Iranianos desdenhavam a vociferação de Trump. Agora estão preocupados

Thomas Erdbrink

Em Teerã (Irã)

  • Office of the Iranian Supreme Leader via The New York Times

    O líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, em encontro com comandantes militares em Teerã

    O líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, em encontro com comandantes militares em Teerã

Deveria ser uma noite regular de debate semanal para um grupo que se encontra para discutir cinema em um bairro de classe média de Teerã. Mas nessa noite em particular, as cerca de 20 donas de casa, intelectuais e estudantes no grupo só queriam falar sobre uma coisa: um possível conflito violento entre o Irã e os Estados Unidos.

Há meses os membros do grupo não ficavam tão agitados, lembrou uma das participantes, Fariba Sameni, uma tradutora de 57 anos. Ninguém queria discutir cinema. Os membros mais jovens estavam convencidos de que o presidente Donald Trump inevitavelmente bombardearia o Irã. "Eles gritavam que seus futuros seriam destruídos", disse Sameni.

O líder do grupo, um professor, argumentou que Trump, sendo um empresário, no final acabaria fechando um acordo com o Irã. O argumento do professor não foi convincente, disse Sameni.

"Quando voltei para casa, me senti ansiosa e preocupada", ela disse, "como se algo realmente ruim estivesse prestes a acontecer".

Pessimismo e temor podem ser sentidos por toda a capital iraniana, e algumas pessoas culpam não apenas Trump, mas também seus próprios líderes.

Primeiro, Trump ordenou uma proibição de entrada nos Estados Unidos à maioria dos iranianos. Então os militares iranianos realizaram um teste de míssil, que foi seguido por um alerta pelo conselheiro de segurança nacional de Trump de que o Irã estava "sob aviso prévio" para uma represália ainda não definida.

Em meio a tudo isso, Trump emitiu uma enxurrada de postagens pelo Twitter acusando o Irã de interferir na região e ser o "Nº1 em terror". Ele também não perdeu a ocasião para chamar o acordo nuclear de 2015, que muitos iranianos comuns viam como sua principal chance de uma vida relativamente normal, de um "acordo muito, muito ruim".

Nas salas de aula, nos táxis, nos salões de beleza e lares, muitas pessoas neste país de 80 milhões de habitantes passaram de inicialmente desdenhar os comentários de Trump, como sendo bravata política, a se preocuparem com novas sanções e até mesmo ataques militares pelos Estados Unidos. O líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, respondeu a Trump com sarcasmo zombeteiro.

"Trump é imprevisível. Nossos líderes são imprevisíveis", disse Sameni. "De repente é como se estivéssemos em um navio que está afundando."

Arash Khamooshi/The New York Times
Pedestres na praça Valiasr, em Teerã, onde um outdoor de marinheiros americanos capturados por forças iranianas pode ser visto


Quando Trump foi eleito, muitos cidadãos iranianos fizeram o que geralmente fazem: torcer pelo melhor. Nos últimos anos, eles se acostumaram à sensação de estarem andando em uma montanha-russa política, à mercê dos outros.

Em 2015, quando seus líderes, para surpresa geral, fecharam um acordo nuclear com os Estados Unidos e outras potências mundiais envolvendo concessões, muitos iranianos celebraram, na esperança de que as coisas melhorariam. O acordo suspendeu muitas das sanções econômicas debilitantes em troca de garantias verificáveis de atividades nucleares iranianas pacíficas.

E ao longo de grande parte do ano passado, a vida no Irã melhorou um pouco. Apesar da economia continuar favorecendo os ricos, e os casos de corrupção deixarem muitas pessoas cínicas, uma coisa mudou: não havia mais conversa sobre ataques militares, conflito ou guerra com os Estados Unidos.

Pela primeira vez desde 2002, quando o presidente George W. Bush chamou o Irã de parte do "eixo do mal", um senso de relativa normalidade tomou conta da capital. Investidores europeus estavam chegando, as vendas de petróleo aumentaram e o Irã até mesmo assinou contratos para compra de aviões Airbus e Boeing para renovar sua antiga frota.

"Após o acordo nuclear, tudo parecia melhorar", disse Ali Sabzevari Fasfangari, 33 anos, um publisher de revista. "Estava longe de perfeito, mas ao menos estava melhorando."

Ele disse que o acordo nuclear era considerado como um teste. O acordo, ele argumentava com amigos, significava que uma reconciliação entre o Irã e os Estados Unidos era possível, mesmo após décadas de desavença. "Parecia ser um ponto de virada. Estávamos a caminho de voltarmos a fazer parte da comunidade internacional", ele disse.

Nas quase três semanas desde a posse de Trump, essa sensação desapareceu completamente.

Em uma barbearia no oeste de Teerã, o nome Trump foi a única coisa capaz de fazer um grupo de homens jovens esquecer a partida de futebol entre o popular time Esteghlal de Teerã e uma equipe do Qatar.

Arash Khamooshi/The New York Times
Mulheres choram no túmulo de Majid Shahriari, cientista nuclear assassinado em praça pública em 2010 em Teerã


"Achávamos que por ter sido um empresário, ele ofereceria transações com o Irã, talvez alguns investimentos", disse Ali Mohammadi, 26 anos.

Descrevendo-se como um homem jovem que gosta de diversão e está à procura de um emprego decente, Mohammadi disse que agora pensa no que faria se o Irã fosse bombardeado. "A sensação é de que estamos impotentes, à mercê da política internacional."

Quando Trump começou a ridicularizar o acordo nuclear durante a campanha presidencial, muitos no Irã achavam que ele estava apenas tentando ganhar votos.

Alguns iranianos de classe média, que recebem suas notícias dos aproximadamente 150 canais ilegais por satélite em língua persa que são transmitidos do exterior para o Irã, começaram a argumentar que Trump poderia na verdade ser uma bênção.

Sua percebida simpatia pela Rússia era vista como algo positivo no Irã, com muitas pessoas esperando que o presidente russo, Vladimir Putin, conteria as posições anti-iranianas de Trump.

"Mas não podemos esperar que os russos o farão", disse Housang Tale, um historiador que é crítico do relacionamento da Rússia com os líderes iranianos.

"Eles nos usaram ao longo da história, tomando nossas terras e nos vendendo", ele disse sobre a Rússia. "Quem diz que não trocariam o Irã com os Estados Unidos pela Ucrânia? Mais pressão está por vir."

Outros discordam e insistem que as relações cordiais do Irã com a Rússia salvarão o país em caso de novas sanções e ataques militares. "Eles não permitirão que a América nos ataque", disse Malek Elyasi, que é dono de uma oficina de motocicletas. "Qualquer guerra com o Irã se transformaria em um conflito global, porque os russos nos apoiariam."

O desafio do Irã aos Estados Unidos tem sido um pilar da política externa desde a Revolução Islâmica de 1979, e a ideologia de independência em relação às potências mundiais é amplamente abraçada até mesmo pelos iranianos que não gostam do comportamento politicamente repressivo de seu governo.

Mas alguns questionam se essa ideologia às vezes mina os interesses nacionais.

"Que tal não testar um míssil?" disse Sameni. "Talvez isso reduziria as tensões."

Pessoas próximas aos autores de política externa do Irã dizem que não há outra forma de resistir ao que o Irã chama de hipocrisia e dois pesos e duas medidas praticados pelos Estados Unidos e outras grandes potências.

"Os Estados Unidos dizem que não podemos testar mísseis, mas Índia, Rússia e Reino Unido podem fazê-lo sem problemas", disse Mohammad Marandi, um professor da Universidade de Teerã. "Não podemos permitir que nos ditem o que fazer."

Tudo pode ser apenas pose de Trump para "reforçar sua posição de negociação e obter concessões", disse o professor. "Não estamos realmente com medo dele."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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