Ataques mostram estratégia do EI para o Egito: ganhar terreno matando cristãos

Declan Walsh

No Cairo (Egito)

  • Amr Abdallah Dalsh/Reuters

Pesar e fúria eram os sentimentos predominantes na comunidade cristã do Egito no começo da semana, enquanto familiares em luto enterravam as vítimas dos atentados a bomba coordenados contra igrejas no Domingo de Ramos, que mataram 45 pessoas em duas cidades. O governo declarou estado de emergência e um jornal foi impedido de chegar às bancas após criticá-lo.

Era a reação que o Estado Islâmico queria.

Expulso de seu reduto na costa da Líbia, sitiado no Iraque e encolhendo sob intensa pressão na Síria, o grupo militante extremista precisa urgentemente encontrar um novo campo de batalha onde possa voltar a proclamar vitória. Os ataques suicidas devastadores do domingo, no coração da maior comunidade cristã do Oriente Médio, sugerem que o grupo encontrou uma solução: as cidades egípcias.

Desde dezembro, o Estado Islâmico tem sinalizado sua intenção de travar uma guerra sectária no Egito ao matar cristãos em seus lares, negócios e igrejas. Vários fatores estão por trás da campanha vil, dizem os especialistas: o desejo de enfraquecer o líder autoritário do Egito, Abdel-Fattah el-Sissi; a necessidade de se estabelecer no Egito além dos remotos desertos do Sinai, onde jihadistas enfrentam o Exército há anos; e o desejo de fomentar um conflito sectário rancoroso que rasgue o delicado tecido social do país e desestabilize o Estado.

"Há um fator de propaganda significativo nisto", disse Mokhtar Awad, um especialista em militância da Universidade George Washington. "O EI quer mostrar que pode atacar um dos países mais populosos do mundo árabe."

Poucos acreditam que possa ter sucesso. A simples demografia do Egito reduz qualquer tipo de sucesso como no Iraque, onde o Estado Islâmico explorou as profundas tensões entre sunitas e xiitas. Os cristãos correspondem a apenas 10% da população do Egito, cuja maioria é muçulmana sunita, e apesar de preconceitos profundamente entranhados, não há apoio popular a um pogrom sangrento.

Mas por ora, a menos que o governo egípcio possa corrigir suas grandes falhas de segurança, os cristãos do Egito aparentemente serão aqueles que mais sofrerão devido às ambições do Estado Islâmico, e a luta pode ter consequências maiores para as liberdades civis e políticas em um país onde ambas já são escassas.

Uma fila de caixões de madeira, carregados por escoteiros e marcados com a palavra "mártir", passava pelas portas de um antigo mosteiro nos arredores de Alexandria na segunda-feira. Uma batida pesarosa de tambores acompanhava a procissão. Nos caixões se encontravam os restos mortais de algumas das 17 pessoas mortas no domingo, em uma explosão na entrada da Catedral de São Marcos, a sede histórica da cristandade no Egito. Talvez tenha sido o mais ambicioso dos dois ataques, porque o patriarca copta, Tawadros 2º, estava no interior da igreja no momento.

A cena também aumentou a pressão sobre Sissi, que conta com os líderes cristãos entre seus mais ferrenhos aliados.

Sua resposta, a imposição de três meses de estado de emergência, foi recebida com indiferença nacional. Os egípcios viveram sob estado de emergência por 44 dos últimos 50 anos e -Sissi já conta com vastos poderes, que levaram à prisão de seus rivais, julgamentos em massa e vigilância irrestrita de seus inimigos.

Este estado de emergência, que deve ser aprovado pelo Parlamento submisso na terça-feira, provavelmente enraizará ainda mais suas tendências autocráticas. Sob a lei de emergência, suspeitos de terrorismo serão encaminhados para tribunais especiais com pouca necessidade de evidências e sem processo de apelação, além de atuarem sob total controle de Sissi.

Além disso, o presidente terá o poder de censurar jornais e interceptar comunicações eletrônicas, algo que seus apoiadores sugeriram que poderia ser usado para reprimir críticas nas redes sociais, uma das últimas áreas de relativa liberdade de expressão no Egito.

"Provavelmente veremos pessoas que tuitam ou usam o Facebook para fins políticos, ou para convocar protestos, sendo julgadas nesses tribunais", disse Mai El-Sadany, um membro não residente para análise legal e judicial do Instituto Tahrir para Políticas para o Oriente Médio.

Em um aparente prenúncio dessa repressão, o governo bloqueou na segunda-feira a distribuição do "Al Bawaba", um jornal normalmente pró-Estado que culpou o Ministério do Interior por falhas de segurança nos atentados às igrejas em Alexandria e Tanta, uma cidade no delta do Nilo. O Parlamento aprovou uma lei endurecendo o código criminal, enquanto o presidente do Parlamento, Ali Abdel Aal, dizia aos parlamentares que as leis de emergência seriam aplicadas aos veículos de mídia e redes sociais.

A reação dura é uma espécie de afirmação para o Estado Islâmico, que até recentemente tinha dificuldade em ter qualquer impacto no Egito fora do Norte do Sinai. Lá, a luta é entre o exército e um grupo militante local, de caráter tribal, que se afiliou ao Estado Islâmico em 2014. Mas parece que a mais recente violência está sendo orquestrada por meio de uma rede separada dentro do Egito, uma com laços diretos com os principais centros do Estado Islâmico na Síria e no Iraque.

Awad, o especialista em militância, disse que encontrou evidência de que os militantes egípcios nos altos escalões da liderança central do Estado Islâmico estabeleceram uma rede de células nas principais cidades egípcias. "Vimos uma infraestrutura de células com conexões" com redutos do Estado Islâmico em Raqqa, Síria, e Mosul, Iraque, ele disse.

Algumas células estão baseadas no Cairo, ele disse, mas muitas outras fugiram para a relativa segurança do delta do Nilo, onde podem esconder e armazenar armas mais facilmente no viçoso e vasto coração agrícola do Egito.

A campanha violenta contra os cristãos, disse Awad, foi provocada pelas derrotas do Estado Islâmico em outros lugares, mas notadamente a expulsão deles da cidade líbia de Sirte, no ano passado, e a continuidade da operação apoiada pelos Estados Unidos em Mosul. A primeira salva foi um atentado a bomba suicida contra uma igreja copta no Cairo, em dezembro, que matou 28 pessoas e contou com apoio de vídeos de propaganda bem produzidos distribuídos pela internet. Então os canais egípcios do Estado Islâmico se encheram de convocações para execuções de cristãos.

"Acho que se trata de uma escalada calculada", disse Awad.

A minoria cristã há muito sofre de um preconceito casual que, como dizem seus membros, atrapalha o acesso dela a empregos e vagas universitárias e, com frequência, resulta em violência em algumas áreas rurais. Mas violência orquestrada do tipo perpetrado pelo Estado Islâmico no domingo é algo novo.

Sissi tentou tranquilizar os cristãos com novas leis de emergência e aumentando a segurança nas igrejas por todo o país. Em uma medida rara, soldados foram posicionados para ajudar a polícia e veículos blindados margeavam as ruas de Alexandria na segunda-feira.

Ele também precisa agir de modo rápido para escorar a melhora modesta no combalido setor de turismo do Egito neste ano, assim como para acalmar os católicos antes da visita prevista do papa Francisco em 28 de abril. Na segunda-feira, Israel fechou uma travessia de fronteira com o Egito, alertando sobre um ataque "iminente" por militantes baseados no Sinai.

Mas especialistas dizem que o maior problema de Sissi pode estar na reforma de suas próprias agências de segurança, que reprimiram impiedosamente a oposição política no Egito nos últimos anos, mas tiveram sucesso limitado em penetrar nas novas células radicais islâmicas que ameaçam as cidades egípcias, ou, no mínimo, impedi-las de executarem ataques coordenados a igrejas. Em Tanta, cenário de um dos dois ataques do domingo, os fiéis disseram que uma bomba foi encontra e desarmada uma semana antes.

Sissi, um ex-general, sabe quão duro pode ser esse trabalho: uma de suas últimas funções antes de chegar ao poder em 2013 era a de chefe da inteligência militar do país.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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