Conheça a unidade militar especial que tenta impedir em solo o desmatamento da Amazônia

Simon Romero

Na Terra Indígena Alto Turiaçu (Brasil)

  • Lalo de Almeida/The New York Times

Nas profundezas da floresta amazônica, um esquadrão de nerds está à solta.

Um de seus membros passou mais de uma década como ativista ambiental para uma organização sem fins lucrativos. Outro estudou oceanografia ártica na Alemanha. O comandante deles é um ex-professor colegial de ciências.

Mas juntos eles formaram uma das unidades de combate de elite mais temidas da América Latina, nas linhas de frente da luta do Brasil para conter a destruição da Amazônia.

O comandante da equipe, Roberto Cabral, riu quando lhe perguntei recentemente como ocorreu a formação de sua unidade nerd de operações especiais.

"No universo das atividades ilegais na Amazônia, há desmatamento, garimpo de ouro, caça ilegal, extração clandestina de madeira e contrabando de animais", disse Cabral, 48, que levou um tiro no ombro em 2015 enquanto perseguia homens armados que estavam desmatando áreas da floresta. "Queremos combater essas atividades com cérebro assim como com pessoal em solo."

Acompanhei uma patrulha fatigante em março com sua unidade de nove membros, que tem o nome nada glamouroso de Grupo Especializado de Fiscalização.

O esquadrão, mais conhecido pela sigla GEF, opera em alguns dos trechos mais sem lei da bacia do rio Amazonas, lugares tão remotos que é preciso dias para se chegar até eles de barco ou caminhão a partir do assentamento mais próximo.

Diante desses obstáculos logísticos, o GEF, que opera como parte do Ibama, a agência de proteção ambiental do Brasil, geralmente patrulha de helicóptero, usando imagens por satélite e inteligência colhida pelos escritórios regionais do Ibama, para detectar desmatamento e sinais de garimpo ilegal.

A unidade, que o Ibama criou em 2014, precisa de toda a ajuda que pode contar. O desmatamento está aumentando de novo na Amazônia brasileira, crescendo 29% entre agosto de 2015 e julho de 2016. Mais de 800 mil hectares de floresta foram destruídos no período, segundo estimativas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais do Brasil.

Mas apesar do GEF empregar tecnologia de ponta, suas missões com frequência lembram um frustrante jogo de gato e rato.

No primeiro dia que acompanhei uma operação no Estado do Maranhão, à beira da Amazônia, os membros da unidade acordaram às 3h da manhã.

Trajando uniformes de combate, armaduras e capacetes à prova de balas, eles penduraram nos ombros os fuzis de assalto Taurus e seguiram por horas em picapes com tração 4x4 pelas estradas esburacadas de São Luiz, a capital do Estado, até Santa Inês, um posto avançado no interior.

Então aguardaram pelo tempo melhorar.

A chuva pesada impedia a decolagem dos dois helicópteros Bell da unidade para patrulhas no Maranhão e no vasto Estado vizinho do Pará. Após horas de espera, os helicópteros finalmente decolaram por volta do meio-dia, sobrevoando trechos monotonamente longos de terras desmatadas para criação de gado.

"É preciso ver a Amazônia de cima para se ter uma ideia de quanto já foi devastada", disse Maurício Brichta, 44 anos, um oceanógrafo que era especializado no estudo de algas do Ártico pelo Instituto Alfred Wegener para Pesquisa Polar e Marinha, na Alemanha, antes de se juntar ao Ibama.

"Como pode imaginar", ele acrescentou com um sorriso, "não havia muita demanda no Brasil por perícia em regiões árticas".

Como quase todos na unidade, que inclui engenheiros florestais, um biólogo de vida selvagem, um especialista em pesca, até mesmo alguém que costumava trabalhar em publicidade, Brichta disse que nunca imaginou que pegaria em armas para proteger a Amazônia.

Antes desta fase de sua vida, ele era um pai que permanecia em casa em Jacarta e Nova York, cidades onde sua esposa estava lotada como diplomata pelo Ministério das Relações Exteriores do Brasil.

Após retornar ao Brasil, Brichta disse que foi atraído pelo Ibama pelo senso de idealismo do órgão e pelos avanços que obteve na redução dos índices alarmantemente altos de desmatamento do início da década passada.

Quando o GEF foi criado, ele foi aceito após completar um árduo curso de sobrevivência, no qual os candidatos enfrentam saltos de helicópteros, caminhadas prolongadas pela selva, procura por comida, tratamento para picadas de cobra, percorrer longos trechos sem comer e sem dormir, além de treinamento para combates com armas de fogo e facas.

"Obviamente, esse tipo de trabalho não é para todos", disse Eduardo Rafael de Souza, 39 anos, um veterano militar barbado e que fuma sem parar que costuma pilotar os helicópteros usados nas missões do GEF.

Os membros da unidade voltaram mal-humorados para Santa Inês após o primeiro dia de patrulha, sem nada para mostrar por seus esforços após sobrevoarem por horas as estradas remotas usadas pelas equipes de madeireiros. Alguns se perguntavam se havia infiltrados nas fileiras do Ibama informando os madeireiros sobre as patrulhas.

Como outras partes do governo federal do Brasil, o Ibama enfrenta seus próprios escândalos de corrupção, às vezes envolvendo fiscais agindo como agentes duplos para proteger os interesses dos fazendeiros e madeireiros.

Mas ativistas ambientais argumentam que um dos principais motivos para o aumento do desmatamento no Brasil envolve os esforços para reduzir o controle pelo Ibama, traçando paralelos com os planos do governo Trump de reformar a Agência de Proteção Ambiental. Desde 2013, a verba do Ibama foi reduzida em cerca de 46%.

Seja como for, a sorte do GEF mudou no segundo dia de patrulha.

Seguindo para terras indígenas onde equipes madeireiras fazem incursões para extração ilegal de madeiras cobiçadas, o esquadrão avistou do ar uma serraria improvisada próxima do limite do Território Indígena Alto Turiaçu, lar do povo Ka'apor.

"Vi o helicóptero deles pousar em uma clareira, como uma cena de um filme de Hollywood", disse Francinaldo Martins Araújo, 43 anos, que estava chegando em seu caminhão para comprar restos de madeira descartados da serraria quando a unidade desceu para a batida.

Os membros do esquadrão, usando balaclavas para esconder seus rostos, por temerem retribuição caso suas identidades se tornem públicas, iniciaram rapidamente o trabalho. Eles incendiaram a serraria e destruíram duas fornalhas usadas para fazer carvão, antes de partirem de novo nos helicópteros para procurar pelo próximo alvo.

Poucos minutos depois, foram bem-sucedidos, quando um dos pilotos observou um caminhão em uma estrada usada pelos madeireiros. A unidade saltou dos helicópteros em uma clareira próxima, enquanto um dos membros perfurava o tanque de combustível do caminhão e incendiava o veículo.

Então vieram gritos da floresta. Enquanto procuravam pela equipe de madeireiros, dois membros do GEF se depararam com um trator usado para arrastar as árvores derrubadas. Uma motosserra, ainda quente por ter sido usada minutos antes, foi deixada presa em uma árvore, evidência de uma fuga às pressas.

A unidade incendiou o trator e a motosserra antes de retomar a busca pelos madeireiros. Os nervos estavam à flor da pele. Foi em uma operação semelhante em uma floresta próxima que Cabral, o comandante do GEF, foi pego de surpresa por um madeireiro em fuga e ferido a bala.

Nenhum disparo foi feito desta vez, mas os madeireiros conseguiram escapar do esquadrão, fugindo floresta adentro. Um piloto informou por rádio as coordenadas e a unidade deu início à longa caminhada até os helicópteros, em meio a tamanha umidade que parecia ser possível cortá-la com suas facas de caça.

Encharcados de suor enquanto embarcavam nos helicópteros, o esquadrão podia ver a fumaça dos veículos destruídos, uma pequena vitória na batalha contra o desmatamento.

"Nunca sonhei que empunharia um fuzil para defender a Amazônia", disse um membro de 44 anos do GEF, um ex-ativista ambiental que se recusou a revelar seu nome por razões de segurança. "Mas isto é uma guerra e a guerra pode abrir seus olhos para o que precisa ser feito."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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