Sobreviventes narram ataque com gás na Síria: "Senti que estava sufocando"

Patrick Kingsley e Anne Barnard

Em Reyhanli (Turquia)

  • Omar Haj Kadour/AFP Photo

Depois de um ataque aéreo a sua aldeia, um agricultor sírio correu para socorrer as primeiras vítimas, os moradores de uma casa térrea.

Conforme Mohammad Nejdat Youssef se aproximou do local, penetrou no que ele chamou de "um nevoeiro de inverno, não totalmente branco nem totalmente amarelo". Começou a perder o equilíbrio, segundo contou. Seus olhos passaram a arder, o nariz a escorrer. Finalmente, disse Youssef, ele começou a espumar pela boca.

Youssef estava intoxicado. Foi uma das vítimas do ataque químico de terça-feira (4) no norte da Síria, um dos mais mortíferos bombardeios com armas químicas realizado em anos na Síria, que matou mais de 70 pessoas.

Um homem alto e forte, Youssef, 23, conseguiu se recuperar depois de ser tratado no local. Mas quando a nuvem tóxica que o havia atingido foi soprada pelo vento na direção de sua fazenda, perto da aldeia, sua mulher grávida, de 20 anos, e um sobrinho de 9 tiveram uma reação muito mais grave e foram levados de ambulância para um hospital na Turquia, disse Youssef, que os acompanhou.

No hospital em Reyhanli, uma pequena cidade na fronteira da Turquia que recebeu muitas das vítimas, os parentes que lamentavam do lado de fora vinham na maioria de duas famílias, a dos Youssef e a dos Abu Amash.

As famílias são ligadas por casamento e ambas vêm de Khan Sheikhoun, a aldeia na província de Idlib, em poder dos rebeldes, que, segundo os moradores, foi atingida por armas químicas no início da manhã de terça.

"Olhe só para isto!", disse Orwa Abu Amash, 33, levantando seu telefone. Na tela havia uma longa mensagem do Whatsapp com a lista de nomes de 46 parentes que morreram naquele dia em Khan Sheikhoun.

Enquanto Youssef caminhava pelo estacionamento do hospital, ele disse que teve medo não só por sua mulher lá dentro, que tinha chegado imóvel em uma maca, mas por seus parentes do outro lado da fronteira. Muitos deles também tinham sido intoxicados pelo gás, mas não foram considerados suficientemente graves para ser tratados na Turquia, cuja fronteira está fechada para a maioria dos sírios.

No início da terça-feira, testemunhas contatadas por telefone na Síria descreveram cenas igualmente traumáticas no local do ataque.

Aviões de guerra rugiram no céu pouco antes das 7h, quando muitas pessoas na cidade ainda dormiam depois de uma noite de intenso ruído de bombardeios, disse Othman al-Khan, um ativista em Khan Sheikhoun que foi contatado por telefone em um posto de primeiros-socorros.

Ele falou depois de fugir do Hospital Rahmeh em Khan Sheikhoun, onde muitas vítimas estavam sendo tratadas, que foi atingido parcialmente por um ataque aéreo. Enquanto ele falava, ouviu-se mais um forte estrondo e a ligação caiu; ele chamou de volta para dizer que tinha sido outro ataque aéreo nas proximidades.

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O ministro da Saúde da área em mãos dos rebeldes, Mohamad Firas al-Jundi, disse em um vídeo online que os hospitais e clínicas estão superlotados. Ele afirmou que esteve em um hospital de campanha às 7h30, quando mais de cem pessoas chegaram feridas ou intoxicadas; muitas outras foram enviadas para outras clínicas, disse ele, e algumas foram deixadas deitadas nos corredores.

Os sintomas, segundo ele, são sufocamento, líquido nos pulmões com espuma saindo pela boca, inconsciência, espasmos e paralisia.

"É um ato chocante", disse ele. "O mundo sabe e tem consciência do que está acontecendo na Síria, e estamos prontos para apresentar evidências a laboratórios criminais para comprovar o uso desses gases."

Yasser Sarmani, um combatente rebelde contatado por telefone em Idlib, disse que desmaiou enquanto dirigia sua motocicleta até o local do ataque para ajudar as vítimas. "Tornou-se um hábito para nós, quando ouvimos um ataque aéreo, correr até o local e tentar resgatar pessoas", disse ele. "Eu acordei com o som de uma explosão, mas não era tão forte quanto costuma ser."

"Dirigindo contra o vento, meus olhos começaram a queimar e senti que estava sufocando", acrescentou ele. "As pessoas fugiam correndo do lugar e caíam no chão. Foi uma cena cruel. Nesse ponto eu desmaiei."

Ele disse que acordou uma hora depois em uma clínica, depois de receber injeções e oxigênio. "Havia crianças por todo o piso, algumas mortas e outras lutando para respirar", disse ele. "O barulho delas tentando respirar era forte, com espuma em seus rostos."

Enquanto viam as ambulâncias entrarem e saírem do hospital em Reyhanli, Youssef e vários de seus parentes se perguntavam o que o presidente Donald Trump faria sobre tudo isso.

Na segunda-feira (3), o governo Trump indicou que não considera mais prioridade a saída do presidente Bashar al Assad, da Síria. Na terça, Assad aparentemente desferiu um dos piores ataques químicos desta guerra.

"Se Donald Trump fica feliz que isso aconteça com seu próprio povo e suas crianças", disse Youssef, "então ficamos felizes em manter Bashar al Assad".

Arrastando-se pelo estacionamento, vários parentes de Youssef se debruçavam sobre seus telefones, vendo os vídeos das atrocidades daquela manhã.

Os clipes circularam amplamente na internet. Mostram cadáveres pálidos de bebês ou os corpos arqueados de homens que parecem próximos da morte.

Uma mulher grisalha está deitada de costas, com as pernas vermelhas expostas. Um menino de seus 12 anos está deitado imóvel, exceto pela boca, que tenta respirar. Nenhum tinha marcas visíveis de ferimentos. Alguns dos intoxicados e agonizantes estavam quase nus, enquanto os socorristas, muitos com as mãos nuas, os despiam e molhavam com mangueiras.

Um homem que narra um vídeo de crianças imóveis, enfileiradas como se dormissem, só conseguia pronunciar fragmentos da sentença. "Uma família inteira", repetia.

Ao contrário das pessoas em todo o mundo que encontraram esses vídeos nas redes sociais, vários dos que assistiam ali fora do hospital de Reyhanli tinham presenciado as cenas reais.

Mas não era possível saber isso olhando para seus rostos vazios. "Já vimos tanto disso", afirmou Abu Amash. "É normal. Vemos todos os dias. Já tivemos seis anos disso."

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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