Ex-preso quer voltar para cela de Guantánamo

Carlotta Gall

Em Túnis (Tunísia)

  • Tara Todras-Whitehill/The New York Times

    Hedi Hammami, que ficou preso em Guantánamo por oito anos, em Túnis, na Tunísia

    Hedi Hammami, que ficou preso em Guantánamo por oito anos, em Túnis, na Tunísia

Vestindo uma jaqueta pesada e um gorro de lã em uma noite fria de inverno, contando suas moedas para a passagem de ônibus, Hedi Hammami se parece com qualquer outro tunisiano a caminho do trabalho.

Mas ele anda mancando e às vezes para no meio de uma fala, contorcendo o rosto em dor. "Isso é Guantánamo", ele explicou. Após oito anos como detido na instalação de detenção americana em Guantánamo, Cuba, ele disse que ainda sofre de dores de cabeça, depressão e ataques de ansiedade devido à tortura e outros maus-tratos que diz ter sofrido ali, mesmo seis anos após ter sido solto.

Atualmente casado, com dois filhos e empregado como motorista noturno de ambulância, Hammami, 47 anos, parece ter reconstruído sua vida. Mas as pressões de viver na falha democracia da Tunísia, sendo molestado e sofrendo repetidas batidas policiais, o levaram a fazer um pedido extremo.

"Seria melhor para mim voltar para aquela cela individual e ser deixado em paz", ele disse recentemente. "Duas ou três semanas atrás, eu procurei a Cruz Vermelha e pedi que me colocassem em contato com o ministério das Relações Exteriores dos Estados Unidos, para pedir para voltar para Guantánamo."

A Cruz Vermelha se recusou a atender seu pedido, ele disse, mas ele insiste que a esta altura, isso seria o melhor para ele.

"Perdi toda minha esperança", ele disse. "Não há futuro neste país para mim."

Quando ele foi solto de Guantánamo em 2010, a Tunísia ainda era uma ditadura sob o presidente Zine el-Abidine Ben Ali e notória por torturar prisioneiros, em particular os radicais islâmicos. Não mais considerado uma ameaça aos Estados Unidos, Hammami foi enviado à ex-república soviética da Geórgia.

Após o levante popular em 2011 que derrubou Ali e deu início à Primavera Árabe, Hammami negociou seu retorno à Tunísia. O momento foi oportuno, pois ele se beneficiou de uma anistia nacional para presos políticos e um programa de indenização que lhe deu um emprego no Ministério da Saúde.

"Eu esperava que após a revolução tudo ficaria melhor", ele disse em uma das várias entrevistas em sua casa alugada, em um bairro de classe trabalhadora em Túnis.

Mas logo após começar a trabalhar em 2013, a polícia realizou uma batida com cães em seu apartamento às 3h da manhã, arrombando a porta e o arrastando até a delegacia. "Eles me fizeram rastejar de quatro pelas escadas", ele contou.

Na delegacia, eles disseram que apenas queriam conhecê-lo, e o deixaram partir após 15 minutos. "Isso foi apenas o início."

De lá para cá, Hammami vive sob um regime constante de vigilância policial, batidas e intimidação. Seu celular e computador foram confiscados. Quando se mudou para uma nova casa, a polícia o seguiu, aparecendo a toda hora para interrogá-lo.

Em dezembro de 2015, ele foi colocado sob prisão domiciliar, informado que não tinha mais o direito de trabalhar e ordenado a comparecer à delegacia toda manhã e noite por seis semanas.

Ele permanece sob "controle administrativo" e a polícia cumpre a ordem à vontade. Ele não pode sair de Túnis. Com frequência, como em 11 de setembro, a política ordena que ele compareça à delegacia. "Sinto como se alguém estivesse fazendo isso por vingança", ele diz.

A polícia também assusta os proprietários de imóveis para que não aluguem para ele, o forçando a se mudar seis vezes em três anos. O cartão de residência de sua esposa argelina foi confiscado, a impedindo de trabalhar para complementar seu baixo salário.  A família mal consegue se sustentar, ela disse, pedindo para que seu nome não seja mencionado por temer maior molestamento policial.

O estresse e a tensão provocados pelas ações da polícia intensificaram os problemas psicológicos que Hammami adquiriu em Guantánamo. "Sinto pressão demais", ele disse, esfregando suas têmporas.  "Toda aquela escuridão retorna."

Rim Ben Ismail, uma psicóloga que trabalha para a Organização Mundial Contra a Tortura, na Tunísia, e que já tratou de 12 tunisianos que ficaram detidos em Guantánamo, disse que o desejo de Hammadi de voltar para sua cela é comum entre os detidos de Guantánamo.

"Eles viveram com sofrimento, sofrimento físico", ela disse em uma entrevista. "Mas agora há o sofrimento psíquico, e com frequência dizem 'Me leve de volta para lá'."

"Devido ao passado deles, todos são considerados culpados e é impossível viver assim, tanto para eles quanto para suas famílias", ela acrescentou. "As famílias são ameaçadas e intimidadas." Os pais, em particular, temem as forças de segurança tunisianas e acham que seus filhos estariam mais seguros em Guantánamo, ela acrescentou.

Segundo ela, as batidas costumam ser desnecessariamente violentas. Os policiais arrombam as portas e acordam o suspeito com arma apontada contra sua cabeça, com frequência diante da esposa e filhos. "Tudo é feito de forma a agredir a pessoa", ela disse. "Eles não precisam realizar uma batida às 2h da manhã."

Um de seus ex-pacientes de Guantánamo foi molestado de modo tão impiedoso pela polícia que se tornou suicida e fugiu para a Síria, onde foi morto. "Ele era uma pessoa gentil", ela disse com tristeza. "Tratar essas pessoas desse modo cria um clima de vingança e a sensação de que eles não tem um lugar em casa."

Não há dúvida de que a Tunísia tem um problema com terrorismo. Ela tem enfrentado ataques de grupos ligados à Al Qaeda desde 2013. A violência escalou até ataques espetaculares em 2015 e 2016 que mataram mais de 70 pessoas, muitas delas turistas estrangeiros em um museu nacional e um resort praiano.

Além disso, os tunisianos formam o maior grupo de combatentes estrangeiros que se juntaram ao Estado Islâmico e outros grupos extremistas na Síria e no Iraque, e alguns foram encorajados a realizar ataques ao retornarem para casa.

Após um ataque ter matado 12 membros da guarda presidencial em novembro de 2015, o governo impôs um estado de emergência. Pelo menos 139 tunisianos foram colocados sob prisão domiciliar desde então, segundo a organização de direitos humanos Human Rights Watch, que documentou os casos em um relatório divulgado em setembro. As sanções foram justificadas no contexto de contraterrorismo, mas "deixaram pessoas enfrentando estigmatização e incapazes de estudar e trabalhar", ela declarou.

Autoridades internacionais de direitos humanos expressaram crescente preocupação com o ressurgimento de abusos na Tunísia. Em um relatório divulgado nesta semana, a Anistia Internacional acusou a polícia e as forças de segurança tunisianas de empregarem medidas repressivas usadas pelas ditaduras do passado, incluindo tortura, morte sob custódia, batidas domiciliares arbitrárias e molestamento ilegal de suspeitos e suas famílias e comunidades.

Ben Emmerson, o relator especial da ONU de direitos humanos no combate ao terrorismo, disse durante uma recente visita à Tunísia que os direitos humanos deveriam ser um elemento central nas operações de contraterrorismo, notando que tortura e outras medidas repressivas alimentam a radicalização.

Hammami disse que sente que a polícia o está pressionando nessa direção. Filho de um agricultor do noroeste pobre da Tunísia, ele diz que partiu originalmente para a Itália em 1986 à procura de trabalho. Lá, ele se juntou a um grupo missionário islâmico, o Tablighi Jamaat, e posteriormente viajou ao Paquistão, onde obteve status de refugiado.

Ele foi preso no Paquistão e entregue para os militares americanos em 2002, que o transferiram para Guantánamo, onde foi acusado de ter treinado nos campos da Al Qaeda no Afeganistão. Os americanos também disseram que encontraram documentos dele em Tora Bora, o último reduto de Osama Bin Laden no país, segundo documentos divulgados pelo WikiLeaks.

Hammami, que nega ter ido ao Afeganistão ou ter qualquer ligação com a Al Qaeda ou terrorismo, acabou sendo solto sem nenhuma acusação.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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