Análise: O "Brexit" abalou pilares no Ocidente, mas eles ainda não estão cedendo

Steven Erlanger

Em Londres

  • AFP

    Premiê britânica Theresa May fala no Parlamento no dia em que tem início a saída do Reino Unido da União Europeia

    Premiê britânica Theresa May fala no Parlamento no dia em que tem início a saída do Reino Unido da União Europeia

O Reino Unido deu um salto para o desconhecido na última quarta-feira, possivelmente para um precipício.

Em um dia que misturou um cerimonial tedioso com uma inegável importância história, o Reino Unido iniciou formalmente sua saída da União Europeia com a entrega de uma carta a Bruxelas, seguida por palavras pomposas da premiê Theresa May no Parlamento. Começam agora dois anos de extenuantes negociações sobre a separação com um resultado incerto, exceto pelo fato de que as conversas certamente serão litigiosas e rancorosas, e que os únicos vencedores certos serão os advogados e os negociadores comerciais.

Pela primeira vez, o bloco europeu está perdendo um membro, que ainda por cima é sua segunda maior economia. A arquitetura multilateral que moldou o mundo ocidental desde o pós-Segunda Guerra Mundial sofreu um baque, e sobram dúvidas sobre se esse direcionamento para o nacionalismo e interesses próprios marca o início de uma era global mais volátil.

Quando os britânicos votaram em junho do ano passado a favor da saída da UE, os defensores do "Brexit" argumentaram que o país, ao sair, estava na linha de frente de uma onda populista mais ampla. Meses depois, a eleição de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos só aprofundou o sentimento de que um contágio político anti-establishment estava tomando conta das democracias ocidentais, subvertendo a ordem vigente. O argumento era de que o Reino Unido seria um vencedor nessa nova era.

Poucas pessoas previram a saída britânica, e menos pessoas ainda previram a vitória de Trump. Mas poucos previram como as coisas estariam agora, também: a União Europeia, ainda que esteja debilitada e disfuncional, está longe de estar morta. Partidos populistas estão despencando nas pesquisas na Alemanha e se saíram pior do que o esperado nas eleições holandesas neste mês. Pesquisas de opinião em muitos países mostram que a população continua insatisfeita com o bloco, mas tampouco deseja vê-lo se desfazer.

"Ninguém está seguindo o Reino Unido na saída da UE", escreveu recentemente Pierpaolo Barbieri para a "Foreign Affairs", uma revista publicada pelo Council on Foreign Relations, um grupo de pesquisa apartidário.

A questão agora é se alguns europeus, tendo observado os primeiros efeitos da votação a favor da saída e da eleição presidencial americana, como a divisão política no Reino Unido e a queda da libra, além dos lapsos políticos na Casa Branca de Trump, puseram o pé no chão por causa do caos da direita.

Essa hipótese também é uma especulação, e será testada no próximo mês na França, onde os partidos tradicionais implodiram e a nacionalista de extrema-direita Marine Le Pen, caso saia vitoriosa, prometeu tirar a França da União Europeia. Mas, por enquanto, Emmanuel Macron, que é pró-Europa, está liderando as pesquisas.

Yves Herman/Reuters
O representante britânico na União Europeia Tim Barrow (à esq.) entrega carta para início de Brexit a Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu

Escolher vencedores em um momento tão volátil assim é arriscado, mas muitos analistas concordam que a saída britânica e a incerteza causada por ela foram uma boa notícia para a Rússia, e possivelmente para a China, uma vez que as duas grandes potências podem ter mais vantagens em negociações com capitais europeias individuais do que com um bloco europeu bem unificado que, considerado em conjunto, é uma potência geopolítica.

"O Brexit certamente fortalece os processos de desintegração que já estão acontecendo na União Europeia, e portanto é uma bênção para a Rússia", disse James Nixey, diretor do programa para Rússia e Eurásia no think tank sediado em Londres Chatham House.

"A União Europeia é mais poderosa do que qualquer ator separado, mesmo a Alemanha, então qualquer coisa que diminua um rival nos termos de jogo de soma zero nos quais a Rússia pensa fortalece a voz russa na Europa."

A ausência do Reino Unido na mesa europeia também poderia ajudar o presidente russo, Vladimir Putin. A União Europeia, parcialmente pressionada pelo Reino Unido, o principal aliado dos Estados Unidos, foi dura com a Rússia a respeito de sua anexação da Crimeia, e o bloco tomou a iniciativa de cortar a dependência que a Europa tinha do gás natural russo. Qualquer coisa que tire poder dessa visão anglo-saxônica em Bruxelas é considerada uma vantagem por Moscou.

A saída iminente da União Europeia já fez com que o Reino Unido se voltasse para dentro, com o governo e a poderosa mídia de tabloides do país obcecados pelos detalhes de sua saída: as incertezas sobre se o país manterá o acesso ao mercado único do bloco; exigências de que o país assuma controle de suas fronteiras para dificultar a imigração; e uma insistência em "recuperar sua soberania" ao devolver poderes legislativos para Londres.

Esses temas de soberania nacional e de contenção da imigração ressoam em todo o continente, e é por isso que alguns viram a saída britânica como uma precursora política e a União Europeia como uma espécie em extinção.

Contudo, em dezembro os austríacos elegeram por uma margem estreita um presidente pró-europeu, Alexander Van der Bellen, no lugar de Norbert Hofer, do Partido da Liberdade de extrema-direita. Na Espanha, o partido populista Podemos não se saiu tão bem quanto nas pesquisas no ano passado e o primeiro-ministro conservador, Mariano Rajoy, permaneceu no cargo.

Neste mês, os holandeses deram ao político de extrema-direita e anti-europeu Geert Wilders menos votos do que o esperado, em um país do norte da Europa similar ao Reino Unido no que diz respeito à sua perspectiva política.

Na Alemanha, a chanceler Angela Merkel continua popular nas pesquisas, ainda que enfraquecida por sua longa permanência no cargo e por críticas pesadas à sua política de "portas abertas" à imigração de 2015. No entanto, o partido anti-euro e anti-imigração Alternativa para a Alemanha está derrapando, e o principal adversário de Merkel é o pró-europeu Martin Schulz, dos Social-democratas, ex-presidente do Parlamento Europeu.

Até mesmo a Bulgária, o país da União Europeia considerado como sendo o mais influenciável pela Rússia, viu seus eleitores endossarem o partido de centro-direita e pró-europeu nas eleições do final de semana passado.

Enquanto eleitores europeus parecem estar indecisamente endossando a unidade, o Reino Unido se vê diante de divisões cada vez maiores.

Na terça-feira, menos de 24 horas antes que a carta de saída fosse entregue a Bruxelas, o Parlamento escocês votou a favor da solicitação de um novo referendo sobre a independência do Reino Unido. Um referendo como esse tem poucas chances de acontecer tão cedo, uma vez que requer a aprovação do governo britânico em Westminster, mas o nacionalismo crescente na Escócia é um lembrete de que Londres poderia receber uma dose de seu próprio remédio.

Com seu governo desesperado para manter o status do Reino Unido no mundo, May se voltou para Trump. Ele e seu principal assessor político, Stephen Bannon, são profundamente céticos em relação ao multilateralismo, ao livre-comércio e a "alianças intrusivas".

Enquanto a Otan pode ser aceitável como um escudo de segurança (contanto que todos paguem), a União Europeia, assim como a ONU, parece ser um exemplo do mundo que Trump e Bannon querem desmantelar ou, no mínimo, enfraquecer.

No entanto, May também tentou mostrar que o Reino Unido está comprometido com a globalização e o comércio global, na prática ainda aberto aos negócios. É um problema complicado de se resolver, o que demonstra o quão difícil é prever o futuro do Reino Unido.

Alguns acham que o destino do país é ser o equivalente europeu de Cingapura, soberano e respeitado, um parceiro disputado pelo resto do mundo. Outros alertam que o Reino Unido poderia ficar muito mais isolado do que está agora, especialmente porque líderes europeus sentem que precisam ser duros na negociação.

Tradutor: UOL

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