Perdendo os amigos por amor a Trump

George Gurley

  • Alex Wong/Getty Images/AFP

Nikki Haskell teve muitas vidas ao longo de seus 75 anos. Ela foi corretora imobiliária, planejadora de festas, corretora de ações pioneira, apresentadora cult de talk show, frequentadora regular da discoteca Studio 54, guru de dieta e fitness e socialite. Ao longo de tudo isso, ela dependeu de sua inteligência, entusiasmo e sua habilidade como conectora social para que superasse os momentos difíceis.

Mas agora ela está enfrentando o desafio mais difícil de sua vida: manter sua posição nas hierarquias sociais das liberais Nova York e Los Angeles enquanto serve como líder de torcida de um de seus amigos mais antigos, Donald Trump, que ela conheceu em 1974 no Le Club, uma casa noturna só para membros já fechada que ficava na East 55th Street, em Manhattan.

Haskell disse que foi maravilhoso o jantar de gala pré-posse dado por Trump na Union Station, em Washington, em 19 de janeiro. Mas durante o fim de semana, em uma suíte de três quartos no Mandarin Oriental, ela parecia hesitar um pouco.

Grudada na televisão na manhã de 22 de janeiro, ela assistiu a cobertura das marchas das mulheres em várias cidades por todo o país, assim como imagens das manifestações mais turbulentas em 20 de janeiro, durante as quais manifestantes quebraram vitrines, incendiaram uma limusine e entraram em choque com a polícia não distante do Mandarin Oriental. Após assistir tudo isso em muitos canais diferentes, Haskell achou que um levante poderia estar em andamento.

"Você viu o que está acontecendo nas ruas, todas as pessoas provocando tumultos, todas essas mulheres?", ela disse em uma conversa por telefone. "Nunca aconteceu algo assim. Nunca tivemos esses distúrbios, em toda rua, toda cidade, por todo o mundo. Quando há multidões e loucura desse tipo, você nunca sabe o que acontecerá. É assustador."

Diante do que estava vendo na televisão e nas redes sociais, ela passou temer que seu apoio explícito ao novo presidente a tornaria uma pária.

"Não posso ser a única pessoa no mundo defendendo Donald Trump", ela disse. "Eu vou ser atacada se caminhar pelas ruas. Não quero ser atacada. Isto está totalmente fora de controle. Tenho medo de caminhar pelas ruas de Nova York ou Los Angeles. Estou tentando lançar um programa de televisão, mas isso não acontecerá nesse ambiente. Nunca terei outro amigo. Ninguém falará comigo."

Uma vida encantada

Quando Haskell era pequena crescendo em Lake Shore Drive, em Chicago, o pai dela lhe deu seis cavalos e ela vestia roupas de amazona feitas sob medida, com golas brancas e chapéus de seda, em exibições por todo o Meio-Oeste. À noite, seus pais a levavam à casa noturna Chez Paris de Chicago, aonde se apaixonou pelo show business ao assistir apresentações de Milton Berle, Jimmy Durante, Carmen Miranda e Mae West.

Pouco depois de a família se mudar para Beverly Hills, Califórnia, quando Haskell tinha 13 anos, seu pai morreu de ataque cardíaco e sua mãe passou a trabalhar. Haskell seguiu em frente apesar das dificuldades. Na Beverly Hills High School, ela foi líder de torcida e votada como a garota mais atraente.

Na Los Angeles dos anos 60, ela venceu um concurso de dança tendo como jurados Bob Hope e Joan Collins. Namorou com Tony Bennett e saía como Frankie Avalon, Fabian e George Hamilton.

Ela se casou com o empreendedor imobiliário Jack Haskell. Após se divorciar dele, ela disse, transformou os US$ 18 mil que recebeu no acordo em uma pequena fortuna no mercado de ações.

Após se casar de novo com Jack Haskell em 1966, eles se mudaram para o Nº 470 da Park Avenue, em Nova York, e se divorciaram de novo em 1968. Ela ficou com o apartamento em Manhattan, fez um curso de investimento e foi contratada pela Burnham and Company (que posteriormente se tornou a Drexel Burnham).

Por 10 anos, ela foi corretora de ações de dia (e uma das poucas mulheres que trabalhavam em Wall Street) e uma presença constante nos restaurantes e casas noturnas de Manhattan à noite. Ela também ficava à vontade jantando no Elaine's ou julgando um concurso de beleza da revista "Blueboy" no Meatpacking District. Ela brincava que morava no Studio 54. Ela era amiga de Rick James, Imelda Marcos, Andy Warhol e do Village People.

Também fez sucesso com "The Nikki Haskell Show", um programa barato encantador exibido nas emissoras públicas de Nova York "Channel J" e "Channel 10". Nos anos 80, ela foi uma precursora dos astros do YouTube e seus convidados incluíam Michael Caine, Divine, Timothy Leary, Sophia Loren, Diana Ross, Arnold Schwarzenegger, Peter Sellers e Peter Ustinov. Assim como Trump.

A revista "New York" a chamava de "Rainha da Cortesia", por seu hábito de conseguir coisas gratuitas em troca de publicidade positiva. A revista "Spy", menos encantada com seu alpinismo social, a comparava a Pia Zadora.

Nas últimas três décadas, ela tem sido presença constante em festas e eventos beneficentes. Ela também se refez como empreendedora no setor de dieta e fitness como criadora das pílulas de emagrecimento StarCaps, que a colocaram em apuros com as autoridades federais em 2014, porque seus supostos ingredientes "naturais" incluíam o fármaco bumetanida. Haskell foi multada em US$ 60 mil, como noticiou o jornal "The Daily News". (Haskell disse que foram US$ 70 mil.) Ela também vende o Star Cruncher, um equipamento de exercício, pelo Groupon, uma "academia em uma bolsa", como ela o chama.

Democrata de longa data, ela se viu em uma situação difícil no ano passado quando a campanha de Trump à presidência pelo Partido Republicano começou a decolar.

"Estou em um dilema", ela disse em seu apartamento no Upper East Side em abril do ano passado, "porque nada me faria mais feliz do que ver Hillary Clinton como presidente. Nunca imaginei que veria uma mulher presidente na minha vida, e sempre apoiei o casal Clinton. Sou uma democrata registrada, sempre voto no partido e nunca teria votado em outra pessoas que não Hillary, se não fosse pelo fato de Donald estar concorrendo".

Em setembro, Haskell veio a público como apoiadora de Trump quando foi entrevista para um artigo da revista "Politico" intitulado "As verdadeiras Trumpettes de Bel Air", no qual disse sobre a assessora de Hillary, Huma Abedin: "Não acho que devemos ter uma muçulmana no poder, alguém trabalhando para a presidência". Após a publicação do artigo, Haskell notou uma mudança em sua posição social em ambas as costas.

"Foi quando tudo começou", ela disse. "Foi um desastre."

Na noite da eleição, ela foi a um jantar em Nova York dado por um magnata do entretenimento e era a única pessoa lá que admitiu ter votado em Trump, ela disse. Por volta das 3h da manhã, Haskell entrou no Facebook e postou: "Que maravilha, a América vence. Nós amamos o presidente Donald J. Trump".

"Você deve estar senil", respondeu uma de suas seguidoras.

"Você devia estar envergonhada", escreveu outra.

Em 10 de novembro, ela gravou um vídeo de si mesma em um táxi de Nova York e postou no Facebook.

"Cabe a nós fazermos nossa parte para tornar a América grande", ela disse. "Independentemente de você gostar ou não de Donald Trump, agora é hora de tornar a América melhor."

Antes de sua despedida habitual, ela lembrou a todos para assistirem seus velhos programas de televisão, agora disponíveis na Amazon Prime, sendo que em alguns deles ela entrevistou Trump quando era um magnata em ascensão.

Os amigos se distanciaram de Haskell, ela disse, e uma de suas melhores amigas colocou um fim a 25 anos de amizade.

"Eu fiquei às lágrimas quando me disseram que não queriam mais ser meus amigos porque eu apoiei Donald Trump", ela disse.

Em dezembro, o escritor Kevin Sessums se encheu das postagens dela pró-Trump no Facebook. A gota d'água foi a postagem por Haskell de uma entrevista dela de 1982 com Roy Cohn, o mentor de Trump que serviu como advogado do senador Joseph McCarthy durante as audiências McCarthy-Exército em 1954.

"Como se isso fosse algo maravilhoso, glamouroso", postou Sessums.

Uma postagem posterior atacando Haskell ganhou mais de 100 comentários.

Durante as Festas, ela visitou o lar na Califórnia do produtor de cinema Robert Evans, que escreveu sobre Haskell em seu livro de memórias de 2013, "The Fat Lady Sings" (não lançado no Brasil). Ele disse não ter nenhuma simpatia por aqueles que deram as costas a ela por seu apoio ao presidente.

"Eu a amo por isso", disse Evans. "Ao perderem a amizade de Nikki, eles é que saem perdendo. Mas ela é uma vencedora."

Centro do poder

Na tarde de 19 de janeiro, na suíte do Mandarin Oriental, que ela dividia com sua amiga, a filantropa e arrecadadora de fundos Kelly Day, Haskell começou a se arrumar para o jantar de gala na Union Station para doadores e familiares de Trump.

"Donald sempre tem grandes ideias, grandes sonhos, e sempre fui fascinada por isso", ela disse enquanto passava rímel.

Ela se recordou de quando o conheceu no Le Club. "Ele era um sujeito realmente bonito e que chamou minha atenção imediatamente", ela disse. "Ele era cativante mesmo em uma discoteca à noite."

Vários meses depois, Cohn a convidou para um jantar no "21" e a colocou sentada ao lado de Trump. "Nós tivemos uma afinidade imediata", ela disse.

Na primeira noite em que ele saiu em um encontro com uma modelo tcheca chamada Ivana Zelnickova, Haskell, juntamente com seu namorado, se encontraram com eles no Elaine's.

"Ivana e eu nos tornamos amigas na hora", ela disse. "E quando o Studio 54 abriu em 1977, eu ia com Donald e Ivana."

Enquanto Haskell e Day saíam da suíte, ela falou sobre seu crescente número de ex-amigos.

"É preciso muito para me fazer chorar", ela disse, vestindo um casaco de pele de zibelina dourado. "Não tenho filhos. Tenho um irmão fabuloso, sobrinhas e sobrinhos, mas sou uma mulher solitária de 75 anos, e considero isso muito desalentador."

Na Union Station, assim que passou pelos detectores de metal, Haskell sorriu para os paparazzi. Sua mesa ficava ao lado das ocupadas pelos familiares de Trump. Após um discurso pelo presidente eleito, Haskell conversou um pouco com Melania, Ivanka e Tiffany Trump.

"Mal posso acreditar que estamos aqui", Tiffany lhe disse.

Enquanto os garçons limpavam as mesas para o prato principal (robalo assado), ela se levantou.

"Eu apoiei Donald quando ninguém o apoiava", disse Haskell a caminho do toucador. "Um dos familiares me disse: 'Não teria acontecido se não fosse por você'. Bem, não sei se isso é verdade. Mas realmente acredito em Donald."

Ela passou por Jose Fanjul, um barão do açúcar, e Christine Hearst Schwarzman, a esposa do bilionário Stephen A. Schwarzman.

"Sabe por que esta é uma ótima festa?", disse Haskell. "Porque todos aqui amam o Donald."

Após a sobremesa (bolo de merengue de baunilha), ela parecia se sentir melhor a respeito de seus ex-amigos.

"Eles vão superar isso", ele disse. "Se não, então não."

Uma manifestante fazia cara feia para os convidados que deixavam a festa. "Ele envergonha a América!", disse a mulher.

Aguardando por um Uber, Haskell comentou sobre os cristais, talheres de prata, sousplats dourados, toalhas de mesa e decoração. No bar no lobby do Mandarin Oriental, ela pediu uma vodca Grey Goose L'Orange com club soda e uma fatia de laranja (um "Nikki-tini"), e disse não ter ficado ofendida pelos comentários feitos por Trump, mesmo os registrados na chamada gravação Billy Bush.

"Escute, Donald tem mais respeito pelas mulheres do que qualquer pessoa que conheço", ela disse. "Não estou dizendo que ele não é homem. Os homens falam sobre mulheres. Eles falam sobre levá-las para a cama. Mas é apenas papo de homem." Ela se recorda das entrevistas que fez com ele. "E agora estão todas no Amazon Prime", ela disse. "A história do que fiz viverá para sempre."

De volta à suíte, Haskell e Day pediram o serviço de quarto e só encerraram por volta das 4h30 da manhã. Posteriormente, assistiram a posse juntas e de roupão. No domingo, enquanto assistiam aos protestos das mulheres na televisão, Haskell disse que reduziria sua atividade de líder de torcida até a poeira baixar. "Sou só uma pessoa pequena", ela disse. "Não sou uma Kellyanne Conway."

Ela se arrumou e partiu para o Aeroporto Internacional Reagan. "Nunca marcharia", ela disse por telefone, após passar pela segurança. "Sim, funcionou na Guerra do Vietnã e coisas assim, mas era um tempo diferente. Eu não teria problemas em ir ao Congresso, e como tenho um relacionamento estreito com a família Trump, usarei essa oportunidade para melhorar todas as coisas para as mulheres. Porque é exatamente como me sinto."

Apesar de ainda se considerar uma apoiadora de Trump, Haskell de fato diminuiu as postagens no Facebook em defesa do presidente desde o fim de semana da posse.

"Sabe de uma coisa, estou ficando sem amigos e cansada de toda a negatividade", ela disse na quarta-feira. "As pessoas estavam acabando comigo e perdi duas amigas muito queridas, o que considero insano e patético, pensar que pessoas que são amigas há tanto tempo deixaram de falar comigo por eu ter votado em Trump."

Mas ultimamente ela não tem medido esforços para postar material não incendiário.

"Apenas para mostrar como as coisas mudaram", disse Haskell, "outro dia postei a mim mesma indo ao mercado. Foi a primeira vez".

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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