Prisão de suspeito do EI em cidade rural deixa Austrália em estado de tensão

Jacqueline Williams

Em Young (Austrália)

  • Matthew Abbott/The New York Times

    Casa de Haisem Zahab, suspeito de ligação com o Estado Islâmico, na cidade rural de Young, na Austrália

    Casa de Haisem Zahab, suspeito de ligação com o Estado Islâmico, na cidade rural de Young, na Austrália

Situado em uma estrada rural a cerca de duas horas de carro da cidade grande mais próxima, o pequeno povoado australiano de Young há muito tempo é conhecido por suas cerejas e não muito mais do que isso. Mas, nos últimos anos, a comunidade de classe trabalhadora composta basicamente por brancos recebeu um fluxo constante de famílias libanesas muçulmanas, das quais boa parte teria se mudado de Sydney em busca de uma vida melhor e mais segura.

Entre eles estão membros da família Zahab. Um deles, Haisem Zahab, um eletricista de 42 anos, está sendo acusado de usar a internet para tentar ajudar o Estado Islâmico a desenvolver um míssil guiado. As autoridades suspeitam que alguns de seus parentes tenham viajado para a Síria para se juntar ao grupo extremista.

As alegações a respeito da família Zahab deixaram nervosos muitos moradores dessa cidade, que durante muito tempo se orgulharam de seu multiculturalismo pacífico. Elas também provocaram alguns dos piores temores a respeito de habitantes locais se associando ao terrorismo em um país que tem tido de lidar com políticas de imigração e escassez de mão de obra.

"Um dos argumentos que têm ganho força é o de que não se pode confiar em muçulmanos, de que eles são todos maus e, com tantos deles em nossa cidade, era só uma questão de tempo até que surgissem problemas", escreveu Craig Thomson, editor do "The Young Witness", o jornal local, em um artigo de opinião após a prisão de Zahab. "O outro argumento avançado foi o de que o ódio não é o caminho para se lidar com essa situação e de que as ações de um homem não deveriam condenar a população muçulmana inteira da cidade".

O caso ocorre em um momento em que a Austrália tem enfrentado as mesmas forças nacionalistas e anti-imigração que ajudaram a projetar Donald Trump à presidência dos Estados Unidos e que levaram os eleitores no Reino Unido a votarem a favor de uma saída da União Europeia. Mutuma Ruteree, relatora especial da ONU sobre o racismo, visitou a Austrália no ano passado e condenou os políticos australianos por estarem proferindo "discursos de ódio xenofóbicos", e associou o clima do país a ideologias nacionalistas que têm se formado na Europa e nos Estados Unidos.

Zahab foi preso, na presença de sua família, durante uma incursão em sua propriedade em Young, no dia 28 de fevereiro. Ele foi acusado de pesquisar e projetar um míssil guiado de longo alcance e um dispositivo de alerta por laser para ser usado por militantes do Estado Islâmico.

A família extensa de Zahab esteve sob investigação durante 18 meses, e autoridades suspeitavam que alguns de seus parentes haviam viajado para a Síria para se juntarem ao Estado Islâmico e haviam enviado dinheiro da venda de sua casa em Sydney para terroristas na Síria. Um relatório da polícia detalhava como os investigadores passaram a acreditar que a família havia transferido dinheiro para o Estado Islâmico. 

"Membros da família tiveram acesso a uma quantia significativa de fundos em uma conta bancária australiana e eram suspeitos de usar cartões internacionais pré-pagos e uma empresa de consultoria de informática baseada no Oriente Médio para remeter fundos para fora da Austrália para uso e benefício do Estado Islâmico na Síria", dizia o relatório, acrescentando que havia a suspeita de que membros da família já haviam viajado para a Síria para se tornarem membros do grupo terrorista. 

Zahab foi acusado de incursões estrangeiras, que sob leis anti-terrorismo são passíveis de uma pena máxima de prisão perpétua. Após a prisão de Zahab, agentes de polícia passaram dias revistando sua propriedade de 4 hectares, usando detectores de metais e escavando o quintal em busca de provas.

Zahab é conhecido da polícia, já tendo se declarado culpado anteriormente por acusações de posse de drogas e de armas de fogo. Ele tem ligação com uma empresa chamada Oz Survival Gear, que está registrada no endereço que foi revistado pela polícia. A empresa vende itens como canivetes da Swiss Army e lanternas, e anuncia que "um homem sem uma faca é um homem sem vida".

Zahab era visto meio como um forasteiro que raramente interagia com a comunidade libanesa muçulmana local. Mas sua prisão fez com que alguns dos residentes muçulmanos de Young se escondessem, segundo membros da comunidade.

A administradora do conselho de Young, Wendy Tuckerman, disse que a prisão de Zahab não deveria manchar o resto da comunidade, que tem "uma rica história multicultural".

"É importante que reconheçamos que o escopo da prisão está limitado às ações de um indivíduo", disse Tuckerman.

Foi há mais de duas décadas que as primeiras famílias muçulmanas se mudaram para a região para trabalhar em plantações de cerejas. John Barton, que era corretor imobiliário quando algumas das primeiras famílias muçulmanas chegaram a Young, se lembra de que elas compraram várias propriedades com pomares, e que desde então ele viu essas famílias crescerem e se estabelecerem.

"Elas têm comércios na cidade, como cafés e uma nova loja de artigos de cozinha, e os mais jovens trabalham em lojas grandes como a Woolworths", disse Barton. Residentes muçulmanos locais transformaram um antigo cinema drive-in em uma mesquita, e abriram uma escola islâmica no ano passado.

"Eles somaram à cultura da cidade", disse Barton. "É uma comunidade muito simpática". 

David McCabe, um advogado local que representou funcionários de um abatedouro muçulmano nessa região, disse que algumas das famílias que haviam se mudado para Young não queriam que seus filhos crescessem com a mentalidade de gangue promovida em algumas partes de Sydney.

"Uma vez que fizessem 15, 17 anos, elas achavam que perderiam controle sobre eles no oeste de Sydney", disse McCabe. "E elas achavam que teriam uma chance melhor de controlá-los no interior".

Mas Clarke Jones, um especialista em terrorismo e radicalização da Universidade Nacional Australiana, disse que o isolamento de Young pode tê-la tornado um lugar atraente para esconder esforços de apoio a grupos terroristas estrangeiros.

"Young provavelmente foi escolhida como destino porque está fora do radar da atenção que a polícia costuma dar a Melbourne e Sydney", disse Jones.

Dr. Jamal Rifi, um líder da comunidade muçulmana em Sydney, disse ser lamentável que ações de um único homem possam manchar a reputação dos muçulmanos da Austrália.

"Isso é totalmente sintomático do que tem acontecido nos últimos dois anos, quando as ações de alguns poucos como esse jovem" estragam a reputação "da comunidade muçulmana australiana como um todo", ele disse.

"É um fenômeno que tem acontecido em toda a Austrália", ele acrescentou.

A prisão de Zahab acontece em um momento em que a Austrália se encontra em estado de alerta. A ameaça de terrorismo no país foi elevada para "provável" em setembro de 2014, e desde então houve quatro ataques associados a terrorismo na Austrália. O primeiro-ministro Malcolm Turnbull disse que uma dezena deles teria sido frustrada e mais de 60 pessoas foram acusadas como resultado de operações de contraterrorismo em todo o país.

Algo particularmente preocupante para muitos australianos é a elevação no número de suspeitos de terrorismo nascidos e criados no país. Cerca de 100 australianos são suspeitos de estarem combatendo com ou envolvidos em grupos terroristas na Síria e no Iraque, de acordo com o Departamento da Procuradoria-Geral. O governo está trabalhando para fortalecer leis para processar combatentes estrangeiros que retornem ao país.

Ultimamente, Turnbull, que se apropriou da prisão de Zahab como "mais um lembrete da persistente ameaça que enfrentamos do terrorismo islâmico", endureceu seu discurso, declarando que o objetivo de seu país era matar combatentes do Estado Islâmico.

"Nossa meta no que diz respeito àqueles que servem ao Daesh no Oriente Médio é matá-los", ele disse, usando o acrônimo árabe para Estado Islâmico. "Vou ser bem sincero --é esse nosso objetivo." 

Mas Jones, o especialista em terrorismo, disse que é preciso tomar cuidado para não se vilanizar uma comunidade inteira com base nas ações de uma única pessoa.

"As mais de cerca de 70 famílias que estão lá são trabalhadoras, membros produtivos da comunidade de Young", ele disse.

Tradutor: UOL

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