O ponto de vista de um colono sobre o futuro de Israel

Yishai Fleisher*

Em Hebron, Cisjordânia

  • Dan Balilty/The New York Times

    Ma'ale Adumim, um assentamento judaico na Cisjordânia

    Ma'ale Adumim, um assentamento judaico na Cisjordânia

Décadas de conversações fracassaram em implantar a solução de dois Estados. Hoje, judeus e árabes precisam de um novo plano de paz


Na semana passada, o Parlamento de Israel aprovou um projeto de lei controverso que permite ao governo autorizar de forma retroativa comunidades judaicas contestadas na Cisjordânia, indenizando os palestinos que reivindicam as terras.

Os partidos de oposição alertam que essa lei poderia levar Israel a ser processado em Haia, e o negociador-chefe palestino, Saeb Erekat, disse: "O Parlamento de Israel acabou de aprovar uma lei que legaliza o roubo de terras palestinas".

Esse tema foi repetido recentemente em uma conferência de paz em Paris, em uma resolução do Conselho de Segurança da ONU e em um importante discurso do então secretário de Estado americano, John Kerry, todos condenando os assentamentos.

Israel nunca parece ter uma boa resposta para as acusações contra o empreendimento dos assentamentos. Sempre que a alegação de que Israel roubou terras palestinas é ouvida, as respostas de Israel inevitavelmente são: "Nós inventamos o celular", "Temos direitos dos gays", "Voamos para ajudar o Haiti após um terremoto".

Uma ofuscação óbvia. E quando pressionado a explicar por que a muito prometida solução de dois Estados está perenemente emperrada, a resposta é sempre culpar o obstrucionismo árabe.

Essa incapacidade de dar uma resposta clara é resultado de 30 anos de políticas ruins que pressionaram Israel a criar um Estado palestino no coração histórico judaico da Judeia e Samaria, que o mundo chama de Cisjordânia.

Essa política buscava dar legitimidade à ideia de que o território da Judeia e Samaria é terra árabe e que Israel é um ocupador intratável. Hoje, à medida que Israel começa a recuar da solução de dois Estados, não é fácil reconhecer que estávamos errados e que as carreiras de muitas pessoas estão em jogo. Esse é o motivo para Israel repetir as velhas falas partidárias, mas não dar nenhum passo para tornar o Estado palestino uma realidade.

Mas para nós colonos, a verdade é clara: a solução de dois Estados foi concebida de forma errada e nunca ocorrerá, porque a Judeia e a Samaria pertencem ao povo judeu. Nosso direito a essas terras derivam de nossa história, religião, decisões internacionais e guerras defensivas. Os judeus viveram aqui por 3.700 anos, apesar de repetidos massacres, expulsões e ocupações, pelos romanos, árabes, cruzados e otomanos. E o mundo reconheceu a existência nativa do povo judeu nestas terras na Declaração de Balfour de 1917 e no Acordo de San Remo de 1920.

Quando Israel declarou independência em 1948, a Jordânia, juntamente com cinco outros países árabes, atacou Israel, ocupou a Judeia, Samaria e Jerusalém Oriental, expulsando os moradores judeus.

De novo, em 1967, a Jordânia tentou eliminar o Estado judeu, mas dessa vez, Israel forçou o exército jordaniano a recuar para a outra margem do rio Jordão. Apesar do governo israelense ter se mostrado ambivalente em reter as áreas recém-emancipadas, o movimento dos colonos não. Nós passamos a ocupar e desenvolver as terras, assim como os pioneiros do movimento Kibutz.

Hoje, o número estimado de árabes vivendo na Judeia e Samaria é de 2,7 milhões, apesar de alguns pesquisadores contestarem os dados e argumentarem que o número é bem menor. Mas a presença desses moradores árabes por si só não justifica um novo país. Os árabes podem viver em Israel, assim como outras minorias, com diretos pessoais, não direitos nacionais. Mas muitos árabes rejeitam essa opção por não reconhecerem a legitimidade de um Estado judeu, com ou sem assentamentos.

Essa intolerância universal foi exposta após a retirada de Israel da faixa de Gaza em 2005, quando o Hamas assumiu o controle em 2007 e transformou o território em um posto avançado para a jihad (guerra santa), começando três guerras em sete anos.

Em consequência, a maioria dos israelenses, mesmo pragmática, não mais acredita em uma política de abrir mão de terras na esperança de obter paz em troca. Apesar do controle de Gaza pelo Hamas agora ser uma realidade, nenhum israelense deseja um Estado Islâmico da Palestina de olho nele das colinas estratégicas da Judeia e Samaria.

Portanto, a maioria dos colonos diz sem ambivalência que a solução de dois Estados está morta e é hora de discutir novas opções, nas quais Israel manteria a posse da Cisjordânia e posteriormente asseguraria sua soberania ali, assim como fez nas Colinas de Golã e em Jerusalém Oriental.

Sim, Israel terá de lidar com as questões envolvendo os direitos da população árabe, as questões da segurança do país e de seu caráter judaico, mas acreditamos que essas questões podem ser resolvidas por meio do processo democrático. Ao menos cinco planos críveis já estão na mesa.

A primeira opção, proposta pelos ex-parlamentares israelenses Aryeh Eldad e Benny Alon, é conhecida como "Jordânia é a Palestina", um nome justo dado que a população da Jordânia é em geral reconhecida como sendo de maioria palestina.

De acordo com o plano deles, Israel deveria impor a lei israelense na Judeia e Samaria, enquanto os árabes que vivem ali teriam residência israelense e cidadania jordaniana. Esses árabes exerceriam seus direitos democráticos na Jordânia, mas viveriam como estrangeiros com direitos civis em Israel.

Uma segunda alternativa, sugerida pelo ministro da Educação de Israel, Naftali Bennett, propõe a anexação apenas da área C, o território na Cisjordânia como definido pelo Acordo de Oslo (cerca de 60% da área), onde a maioria dos 400 mil colonos vive, ao mesmo tempo oferecendo cidadania israelense aos relativamente poucos árabes que vivem ali. Mas os árabes vivendo nas Áreas A e B, os principais centros populacionais palestinos, teriam seu próprio governo.

Uma terceira opção, que se encaixa com a de Bennett, é promovida pelo professor Mordechai Kedar, da Universidade Bar-Ilan, perto de Tel Aviv. Sua premissa é de que a entidade árabe mais estável no Oriente Médio é a dos Emirados Árabes, que se baseia em um grupo tradicional ou tribo consolidada.

Os árabes palestinos não são uma nação coesa, ele argumenta, mas formados por clãs separados baseados em cidades. Assim, ele propõe autonomia palestina para sete emirados não contíguos em grandes cidades árabes, assim como Gaza, que ele já considera um emirado.

Israel anexaria o restante da Cisjordânia e ofereceria cidadania israelense aos aldeões árabes de fora dessas cidades.

A quarta proposta é a mais direta. Caroline Glick, uma jornalista do "Jerusalem Post", escreveu em seu livro de 2014, "The Israeli Solution: A One State Plan for Peace in the Middle East" (A solução israelense: um plano para um só Estado para a paz no Oriente Médio, em tradução livre, não lançado no Brasil), que, contrariando a opinião predominante, os judeus não correm o risco de perder a maioria demográfica em uma Israel que inclua a Judeia e a Samaria.

Nova pesquisa demográfica mostra que graças à queda da taxa de natalidade entre os palestinos e à emigração, combinada com tendências opostas entre os judeus, existe uma maioria judaica estável acima de 60% entre o rio Jordão e o Mediterrâneo (excluindo Gaza), com projeção de que cresça para cerca de 70% até 2059.

Portanto, Glick conclui que o Estado judeu está seguro: Israel deve impor a lei israelense na Cisjordânia e oferecer cidadania israelense para toda sua população árabe, sem medo de ser vencido pelo voto. Nesta semana, o presidente de Israel, Reuven Rivlin, anunciou seu apoio à ideia em princípio. "Se estendermos a soberania", ele disse, "a lei deve ser aplicada igualmente a todos".

A vice-ministra das Relações Exteriores de Israel, Tzipi Hotovely, defende igualmente a anexação e concessão de direitos de residência aos palestinos, com um caminho para a cidadania para aqueles que jurarem fidelidade ao Estado judeu.

Outros preferem um arranjo parecido com o de Porto Rico, um território dos Estados Unidos cujos moradores não podem votar em eleições federais. Alguns palestinos, como o clã Jabari em Hebron, querem residência israelense e são contrários à Autoridade Palestina, que veem como ilegítima e corrupta.

Finalmente, há uma quinta alternativa, que vem do líder do novo partido Zehut, Moshe Feiglin, e de Martin Sherman, do Instituto para Estudos Estratégicos de Israel. Eles não veem uma resolução das aspirações nacionais conflitantes em uma só terra, propondo em vez disso uma troca de populações com os países árabes, que na prática expulsaram cerca de 800 mil judeus na época da independência israelense.

Em comparação, seriam oferecidas aos palestinos na Judeia e Samaria uma compensação generosa para emigrarem voluntariamente.

Nenhuma dessas opções é uma panaceia. Todas as fórmulas têm algum elemento potencialmente repulsivo ou alguma troca complicada. Mas as políticas israelenses ao menos estão em movimento, como a aprovação do projeto de lei dos assentamentos indica.

O mantra de Kerry de que "não há realmente nenhuma alternativa viável" à solução de dois Estados é contrariado por seu fracasso manifesto. Com um novo governo americano no poder, há uma oportunidade histórica de uma discussão aberta sobre alternativas reais, sem ser atrapalhada pelas crenças do passado.

Yishai Fleisher é o porta-voz internacional da comunidade judaica de Hebron

George El Khouri Andolfato

 

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