Atrito entre presidentes Trump e Obama é inédito e pode fragilizar imagem dos EUA

Peter Baker

Em Washington (EUA)

  • REUTERS/Jack Gruber

Quando se viram pela última vez, há seis semanas, depois da transmissão de poder, o presidente Donald Trump e o ex-presidente Barack Obama se separaram com sorrisos e apertos de mãos. Mas não demorou muito para que a civilidade superficial degenerasse em um choque feroz e público, diferente de qualquer outro nos tempos modernos.

Enquanto Obama permaneceu em silêncio na maior parte do tempo, alguns de seus seguidores mais fiéis entraram em modo de oposição, levando ao que alguns chamam, meio brincando, de "a resistência". Trump, convencido de que os ligados a Obama que continuam no governo estão tentando sabotar sua Presidência, levou o conflito ao nível nuclear no fim de semana, quando acusou seu antecessor de grampear seus telefones no ano passado.

Trump não deu provas, e a acusação foi rapidamente desmentida por veteranos da inteligência e, indiretamente, pelo FBI. Mas isso não a tornou menos sensacional ou menos histórica. Nunca nas gerações recentes o atrito natural entre presidentes atuais e passados extravasou dessa forma em um espetáculo público. Caso continue, ele poderá fragilizar a instituição da Presidência, desgastar ainda mais a confiança já baixa do público na liderança nacional e deixar aliados e inimigos com a impressão de um país em guerra consigo mesmo.

Talvez não deva causar surpresa que isso tenha ocorrido entre o 44º e o 45º presidentes. Durante a campanha no ano passado, Obama chamou Trump de "fraudulento e ignorante", alguém em quem não se podia confiar com os códigos nucleares. Trump chamou Obama de "o pior presidente na história dos EUA", depois de passar anos questionando se ele realmente havia nascido no país. Eles deixaram o rancor de lado para uma reunião cordial depois da eleição, mas isso quase não escondeu o abismo entre os dois em termos de personalidade, política e administração.

"Estamos em um período único", disse Newt Gingrich, o ex-presidente republicano da Câmara que foi um assessor externo do novo presidente. "Trump é uma figura realmente perturbadora, que ameaça tudo o que Obama representa."

O lado de Obama insistiu que eles estão simplesmente defendendo seu legado. "São necessárias duas pessoas para um duelo, e apenas uma parece estar apontando sua arma", disse Jennifer Psaki, que foi diretora de comunicações da Casa Branca sob Obama. "A diferença deste momento é que você tem um presidente destrambelhado e mal informado apontando sua arma contra um ex-presidente. Isso não tem precedentes."

Denis McDonough, último chefe de gabinete da Casa Branca de Obama, disse que a equipe do ex-presidente não pode ficar em silêncio diante de falsas alegações. "O que eu testemunhei nos últimos dias foram ex-colegas se pronunciando contra inverdades quando necessário", disse ele. "Isso é melhor caracterizado como não recuar dos ataques; não é buscar conflitos."

Mas na Casa Branca de Trump tornou-se um artigo de fé que as pessoas que restaram do governo Obama vazaram tudo o que puderam para prejudicar o novo presidente.

"Eu acho que o presidente Obama está por trás disso, porque seu pessoal certamente está por trás disso", disse Trump em uma entrevista recente ao programa "Fox & Friends". "E alguns vazamentos possivelmente vêm daquele grupo, você sabe, alguns vazamentos que são realmente sérios, porque são vazamentos muito ruins em termos de segurança nacional."

Outros presidentes sofreram relações delicadas. Herbert Hoover, depois de deixar o cargo, castigou frequentemente Franklin Roosevelt, que repudiou seu antecessor. Harry Truman foi tão distante de Dwight Eisenhower que eles não se falaram durante um percurso congelado até o local da posse em 1953. Ronald Reagan publicamente atribuiu seus problemas à confusão que, segundo ele, Jimmy Carter lhe deixou, assim como Obama de vez em quando apontava o dedo contra George W. Bush.

Mas nenhum desses momentos se comparou ao que os EUA viram nos últimos dias. "Trump está inovando na perseguição a Obama", disse o historiador Robert Dallek, que escreveu livros aclamados sobre John Kennedy, Lyndon Johnson e Richard Nixon. A maioria dos presidentes ignorou em público seus antecessores "até chegarmos a Trump", acrescentou ele. "Ou ele ignora a história presidencial recente ou simplesmente não se importa."

A semelhança mais próxima em tempos modernos talvez tenham sido Johnson e Nixon, ambos os quais aprovavam os grampos de comunicações. Em seus últimos dias no cargo, Johnson ficou furioso com Nixon depois que grampos revelaram que um intermediário republicano parecia ter tentado sabotar possíveis negociações de paz antes da eleição de 1968. De sua parte, Nixon estava convencido de que Johnson o havia grampeado. Mas nem Johnson nem Nixon manifestaram em público essas desconfianças na época.

"As fitas de Nixon mostram que ele sempre pensou que Johnson havia gravado sua campanha de 1968, e possivelmente o próprio Nixon", disse Luke Nichter, um importante estudioso das gravações secretas de Nixon no Salão Oval, na Universidade A&M do Texas. "Nixon disse que foi J. Edgar Hoover quem lhe disse isso. Mas, com base nos registros disponíveis, o mais próximo que Lyndon Johnson chegou de grampear Nixon foi monitorar os telefonemas dados do avião de campanha de Spiro Agnew [vice da chapa de Nixon]."

Antes da campanha na última primavera, Obama disse a assessores que estava inclinado a manter silêncio depois de deixar o cargo para dar a seu sucessor uma chance de governar, assim como Bush havia feito com ele. Mas Obama esperava que seu sucessor fosse Hillary Clinton, ou mesmo Jeb Bush ou Marco Rubio. Trump é outra história, e Obama concluiu que se manifestaria se sentisse que os ideais da nação estavam ameaçados.

Com dez dias do novo governo, quando Trump emitiu sua primeira proibição temporária a visitantes de sete países de maioria muçulmana e citou como precedente atos do próprio Obama, o ex-presidente fez exatamente isso em um comunicado, dizendo que "discorda fundamentalmente da ideia de discriminar indivíduos por causa de sua fé ou religião".

Sua equipe nem esperou tanto. Um dia depois da posse, ex-autoridades do governo Obama, entre elas John Kerry, cujo mandato como secretário de Estado tinha acabado de terminar, aderiu à Marcha das Mulheres em Washington que protestou contra Trump. Outras autoridades apareceram em programas de entrevistas na televisão e em páginas editoriais dos jornais para falar contra as políticas do novo presidente.

A equipe de Trump ficou irritada com as críticas, e ainda mais pelo que ela considera o inimigo interno. Com poucos de seus próprios indicados políticos empossados, grande parte do governo ainda opera com autoridades provisórias, algumas restantes do governo Obama. Além disso, o Serviço Civil federal, embora seja neutro politicamente, não é dominado por seguidores de Trump, a julgar pelos resultados da votação em Washington e seus subúrbios.

Por isso, quando Mark Levin, o apresentador de rádio conservador, afirmou que Obama tinha visado Trump para ser vigiado, no que ele chamou de um "golpe silencioso", afirmação repetida pelo site Breitbart News, que foi do principal estrategista da Casa Branca, Stephen Bannon, houve repercussão.

Juntamente com reportagens de que nos últimos dias de Obama no cargo seu governo mudou as regras sobre distribuição de inteligência e fez questão de espalhar informações sobre a equipe de Trump e a Rússia para diferentes partes do governo, para "preservá-lo", a denúncia de grampo fez Trump transbordar.

"É um sinal de que ele está profundamente frustrado", disse Gingrich. "Eles sofrem um ataque muito maior do que as pessoas tiveram no passado."

Portanto, acrescentou, Trump precisa descobrir como controlar sua própria burocracia. "Ele não vai sobreviver", disse Gingrich, "a menos que repense profundamente o que eles estão fazendo e como estão fazendo."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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