Legado da Olimpíada do Rio é uma série de promessas não cumpridas

Anna Jean Kaiser

No Rio de Janeiro

  • Dado Galdieri/The New York Times

    Montes de terra no que era a piscina de aquecimento das Olimpíadas do Rio

    Montes de terra no que era a piscina de aquecimento das Olimpíadas do Rio

Não é raro que os Jogos Olímpicos deixem para trás algumas construções desnecessárias. O Rio de Janeiro, porém, está experimentando algo excepcional: menos de seis meses após o fim da Olimpíada, seu legado para a cidade está se deteriorando rapidamente.

Há muitos prédios vazios, contrariando toda a animação dos jogos no ano passado. No Parque Olímpico, algumas entradas para estádios estão fechadas com placas de madeira e há parafusos espalhados pelo chão. A arena de handebol está obstruída por barras de metal. O centro de teletransmissão continua semidesmontado. A piscina de aquecimento está enfeitada com montes de terra e poças.

Dado Galdieri/The New York Times
Piscina usada para a prova de canoa slalom nas Olimpíadas e que deveria ficar aberta ao público depois, mas foi fechada em dezembro

Deodoro, um bairro da periferia pobre do Rio, tem o segundo maior conjunto de instalações olímpicas. A raia de canoagem slalom deveria ter sido transformada em uma enorme piscina. Foi fechada ao público em dezembro, e hoje os moradores do bairro enchem suas piscinas plásticas a poucos metros dali.

"O governo colocou o doce em nossas bocas e o tirou antes que pudéssemos engolir", disse Luciana Oliveira Pimentel, uma assistente social de Deodoro, enquanto seus filhos brincavam em uma piscina plástica. "Quando a Olimpíada acabou, eles nos deram as costas."

Dado Galdieri/The New York Times
Crianças se refrescam numa piscina de plástico no bairro de Deodoro

As autoridades olímpicas e os organizadores locais costumam se gabar do legado dos jogos - os benefícios residuais que uma cidade e o país experimentarão muito após o fim das competições. Essas projeções muitas vezes são recebidas com ceticismo pelo público e por economistas independentes, que afirmam que os jogos desperdiçam dinheiro público.

O Rio rapidamente se tornou o último e talvez mais notável caso de promessas não cumpridas e abandono.

"Está totalmente deserto", disse Vera Hickmann, 42, que esteve recentemente no Parque Olímpico com sua família. Ela lamentou que apesar de a área estar aberta ao público não tenha os serviços básicos."Tive de levar meu filho até as plantas para ele fazer xixi", disse ela.

Na Vila Olímpica, em frente ao parque, as 31 torres deveriam ser vendidas como condomínios de luxo depois dos jogos, mas menos de 10% das unidades foram vendidas. Do outro lado da cidade, no Estádio do Maracanã, um templo do futebol, o campo está marrom e a eletricidade foi desligada.

"O governo não tinha dinheiro para dar uma festa como essa, e nós temos de nos sacrificar", disse Hickmann, referindo-se aos contribuintes locais.

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Centro de transmissão de televisão usado nas Olimpíadas e que nunca foi totalmente desmontado depois

Nos preparativos para os jogos, a Prefeitura do Rio prometeu que não haveria "elefantes brancos". A arena que abrigou taekwondo e esgrima seria transformada em uma escola. Duas outras arenas seriam desmontadas e uma delas remontada em outro lugar como quatro escolas. Nada disso aconteceu.

O gabinete do prefeito disse que esses projetos ainda estão sendo elaborados, mas não deu um cronograma específico.

A decadência das instalações olímpicas está acontecendo enquanto uma crise financeira envolve os governos federal, estaduais e municipais. "O país está em crise, o Rio de Janeiro está em crise - é hora de ser cauteloso", disse Marcelo Crivella, que se tornou prefeito do Rio em 1º de janeiro, aos novos vereadores da cidade. "Os gastos estão proibidos", acrescentou ele.

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Parquinho próximo do Estádio Aquático Olímpico no Rio de Janeiro

O prefeito da cidade na época dos jogos, Eduardo Paes, foi um dos maiores evangelizadores sobre o legado olímpico. Ele disse por um e-mail que é cedo demais para chamar qualquer desses locais de elefante branco, e que "o caminho para se implementar o legado foi dado".

Depois dos jogos, a Prefeitura realizou um leilão para que empresas privadas fizessem ofertas para administrar o parque olímpico, mas não houve propostas. Isso deixou o peso financeiro para o Ministério do Esporte, do governo federal. O ministro do Esporte, Leonardo Picciani, disse em uma entrevista que o objetivo do órgão era encontrar uma empresa privada para tomar conta do parque, mas como não houve interesse é responsabilidade do governo manter esses locais.

Picciani também disse que os estádios não se tornarão relíquias dispendiosas, indicando vários eventos esportivos marcados para o Parque Olímpico este ano, além de programas de treinamento esportivo.

Renato Cosentino, pesquisador no Instituto de Planejamento Regional e Urbano da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que estuda a região do Parque Olímpico, disse que o parque "nasceu como elefante branco", porque foi construído em um subúrbio rico e distante, que abriga apenas cerca de 5% dos 6,3 milhões de moradores da cidade.

Fazer a maior parte dos investimentos ali, disse ele, prova que a Olimpíada teve o objetivo de servir aos empreiteiros privados, que assumiram grande parte das construções para os jogos em troca de poder construir no terreno depois, no que é conhecido como parceria público- privada.

As expectativas dos desenvolvedores tampouco se realizaram. As construtoras gigantes Carvalho Hosken e Odebrecht assumiram o projeto de construir a Vila Olímpica na esperança de vender os apartamentos como condomínios de luxo depois dos jogos, apostando que a área se tornaria um bairro desejável para a elite da cidade.

No complexo de 31 edifícios de 17 andares que formam a vila, só 20 unidades foram vendidas desde o início dos jogos, em agosto de 2016, elevando o total de apartamentos vendidos a apenas 260 dos 3.064 construídos.

Em um esforço para vender os imóveis antes que a Carvalho Hosken se tornasse responsável por cerca de US$ 6,5 milhões em pagamentos de juros mensais (antes pagos pelo comitê organizador local dos jogos), a empresa está no processo de fechar um acordo com a prefeitura para vendê-los a funcionários públicos, como militares, com descontos e baixas taxas de juros, segundo o jornal O Globo.

O icônico estádio de futebol Maracanã, que abrigou as cerimônias de abertura e encerramento dos Jogos Olímpicos, também caiu em abandono, com o campo marrom, milhares de assentos arrancados, televisores desaparecidos e quase US$ 1 milhão em dívida com a companhia de eletricidade.

O consórcio que administra o estádio, Maracanã SA, afirma que a Rio 2016 e o governo do Estado do Rio de Janeiro não cumpriram sua parte do contrato, que exigia que mantivessem o estádio e o devolvessem no estado em que foi entregue a eles.

O bairro depauperado de Deodoro foi um dos pontos favoritos nos discursos das autoridades olímpicas antes e durante os jogos. Várias instalações construídas lá - como para provas equestres, de tiro e hóquei - foram anunciadas como um exemplo claro de que a Olimpíada poderia recuperar uma área problemática.

Mas a principal atração era a piscina gigantesca, usada como raia de canoagem slalom, que foi aberta ao público antes dos jogos.

Quando a piscina foi inaugurada, o então prefeito Paes reluzia. "Deixamos um primeiro legado aqui", disse ele. "Acho que é algo inédito na história das Olimpíadas."

Hoje a piscina está fechada, embora as temperaturas sejam habitualmente de 32ºC e o bairro fique a uma longa viagem de ônibus das praias do Rio. O prefeito atual, Crivella, disse novamente que a Prefeitura pretende reabrir a piscina assim que possível, mas não fez uma previsão de data.

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Mulheres relaxam debaixo de complexo vi?rio constru?do para as Olimp?adas no bairro carente de Deodoro, no Rio de Janeiro

Ali perto, a comunidade da favela Triângulo foi remanejada para dar lugar a linhas de ônibus rápidas que foram expandidas antes da Olimpíada. Várias casas e a praça da comunidade, seu principal espaço de lazer, foram removidas pela obra.

Hoje há uma rotatória para os ônibus onde costumava ficar a praça, mas os moradores não têm acesso aos ônibus. Eles dizem que lhes prometeram um terminal de ônibus e um novo espaço de lazer, mas nada disso aconteceu.

"O governo e os empresários nos enganaram. Eles vieram, roubaram e disseram adeus", disse Camila Felix Muguet, 36, que perdeu parte de sua casa e seu quintal para o projeto. "Agora eles foram embora e onde estão nossas melhorias?"

Pimentel, a moradora de Deodoro cujos filhos brincavam na piscina plástica, disse que sempre desconfiou que a piscina pública talvez não durasse.

"A Olimpíada acabou, Deodoro acabou", disse ela, balançando a cabeça. "Vamos ser esquecidos."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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