Análise: Muda o partido, mas sexismo contra americanas poderosas persiste

Susan Chira*

  • Tasos Katopodis/AFP

    Assim como Hillary Clinton, Kellyanne Conway, assessora de Trump, é alvo de ataques

    Assim como Hillary Clinton, Kellyanne Conway, assessora de Trump, é alvo de ataques

Qual política mulher poderosa é ridicularizada por suas roupas, é alvo de fotos no Twitter mostrando-a abatida e é constantemente chamada de bruxa e megera?

Se você acha que é Hillary Clinton, está certo. Mas se você supôs que é Kellyanne Conway, está certo também.

Aparentemente a misoginia continua sendo um exercício bipartidário. Por mais legítimas que sejam as críticas contra cada uma das mulheres, é surpreendente como a raiva é frequentemente expressada através dos mesmos termos sexistas, tanto por homens quanto por mulheres.

Hillary "repete suas roupas bregas", atacou um crítico no Twitter. A roupa do Dia da Posse usada por Conway, uma assessora do presidente Donald Trump, parecia "um pesadelo com uma líder de torcida humanoide".

O cabelo de Hillary atraiu implacáveis chacotas; um usuário do Twitter perguntou recentemente: "Por que Kellyanne Conway sempre parece estar bêbada e usando maquiagem da gandaia da noite passada?"

E ambas as mulheres foram repetidamente comparadas às bruxas do Mágico de Oz, o exemplo mais recente deles tendo sido uma foto compartilhada no Twitter com Conway no papel da bruxa morta embaixo da casa de Dorothy.

As duas mulheres se encontram em polos ideológicos opostos, mas elas despertam o mesmo desconforto cultural persistente em relação a mulheres ambiciosas e fortes.

"Esses memes sexistas não se limitam a um partido", disse Karen Finney, uma assessora sênior da campanha de Hillary. "Nós tememos mulheres fortes e mulheres com poder. Esses ataques têm a intenção de deslegitimizar esse poder."

Conway atraiu desdém e foi desconvidada de alguns programas de notícias, por suas referências a um massacre em Bowling Green que nunca aconteceu e por defender alegações a respeito do tamanho do público na cerimônia de posse de Trump como sendo "fatos alternativos". No entanto, parte das críticas feitas a ela assumiram um tom nitidamente machista.

É só ver o furor que houve quando ela se sentou sobre os calcanhares com os joelhos para a frente em um sofá no Salão Oval durante uma recepção para presidentes de faculdades de tradição negra. Quando ela atraiu acusações de ter sido desrespeitosa, alguns dos comentários incluíram menções a ela abrir as pernas e alusões explícitas a sexo oral, Monica Lewinsky e Bill Clinton.

O deputado Cedric Richmond (democrata, Louisiana), contou uma piada agora já famosa de que a posição dela era "familiar" no Salão Oval nos anos 1990, atraindo uma bronca de ninguém menos que Chelsea Clinton. (Richmond pediu desculpas na noite de domingo). 

Um esquete do programa "Saturday Night Live" mostrou Conway como a mulher obcecada do filme "Atração Fatal", invadindo a casa do correspondente da CNN Jake Tapper para seduzi-lo e tentar convencê-lo a convidá-la para seu programa.

"Parece haver muito ressentimento contra ambas, por uma ideia de que elas teriam sede por poder e a vontade de controlar os homens", disse Marjorie J. Spruill, autora de "Divided We Stand: The Battle Over Women's Rights and Family Values That Polarized American Politics" (em tradução livre, "A divisão faz a força: a luta pelos direitos das mulheres e os valores familiares que polarizaram a política americana", sem lançamento no Brasil). "Enquanto Hillary é chamada de castradora e megera, Conway muitas vezes é chamada de vadia. A insinuação é de que ela estaria usando a feminilidade para controlar os homens."

Spruill observou que Conway na verdade havia se inclinado para tirar fotos como um favor aos participantes, mas que alguns detratores haviam classificado a pose como uma investida sexual.

Sobra ironia. Conway é abominada por muitos assessores de Hillary pois ela teria arquitetado uma campanha presidencial que, segundo eles, usou mensagens aberta e implicitamente sexistas. Trump denegriu repetidamente as mulheres por sua aparência e, depois de tomar posse, mandou as mulheres que integram sua equipe "se vestirem como mulheres".

Muitas mulheres conservadoras, desde Sarah Palin até Ann Coulter, enfatizaram sua feminilidade para se distanciar de feministas, a quem elas acusam de odiarem os homens. Em uma entrevista dada recentemente na Conservative Political Action Conference, Conway disse que ela apoiava muitos princípios feministas, mas que não se considerava uma porque o feminismo seria anti-homens, pró-aborto e se identificava com a esquerda.

"Acho que parte da reticência que pode estar parecendo um coro não muito expressivo em defesa de Kellyanne Conway diante desses comentários machistas é a sensação de que ela não é apoiada por nós", disse Gillian Thomas, uma advogada sênior do Women's Rights Project da American Civil Liberties Association. "É uma pena. Se as mulheres fossem mais unidas e se pronunciassem contra esse tipo de comportamento, inclusive quando é perpetrado pela esquerda, estaríamos em uma situação muito melhor."

Conway sugeriu em uma entrevista ao The Daily Caller que haveria mais revolta em relação aos comentários se ela fosse uma mulher de esquerda, acrescentando: "E não somente se eu fosse uma mulher de esquerda, mas sim se eu fosse pró-aborto". Conway não respondeu à mensagem deixada com sua assistente solicitando comentários seus para este artigo.

Ainda assim Conway tem defensores vivazes entre a direita nas mídias sociais que dizem que ela deveria ser festejada como um exemplo de mulher inovadora na política em vez de ser ridicularizada em termos machistas, e algumas mulheres de esquerda no Facebook repreenderam outras por sexismo.

"Senhoras e senhores, discordo dela quanto qualquer um de vocês", escreveu alguém que se identificou como Melissa Mae. "Mas seria ótimo ver comentários que se ativessem a pontos válidos em vez de SEMPRE atacar as mulheres com base em sua 'aparência'."

Mirya R. Holman, uma professora-assistente de ciências políticas na Universidade de Tulane que estuda questões de gênero e política, disse que "isso imita o que mulheres conservadoras disseram no passado: 'Vocês, de esquerda, acham que são tão esclarecidos, mas as pessoas ainda dizem coisas vis a nosso respeito'".

Jennifer Palmieri, diretora de comunicações para a campanha de Clinton, que bateu de frente de forma memorável com Conway em um fórum pós-eleições em Harvard, também vê reflexos do sexismo que perseguiu sua candidata nos ataques contra Conway.

Ela disse que acreditava que Conway deveria ser responsabilizada por suas ações, mas observou que, enquanto Stephen Bannon, estrategista-chefe de Trump, é retratado como um "gênio do mal" que astutamente promove imagens de um Estados Unidos ameaçado por imigrantes e concorrentes estrangeiros, Conway é retratada como "louca" por inventar e promover mensagens similares.

"O que acho realmente perturbador é pensarem que, por ele ser homem, isso é realmente inteligente e estratégico", ela disse. "Por que não há uma teoria por trás do que Kellyanne faz?"

Independentemente de os ataques virem da direita ou da esquerda, eles mostram uma raiva persistente contra mulheres que saem dos papéis convencionais. As mídias sociais há muito tempo possibilitaram uma forte subcultura de depreciação violenta das mulheres, tais como ameaças do GamerGate em relação àquelas que desafiassem o bastião masculinos dos videogames. Assim como um racismo latente veio à tona durante a presidência de Barack Obama, esta eleição expôs uma causticidade em relação a mulheres poderosas que continua a emergir, para além dos limites do Twitter ou do Reddit.

"Para mim, a eleição de 2016 foi uma oportunidade de ser lembrada de que não estamos em uma espécie de sociedade pós-gênero", disse Holman. "Existe um subconjunto de comportamentos aceitáveis para as mulheres."

Finney, uma assessora antiga de Clinton, observou essas questões se exaurirem por mais de 20 anos na vida pública enquanto Hillary servia como referência para debates sobre o papel das mulheres, contando que ela e outras mulheres conservadoras se sentavam nos camarins enquanto esperavam suas entradas em programas de TV e trocavam histórias de como elas eram atacadas.

"Existe essa sensação de 'não é possível, estamos voltando a isso?'", ela disse. "Talvez tenhamos de regredir para avançar".

*Com reportagem de Cynthia Collins e Sona Patel.

Tradutor: UOL

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