Financiamento coletivo pela internet ajuda refugiados atingidos por veto

Nicholas Kulish e Nathaniel Popper

  • Mike Hooker/Colorado State University via The New York Times

    Hana Isweiri (dir.) é recebida por seu marido Ahmed Buhalfaia e crianças no aeroporto internacional de Denver

    Hana Isweiri (dir.) é recebida por seu marido Ahmed Buhalfaia e crianças no aeroporto internacional de Denver

Detida em um aeroporto na Jordânia pela proibição de viagens do presidente americano, Donald Trump, Hanan Isweiri temia que, como cidadã líbia, não pudesse voltar para seu marido e seus três filhos no Colorado. Ela se perguntava se conseguiria terminar o doutorado para o qual trabalhara durante sete anos. Principalmente, temia por seu filho de 1 ano, que estava tendo uma reação alérgica, mas não podia sair do aeroporto.

Praticamente a única coisa com que ela não precisou se preocupar --apesar de ficar em hotéis nos aeroportos na Jordânia e na Turquia, e reservar e cancelar lugares em diversos voos naqueles dias caóticos-- foi dinheiro. Amigos haviam criado uma página no site GoFundMe e levantaram US$ 5.366 para ajudar a cobrir os altos gastos que ela teve em consequência da proibição.

"Alguns amigos fizeram um site para angariar dinheiro para mim, e acho que sem isso eu não teria conseguido", disse Isweiri, 41, que chegou ao Colorado no domingo (05), dois dias depois que um juiz federal suspendeu, temporariamente, a proibição às viagens.

Depois da ordem executiva de Trump, advogados ofereceram voluntariamente seu trabalho em aeroportos de todos os EUA. Grandes organizações como a União Americana de Liberdades Civis, que tinham verificado um aumento das doações depois da vitória de Trump nas eleições, ajudaram a montar os processos jurídicos.

Mas a mobilização financeira por pessoas comuns como Isweiri, uma estudante de doutorado na Universidade Estadual do Colorado que estava na Líbia para o enterro de seu pai quando Trump assinou o decreto, foi enorme. Em dezenas de casos, sites de angariação de fundos ("crowdfunding" em inglês) permitiram que amigos, vizinhos e desconhecidos preenchessem o buraco e cobrissem as despesas que de outro modo poderiam ter ameaçado a segurança financeira de imigrantes e residentes afetados pela proibição.

Devido à natureza descentralizada das campanhas, é difícil dizer exatamente quantas começaram desde a mudança na política migratória. Mas o maior site do gênero, GoFundMe, e uma empresa que ele adquiriu recentemente, CrowdRise, tiveram mais de 50 novas campanhas, que levantaram quase US$ 1,5 milhão (cerca de R$ 4,7 milhões) relacionados à ordem executiva, que impediu as viagens de pessoas de sete países de maioria muçulmana durante 90 dias e proibiu a entrada de refugiados sírios por prazo indefinido. Um tribunal de apelação em San Francisco está revendo a ordem.

Uma concorrente menor desse site, YouCaring, também abriga várias campanhas, incluindo uma que levantou quase US$ 7.000 para uma mulher síria que tinha sido aprovada para se estabelecer em Little Rock, no Arkansas. Um site britânico, CrowdJustice, acelerou sua inauguração nos EUA depois do decreto de Trump. A primeira campanha americana no site angariou US$ 36 mil para pagar pelos advogados de dois irmãos iemenitas que foram deportados depois de chegar ao Aeroporto Internacional Dulles, próximo de Washington.

Só nos últimos dias o "crowdfunding" se tornou cada vez mais uma parte normal da reação pública a crises humanitárias como inundações, chacinas ou, neste caso, as consequências de um decreto presidencial.

O GoFundMe captou mais de US$ 3,4 bilhões em doações de 30 milhões de pessoas desde sua fundação, em 2010 --mais do que foi prometido em sites conhecidos como Kickstarter, que se concentra em ajudar empresários e artistas.

"Somos a rede de segurança social para todos os que caem pelas brechas", disse Rob Solomon, executivo-chefe do GoFundMe, que está sediado em Redwood City, ao sul de San Francisco. "Não importa o tamanho das ONGs e das agências do governo, muita gente cai pelas rachaduras."

O GoFundMe cobra 5% dos fundos captados como taxa administrativa e mais 2,9% por processamento de doações com cartões de crédito. Ele defende a cobrança indicando os custos de manutenção do site e a construção de sistemas para aprovar potenciais campanhas. O site YouCaring cobra 3% pelo processamento de cartões de crédito.

Essas campanhas foram cercadas de indagações sobre se são a maneira mais eficaz de conseguir dinheiro para pessoas que precisam de ajuda. As instituições beneficentes existentes se queixaram de que esse método canalizou o dinheiro para as histórias mais tristes, em oposição às instituições estabelecidas que oferecem amplo apoio depois de emergências. Os sites também enfrentaram críticas sobre seu nível de supervisão para garantir que o dinheiro vá para onde deve.

Ethan Mollick, um professor na Escola Wharton da Universidade da Pensilvânia, que estudou o "crowdfunding", disse que a natureza individual das campanhas pode reduzir o nível de confiabilidade em torno dos gastos.

Quando Eric Martinez e Jen Thorson, fundadores da empresa Modjoul, perceberam que sua funcionária Nazanin Zinouri, recém-doutorada na Universidade Clemson, estava detida no Irã, seu país natal, abriram uma página no GoFundMe com o objetivo de captar US$ 30 mil para ajudá-la a voltar. Mas receberam críticas sobre o que alguns usuários do site consideraram um número muito alto.

"Vocês já levantaram US$ 12 mil em apenas dois dias, para quê?", perguntou em um post na semana passada um usuário, sob o nome de Kimba Essence. "Onde está a prestação de contas do que fizeram?"

Martinez disse que as pessoas subestimam os custos --não apenas por todos os telefonemas internacionais, impressão de documentos jurídicos e US$ 3.200 para voos no mesmo dia de Teerã a Frankfurt a Boston, mas também por um advogado de imigração que atuará no que deverá ser uma prolongada batalha jurídica. Também se preveem meses de pagamentos de carros e aluguéis enquanto ela esperava sem emprego para voltar aos EUA. (Ela conseguiu no último sábado, 04).

"Todo mundo diz que é dinheiro demais, então baixamos a meta" para US$ 15 mil, disse Martinez. "O único lado negativo são as provocações", acrescentou ele. "Pessoas mal educadas que expõem suas opiniões sem saber o trabalho que dá."

Mas provocações também animam as doações. Depois que alguém no Twitter disse ao ator e ex-funcionário da Casa Branca Kal Penn "Você não pertence a este país", ele foi ao CrowdRise e pediu US$ 2.500 para o Comitê Internacional de Resgates. Acabou levantando mais de US$ 800 mil.

Advogados em Dallas, que montaram uma "sala de guerra" no aeroporto local para ajudar viajantes detidos, levantaram US$ 34 mil para pagar as despesas ligadas à operação. Mais US$ 25 mil foram captados para uma menina do Iêmen separada de sua família.

Mollick disse que os sites são um novo meio promissor para angariar fundos porque permitem uma série inovadora de abordagens a emergências, de maneiras que oferecem aos doadores um sentido mais pessoal de investimento.

"A multidão ['crowd'] tende a escolher uma variedade maior de coisas, que podem ser muito boas ou muito ruins", disse ele. "Com dinheiro de especialistas, você tende a chegar ao mesmo resultado sempre."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos