Desesperados, refugiados nigerianos aceitam voltar para casa apesar do Boko Haram

Dionne Searcey

Em Maiduguri (Nigéria)

  • Ashley Gilbertson/The New York Times

    Moradores aguardam em fila para receber comida distribuída por militares na Nigéria

    Moradores aguardam em fila para receber comida distribuída por militares na Nigéria

Dezenas de motoristas formavam uma fila de carros velhos lotados de colchões, panelas e outros pertences, congestionando uma estrada na saída de um dos acampamentos mais desesperadores e perigosos que servem de refúgio da guerra com o Boko Haram.

Todos esperavam pelas Forças Armadas nigerianas para escoltá-los de volta às fazendas e vilarejos dos quais eles fugiram durante o surto, que durou anos, dos insurgentes aqui nessa parte do nordeste da região.

As Forças Armadas e o governo declararam que a parte rural fora de Maiduguri, a capital do Estado de Borno onde nasceu o Boko Haram, em geral está segura agora. Eles disseram que está na hora de a maior parte dos quase 2 milhões de pessoas deslocadas —muitas deles agricultores e pescadores lutando para fugir da fome— voltar para casa.

Mas os soldados guiavam as multidões para um futuro incerto, e potencialmente tão perigoso quanto o passado do qual elas fugiram.

Maimta Modu, 62, viera até um acampamento de deslocados junto com outros residentes de seu pequeno vilarejo, e agora eles precisam pagar aos soldados uma taxa para serem escoltados de volta periodicamente para acompanhar suas plantações. Se ele voltar por conta própria, ele disse, referindo-se ao Boko Haram, "esses garotos vão me matar".

O presidente Muhammadu Buhari declarou repetidas vezes que a guerra com o Boko Haram havia terminado. As Forças Armadas desentocaram os insurgentes de esconderijos na floresta. Mas o grupo terrorista islâmico radical ainda está realizando ataques mortíferos pela zona rural do país e, em alguns acampamentos para deslocados, há novas levas de pessoas chegando, fugindo dos militantes, mesmo enquanto outros estão voltando para casa.

No meio disso tudo estão pessoas como Idi Hassan e sua mulher, que estavam no comboio juntamente com seis de seus filhos pequenos na caçamba de seu caminhão. Os Hassan vivem há dois anos no imundo acampamento de Maiduguri, dependendo de doações de comida e ansiosos para voltar para sua fazenda ao norte, onde eles esperam ganhar seu sustento.

"A área foi liberada, e vamos voltar para casa", disse Hassan, sentado atrás do volante enquanto sua mulher amamentava o bebê do casal no banco do passageiro.

No entanto, os insurgentes ainda perambulam pelo nordeste e com frequência cruzam estradas como a que levava Hassan e sua família de volta para casa. Até poucas semanas atrás, o Boko Haram emboscou soldados nessa mesma estrada, matando sete deles.

Essa estrada estreita também é a mesma que o Boko Haram usou em janeiro para transportar nove homens-bomba que atacaram o mesmo acampamento em Maiduguri que a família Hassan estava deixando. Além dos homens-bomba, duas outras pessoas morreram no ataque, descrito pelas autoridades como o mais coordenado dos últimos ataques a bomba.

Boa parte do mundo associa os militantes ao sequestro, em abril de 2014, de mais de 200 alunas de Chibok, um pequeno vilarejo no nordeste da Nigéria. Muitas delas continuam desaparecidas.

"A maioria das pessoas simplifica essa crise com uma hashtag: Tragam De Volta Nossas Meninas", disse Sean Hoy, embaixador da Irlanda para a Nigéria, que esteve em Maiduguri recentemente com outros diplomatas para avaliar a crise humanitária. Mas as consequências da devastação causada pelo Boko Haram são bem mais complicadas.

Desde que a violência começou aqui em 2009, quase 2 milhões de pessoas no nordeste da Nigéria fugiram de suas casas por medo do Boko Haram, que assassinou civis e membros das Forças Armadas.

Muitas pessoas fugiram de áreas rurais para Maiduguri, que dobrou de tamanho enquanto nigerianos deslocados lotavam as casas de seus parentes ou se instalavam em prédios em ruínas, rodoviárias, pátios de escolas e nos milhares de barracos despencando que se espalham pelos limites da cidade.

O governo do Estado de Borno anunciou planos de fechar os acampamentos em Maiduguri até o final de maio, mas disse que continuaria avaliando a situação. Agora, 1 milhão de pessoas deslocadas está tomando o caminho de volta para suas casas, de acordo com as Nações Unidas.

Hoje, fora da cidade, segundo comandantes militares, está tudo seguro, com exceção de pequenos bolsões do interior.

"Ataques ferozes são coisa do passado", disse o major-general Leo Irabor, o comandante do Exército nigeriano que está liderando a operação contra os militantes. "Estamos somente tentando voltar à normalidade".

No final de dezembro, as Forças Armadas começaram a reabrir grandes rodovias que haviam sido fechadas durante anos por questões de segurança. O governo do Estado começou a reconstruir vilarejos incendiados.

O avanço militar permitiu que trabalhadores humanitários se espalhassem por outras partes do interior para ajudar as pessoas devastadas pela fome ou por condições análogas à fome. As Nações Unidas aumentaram seus esforços também, trabalhando juntamente com as Forças Armadas e pedindo por US$ 1 bilhão (R$ 3,15 bilhões) para ajudar os afetados pelo Boko Haram.

No entanto, a segurança está longe de estar estável. Maiduguri, onde soldados expulsaram os militantes anos atrás, tem sido um alvo frequente de ataques suicidas a bomba, armados até mesmo por meninas-bomba de 7 anos de idade. Uma garota-bomba, em um ataque recente, carregava um bebê amarrado às costas.

Com as Forças Armadas em seu encalço, muitos combatentes do Boko Haram parecem ter se espalhado por todo o Estado de Borno e sua paisagem em tons de bege pontilhada por pequenas comunidades rurais. O Exército nigeriano ordena que os residentes se afastem enquanto caça os militantes, e civis desarmados às vezes são mortos nas batalhas.

Modu disse que os soldados haviam chegado a seu vilarejo e dado um prazo de duas semanas para que os moradores se mudassem para uma cidade vizinha. No dia seguinte, os insurgentes ordenaram que eles evacuassem o local imediatamente, e os moradores se mudaram então para um acampamento de deslocados.

Em meados de janeiro, um comboio de ajuda humanitária que circulava por uma das estradas reabertas passou por cima de uma bomba improvisada, que incendiou um caminhão de alimentos, queimou todo seu conteúdo e feriu um motorista e seus assistentes.

Em outra área considerada segura pelas Forças Armadas, insurgentes atiraram contra 16 pessoas que coletavam lenha perto de suas casas. Quando grupos de ajuda humanitária fazem viagens de abastecimento de helicóptero entre áreas seguras, os pilotos voam alto o suficiente para ficarem fora do alcance dos mísseis.

Grupos humanitários dizem que os militares se recusam a permitir que suprimentos de alimentos se acumulem em acampamentos fervilhantes de pessoas famintas por medo de que os militantes os roubem. Os soldados cortaram redes telefônicas e proibiram a venda de combustível em algumas áreas onde os residentes estão tentando reconstruir suas vidas.

Fluxos divergentes de deslocados entrando e saindo dos acampamentos estão tornando difícil para os grupos humanitários fornecerem assistência. Aqueles que estão nos acampamentos precisam de alimentos, e as pessoas que estão voltando para casa necessitam de ajuda para recuperar suas fazendas. Precisam de ajuda tanto em necessidades básicas quanto para o desenvolvimento.

Alguns residentes assumem riscos. Um dia desses, Muhammadu Sani costurava uma rede de pesca em um acampamento de 26 mil pessoas no interior. Ansioso para alimentar seus sete filhos, ele ia regularmente até um ponto de pesca a uma hora de distância. Mas o transporte de peixes é proibido, devido a uma tentativa de fazer os insurgentes morrerem de fome. Então Sani enfia os peixes que pega em suas calças para levá-los escondidos para casa.

Em algumas áreas, ondas de nigerianos deslocados começaram a topar uns com os outros. Em uma comunidade rural chamada Monguno, centenas de pessoas de áreas recém-libertadas se amontoaram em casas de adobe abandonadas quando o Boko Haram invadiu pela primeira vez. Agora os proprietários originais das casas estão descobrindo que pessoas tão desesperadas quanto eles vinham morando ali.

Bulama Abatcha e Modu Bintumi tiveram de pedir por ajuda a uma autoridade da comunidade para estabelecer um acordo no qual Abatcha pudesse permanecer na casa do outro homem sem ter de pagar aluguel. Abatcha cuidaria dela até que Bintumi estivesse pronto para deixar um acampamento em Maiduguri, para onde ele havia fugido dois anos antes.

"Se o proprietário vier em breve", disse Abatcha, "Eu definitivamente vou encontrar outro lugar e sair da casa".

Em outras áreas, o governo do Estado seguiu em frente com uma reconstrução geral, construindo moradias de alvenaria em vilarejos que o Boko Haram havia reduzido a cinzas.

Mas em lugares como Benisheik, uma comunidade que fica a cerca de uma hora de estrada de Maiduguri e foi arrasada pelos militantes, há casas novas e espaçosas de alvenaria vazias. Elas são adjacentes a barracos feitos de estruturas de madeira e lençóis velhos, onde os residentes que estão voltando estão acampados até que recebam a permissão de se mudar para as estruturas de alvenaria.

O governador Kashim Shettima, do Estado de Borno, disse que para resolver brigas sobre direitos de propriedades, as autoridades queriam se certificar de que todas as unidades estavam completas antes de permitir que qualquer um entrasse. As mulheres serão as primeiras a escolher as casas, segundo ele, porque elas foram as mais afetadas por uma guerra na qual seus filhos e maridos muitas vezes foram mortos.

Cada um receberá um kit de irrigação, 25 galinhas e duas cabras para ajudar a estimular a economia local.

"Nós reconhecemos que a população humana é a defesa número um contra insurgentes, e sabemos que as comunidades podem permanecer isoladas por anos e dar força a insurgentes", disse Shettima. "Mas nunca vamos fazer concessões quanto à segurança".

Em uma das novas estruturas de concreto, que tem até mesmo um forro falso, Halim Hajiya Ibrahim, uma mulher mais idosa, dançava e levantava os braços, mostrando empolgada aos visitantes o que ela chamava de sua nova casa. Ninguém havia lhe dito que a casa ainda precisava ser atribuída oficialmente; ela estaria como invasora e poderia estar sujeita à remoção.

Outros residentes que haviam voltado para Benisheik disseram que estavam ansiosos para sair de abrigos que alagam durante a estação chuvosa e não oferecem nenhuma proteção nas noites frias.

Mas muitos disseram que ainda estão agoniados. Dias antes, um grupo de insurgentes de moto havia atravessado a estrada bem nos limites da cidade.

Tradutor: UOL

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