De forma injusta ou não, ataque em Londres aponta Birmingham como refúgio para radicais

Katrin Bennhold e Kimiko de Freytas Tamura

Em Birmingham (Inglaterra)

  • Eddie Keogh/Reuters

Do lado de fora do café internet Maasha' Allah, Mohammed Hussain levantou sua voz devido ao versos gravados do Alcorão tocados em alto volume na loja de abaya (vestido tradicional islâmico) duas portas rua abaixo. Ele estava furioso pelo mais recente terrorista do Reino Unido ter ampliado o estigma da cidade.

"Por que todos os jihadistas vêm de Birmingham?" Ele meio que gritou, fazendo com que um grupo de meninas adolescentes, que passavam com lenços de cabeça coloridos, risse.

Exagero ou não, muitas pessoas estão fazendo essa pergunta. Khalid Masood, o britânico de 52 anos responsável pelo ataque mortal do lado de fora do Parlamento na semana passada, permanece um enigma para os investigadores que trabalham sobre como, por que e quando ele se radicalizou.

Mas um aspecto é familiar: ele tinha uma ligação com Birmingham, tendo se mudado há quase um ano para esta cidade de 1,1 milhão de habitantes, onde mais de 1 entre 5 moradores declara o Islã como sendo sua religião.

Como se para acentuar ainda mais a conexão, a polícia anunciou no domingo que prendeu um homem não identificado em Birmingham, como parte da investigação de Masood.

Os membros das comunidades muçulmanas em Birmingham reconheceram a ligação entre sua cidade e o extremismo islâmico, que muitos atribuem à pobreza e ao abuso de drogas, que deixam muitos jovens vulneráveis aos recrutadores jihadistas que operam como gangues. Mas os muçulmanos em Birmingham também se ressentem profundamente do que consideram uma reputação injusta, dizendo que a maioria dos moradores é orgulhosa e cumpridora da lei.

Muitos também veem os bairros como refúgios tranquilizadores contra o preconceito anti-Islã que toma a Europa e outros lugares.

O preconceito com frequência é focado em Birmingham. Há poucos anos, um comentarista de terrorismo da "Fox News" teve que pedir desculpas por descrever Birmingham como uma "cidade apenas de muçulmanos", para a qual não muçulmanos "não vão".

Todavia, Birmingham, a segunda maior cidade do Reino Unido, atrás de Londres, produz um número desproporcional de militantes islâmicos condenados, incluindo alguns ligados aos ataques do 11 de Setembro e aos atentados em Bruxelas do ano passado.

Tantos militantes islâmicos ou nasceram em Birmingham ou passaram pela cidade que o jornal "Birmingham Mail" já lamentou a distinção dúbia da cidade como "Central do Terror".

"As escolas de pensamento extremistas parecem ter se firmado mais em Birmingham do que em outras partes do país", disse Nazir Afzal, o ex-promotor chefe para o noroeste da Inglaterra, que é de Birmingham.

Masood, que se converteu ao Islã em seus 30 e tantos anos, nasceu e foi criado em um vilarejo rico no sudeste da Inglaterra. Ele passou grande parte de sua vida adulta em Londres e arredores, interrompida por duas penas de prisão e dois períodos de um ano na Arábia Saudita. Mas Birmingham foi sua última residência.

Birmingham foi o local de nascimento do primeiro homem-bomba do Reino Unido, residência de um financista do 11 de Setembro e local onde a Al Qaeda tramou um plano para explodir um avião de passageiros em 2006. Quando um membro mascarado do Al-Shabab, o grupo extremista somali, comemorou o assassinato do soldado Lee Rigby em um vídeo de 2013, ele listou Birmingham como a principal fonte de seus combatentes.

O homem que acredita-se ter recrutado o militante conhecido como John Jihadista, o executor do Estado Islâmico com sotaque britânico, era de Birmingham, assim como seu principal associado. Outros militantes proeminentes que passaram pelas redes clandestinas da cidade incluem Abdelhamid Abaaoud, o organizador dos ataques em Paris em 2015, e Mohamed Abrini, um belga que ajudou a tramar os ataques em Bruxelas em 2016.

Em 2014, Birmingham estava no centro da chamada trama "Cavalo de Troia" na qual, como foi alegado, um grupo de extremistas islâmicos buscava se infiltrar e tomar duas dúzias de escolas públicas. Um recente relatório da Sociedade Henry Jackson, uma organização de pesquisa politicamente conservadora, apontou que 1 entre 10 militantes islâmicos condenados no Reino Unido vem de cinco bairros de Birmingham.

David Videcette, uma ex-autoridade sênior de contraterrorismo, disse que Birmingham conta com uma rede extremista mais bem estabelecida do que Londres (uma cidade de 7 milhões de habitantes), o que ajuda a explicar por que, no seu entender, muitas investigações "levam a Birmingham".

Parte do atrativo de Birmingham para militantes potenciais é seus amplos e diversos bairros muçulmanos, onde podem se misturar facilmente, disseram ativistas locais.

"É um esconderijo ou local de passagem para fazerem o que querem fazer, mantendo-se discretos", disse Mohammed Ashfaq, diretor da Kikit, uma organização comunitária que ajuda jovens atraídos pelas drogas e pela ideologia extremista.

Se um militante quiser se esconder, por exemplo, no bairro muçulmano de Sparkbrook, em Birmingham, disse Ashfaq, "ninguém o notaria".

Birmingham também é muito mais pobre do que Londres, fornecendo uma população mais fácil para ser explorada pelos extremistas, disse Ashfaq, lembrando de como sua organização dissuadiu dois jovens de se juntarem ao Estado Islâmico. Ambos eram viciados em drogas.

"Muitos jovens usam drogas, são de famílias com apenas um dos pais ou experimentaram violência doméstica", disse Ashfaq.

Nos bairros de Sparkbrook, Washwood Heath e Alum Rock, onde vivem muitos dos muçulmanos de Birmingham, mesquitas pontilham a paisagem, algumas oferecendo conselhos da Shariah (lei islâmica) para assuntos familiares. Madrassas (escolas religiosas islâmicas) atendem a crescente demanda por pais que desejam que seus filhos estudem o Alcorão. Até mesmo escolas públicas com frequência atendem as exigências religiosas, permitindo oração na hora do almoço, horários mais curtos durante o Ramadã e lenços de cabeça opcionais.

Para muitas pessoas de fora, a segregação chama a atenção. Mas os moradores muçulmanos, particularmente as mulheres, falam de seus bairros como refúgios contra uma sociedade cada vez mais hostil.

"Há segurança nos números", disse Sara Begum, 20 anos, que fazia compras em Coventry Road, uma área movimentada onde restaurantes anunciam carne halal (de acordo com as normas islâmicas) da culinária da Caxemira e da Síria. Begum, que usa niqab, o véu que cobre o rosto, raramente sai do bairro por temer ser insultada ou pior. Ela disse que o lenço de cabeça de uma amiga foi rasgado por jovens de extrema direita perto da estação de trem no centro de Birmingham.

"Sinto-me segura aqui, porque muitas outras mulheres se vestem como eu", ela disse. "Outras pessoas olham para este bairro, veem muitas pessoas de pele morena, muitos muçulmanos, e temem por sua segurança."

Poucas horas depois do ataque da semana passada, as mulheres muçulmanas em Birmingham receberam mensagens de texto alertando sobre uma mobilização da Liga de Defesa Inglesa de extrema direita, pedindo para que não saíssem de casa após o anoitecer.

Small Heath Park, onde meninas com lenço na cabeça jogam futebol e homens em vestes muçulmanas se amontoam para piqueniques, parece um mundo diferente daquele no centro da cidade, a 10 minutos de carro de distância.

Há somalis recém-chegados, bengaleses de terceira geração e europeus convertidos, como Alicia Fierens, que se mudou para cá com seu marido chinês, também um convertido, há seis anos porque a Bélgica se tornou antimuçulmana demais, ela disse. "Estávamos prestes a ter nosso primeiro filho e não queríamos que ele crescesse naquele ambiente", ela disse. Birmingham é muito mais amistosa, "desde que você permaneça na área".

Um problema, disse Nicola Benyahia, que dirige a Families for Life (Famílias pela Vida), uma organização independente que ajuda os pais a detectarem a radicalização em seus filhos, é a desconfiança entre as comunidades muçulmanas e as autoridades.

"Não ajuda quando a comunidade se sente na defensiva", ela disse, sentada em um escritório de primeiro andar pouco mobiliado.

Os moradores ficaram furiosos e estarrecidos quando o governo instalou secretamente em 2008 centenas de câmeras de circuito fechado de TV nos bairros de maioria muçulmana. "Não parecia ser algo visando nossa segurança", disse Benyahia.

Mas ela reconheceu prontamente que os recrutadores visam os jovens muçulmanos. Seu filho Rasheed, na época com 19 anos, partiu abruptamente para a Síria em maio de 2015 e foi morto seis meses depois, o que a levou a criar sua caridade para ajudar outros pais a evitarem o mesmo destino.

Benyahia, uma galesa convertida casada com um argelino, disse acreditar que alguém em Birmingham radicalizou seu filho. Quando sua filha certa vez lhe perguntou, disse Benyahia, ele ficou na defensiva e respondeu: "Não estrague as coisas para os outros".

A Mesquita Green Lane de Birmingham, um prédio de tijolos vermelhos com uma torre de relógio que antes era uma biblioteca pública, já teve uma reputação de "incubadora" de militantes, disse Khalid Mahmood, um legislador local. Agora a mesquita busca combatê-los.

Na semana passada, a mesquita condenou rapidamente o ataque em Westminster, dizendo que "apenas fortalecerá nosso trabalho em expor as ideologias extremistas depravadas, para assegurar proteção aos indivíduos vulneráveis suscetíveis à radicalização".

Videcette, a ex-autoridade de contraterrorismo, disse que as redes extremistas são dirigidas "como a máfia" e incluem livrarias que vendem literatura extremista. Elas também organizam turnês e palestras envolvendo pregadores de ódio, ele disse, e usam algumas mesquitas para levantar fundos.

"É um negócio para elas", ele disse. "Quando dizemos terrorismo, as pessoas tendem a pensar que trata-se de religião. Não é. Trata-se sempre de dinheiro."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos