pode ir para casa ver sua família, o deixou deprimido.

"Eu me senti como se estivesse na Síria de novo", ele disse. "Você se sente caçado lá, como se tivesse feito algo de errado, mesmo que não tenha feito. Agora me sinto do mesmo jeito aqui".

Ele atende pacientes um dia por semana no Hospital de Veteranos de Guerra em Minneapolis, onde às vezes lhe perguntam de onde ele vem.

"Um dos meus pacientes, que era um veterano de guerra com cerca de 60 anos, disse para mim: 'Por que vocês nos odeiam?'", ele perguntou. "Eu falei para ele sobre a Síria. Eu disse: 'Nós não odiamos vocês. As pessoas ruins que vocês veem na TV são as mesmas pessoas que nos fazem sofrer também'".

"Eu amo este país", ele acrescentou. "Tem um período de nossa residência no qual podemos trabalhar na África ou em algum outro lugar. Eu quero trabalhar em uma cidadezinha americana, para mostrar às pessoas que não somos todos maus. Os Estados Unidos nos dão muito, então queremos devolver o que pudermos".

Tradutor: UOL

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