Pouco acolhedora, Hungria agora detém refugiados que pedem asilo

Rick Lyman

Em Horgos (Sérvia)

  • Akos Stiller/The New York Times

    Área de trânsito em Roszke, na Hungria, na fronteira com a Sérvia

    Área de trânsito em Roszke, na Hungria, na fronteira com a Sérvia

Cercas duplas de arames farpados. Torres de vigilância de alta tecnologia, equipadas com holofotes, sensores de movimento, câmeras e alto-falantes. A fronteira da Hungria com a Sérvia, especialmente fortificada nos últimos dois anos para impedir a entrada de imigrantes e refugiados, está longe de ser um tapete de boas-vindas.

Agora, adicione a isso campos de detenção, pequenos vilarejos de contêineres cercados por arame farpado, com um playground minúsculo para as crianças.

A Hungria, que já possui uma das políticas de imigração mais duras na União Europeia, introduziu no mês passado um novo procedimento draconiano de asilo que reduzirá ao mínimo os requerentes (10 pessoas por dia) e basicamente os colocará em campos de prisioneiros por meses, enquanto seus casos são decididos. Mesmo depois disso, se o passado recente servir de exemplo, mais de 90% provavelmente serão rejeitados.

Em maio, várias centenas de requerentes de asilo já na Hungria poderão ser transferidos para os campos de detenção, trazendo lembranças horríveis e inevitáveis da detenção de judeus, ciganos e outros durante a Segunda Guerra Mundial.

Mas se o primeiro-ministro autoritário da Hungria, Viktor Orban, provocou protestos entre seus pares europeus ao montar uma cerca de arame farpado na fronteira dois anos atrás, à medida que centenas de milhares de imigrantes ingressavam na Europa, desta vez a condenação, ao menos entre seus pares políticos, é mais contida.

Akos Stiller/The New York Times
Cercas separam as áreas de trânsito das fronteiras entre Hungria e Sérvia


É um grau de quanto os ventos mudaram a seu favor e contra os requerentes de asilo na Europa, à medida que movimentos populistas de extrema direita passam a representar uma grande ameaça em um ano repleto de eleições importantes, a seguir na França e a na Alemanha.

No momento, Orban se sente justificado e insiste que o restante da Europa está adotando sua abordagem. Ele pode estar certo.

Vastas multidões de imigrantes, como nas cenas caóticas na fronteira da Hungria com a Sérvia em 2015, são coisas do passado.

A Frontex, a agência de controle das fronteiras externas da União Europeia, intensificou as patrulhas marítimas no Mediterrâneo para conter o fluxo de imigrantes, particularmente da Turquia para a Grécia.

As autoridades gregas estão mantendo milhares de imigrantes que atravessaram no ano passado em campos nas ilhas gregas, às vezes sob condições difíceis, enquanto seus pedidos de asilo são processados.

Todas essas medidas na prática esmagaram grande parte do tráfego ao longo da rota dos Bálcãs, usada por estimados 764 mil imigrantes para entrada na Europa em 2015. Nos primeiros dois meses deste ano, apenas 2.448 tentaram entrar ilegalmente usando a mesma rota, disse a Frontex.

"A rota dos Bálcãs está basicamente fechada", disse Erno Simon, um porta-voz do escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados, em Budapeste.

Se essa mensagem ainda não foi recebida, as novas políticas da Hungria visam deixá-la bem clara.

Akos Stiller/The New York Times
31.mar.2017 - Mohammed Wafa Sekendari e sua família antes de entrar na zona de trânsito das fronteiras entre Hungria e Sérvia

O governo Orban está treinando milhares de novos "caçadores de fronteira", mesmo em meio às persistentes acusações de tratamento brutal aos imigrantes por polícias húngaros. As acusações espelham queixas na Bulgária, Croácia e outros Estados nas margens da União Europeia.

Sob o novo procedimento da Hungria, os requerentes de asilo serão detidos em duas zonas de trânsito e abrigados em trailers. A capacidade é de cerca de 500, com espaço para ampliação.

A Hungria tem reduzido constantemente o número de pessoas aceitas nas zonas de trânsito vindas da Sérvia, citando capacidade de processamento e a necessidade de checagens de segurança mais rígidas para assegurar que nenhum terrorista escape.

Agora será permitida a entrada limitada de cinco pessoas por dia em cada um dos dois campos, e apenas nos dias úteis (um total de 50 pessoas por semana), com famílias recebendo prioridade.

"Eles fizeram tudo em seu poder para impedir a entrada de pessoas e para dificultar para as pessoas que conseguem entrar", disse Lydia Gall, uma advogada de Budapeste e pesquisadora para o grupo de direitos humanos Human Rights Watch.

Mas Balazs Orban, chefe de pesquisa do Szazadveg Group, uma organização de pesquisa pró-governo, diz que há sinais de que os líderes ocidentais estão começando a acreditar que a abordagem dura do primeiro-ministro há dois anos foi apropriada.

Ele apontou para o acordo em princípio, em uma reunião da UE em Malta neste ano, para criação de um grande campo de refugiados na Líbia, para reter os requerentes de asilo enquanto seus casos são decididos. Isso segue basicamente os mesmos princípios das zonas de trânsito da Hungria, disse Orban, que não tem parentesco com o primeiro-ministro.

"A pressão dos imigrantes será tão grande ao longo da próxima década que precisamos criar um sistema que os detenha na fronteira", ele acrescentou.

"O que os alemães fizeram, permitindo a entrada de um milhão de imigrantes em seu país, vai contra o bom senso", disse Orban. "Mas o que os húngaros fizeram está de acordo com o bom senso. Mais pessoas estão começando a perceber isso."

Em uma entrevista recente para uma rádio estatal, Viktor Orban disse: "Quem está certo antes de todos os outros é considerado um herege".

Isso não necessariamente significa que refugiados e imigrantes econômicos deixarão de vir.

Akos Stiller/The New York Times
31.mar.2017 - Mohammed Wafa Sekendari, que deixou o Afeganistão com sua família há mais de um ano, atravessando a fronteira entre a Húngria e a Sérvia

Estimados 8.000 requerentes de asilo atualmente aguardam na Sérvia por permissão para entrada na Hungria. Mais centenas permanecem escondidos nas florestas em campos informais, na esperança de uma oportunidade para entrar ilegalmente. Muitos mais são esperados assim que o clima esquentar.

"Eu não tento entrar ilegalmente", disse Mohammed Wafa Sekendari, que partiu do Afeganistão com sua família há um ano e meio, na esperança de uma nova vida na Europa, apenas para acabar em um acampamento de tendas próximo da entrada de uma das novas zonas de trânsito da Hungria.

"Quero que tudo seja legal, que siga todas as regras, para que quando eu chegar na Alemanha, minha família e eu não precisemos mais nos esconder", ele disse.

Orban nega as acusações dos defensores dos refugiados de que a nova política da Hungria viola a lei internacional e as regras da UE. Mas seu governo tem controlado rigidamente o acesso aos campos e não permite a entrada de jornalistas, dizendo ser apenas uma salvaguarda para a privacidade dos refugiados.

Na maioria dos países, os requerentes de asilo geralmente são autorizados a ir e vir livremente, mesmo quando abrigados em centros de imigração. Antes esse também era o caso na Hungria, apesar de muitos terem partido, dando continuidade a sua jornada para a Europa Ocidental.

Nesse aspecto, a nova política mais dura de Orban reduz a pressão migratória sobre seus parceiros da UE, ao mesmo tempo que permite que eles o condenem assim mesmo.

Quanto às várias centenas de requerentes de asilo já vivendo na Hungria, as autoridades do governo dizem que também serão levados para os novos campos na fronteira.

"Se vierem atrás de mim, que venham" disse Nazari Khalid, 22 anos, um afegão que chegou na Hungria há um ano e vive em um abrigo para moradores de rua em Budapeste. "Não me importo. Aqui na Hungria você não tem dinheiro, não tem comida e nem trabalho. Ao menos na prisão eles lhe dão comida."

Para aqueles que tentam cruzar ilegalmente, os custos (e as chances de captura) aumentaram. Contrabandistas agora cobram US$ 2.000 (cerca de R$ 6.300) ou mais para levar de Belgrado, Sérvia, para Budapeste. Em 2015, o preço era de cerca de US$ 400.

Hoje, cerca de 150 pessoas vivem em um campo nos arredores de Subotica, um dos 17 campos na Sérvia para onde os refugiados devem ir para que seus nomes sejam colocados em uma lista para que a entrada seja permitida na Hungria.

Akos Stiller/The New York Times
Refugiados no campo de detenção, em Subotica, na Sérvia


Toda sexta-feira, as autoridades húngaras entregam para seus pares sérvios na fronteira um cronograma para a semana seguinte, escrito à mão em uma folha arrancada de caderno, detalhando quais famílias de refugiados serão autorizadas a entrar na zona de trânsito a cada dia.

Mas com a admissão de apenas 10 pessoas por dia, e milhares aguardando na Sérvia, as autoridades de refugiados estão preocupadas.

"Estamos nos preparando para grandes problemas neste verão, quando os húngaros começarem a rejeitar os requerimentos segundo o novo sistema e expulsar essas famílias", disse Norbert Gyori, uma das autoridades sérvias que administram o campo de Subotica.

Entre os afortunados em um dia recente estavam Sekendari e quatro de seus filhos, que chegaram a uma zona de trânsito com suas posses em farrapos após serem notificados com um dia de antecedência.

Ele acabou separado de sua esposa e dois outros filhos há mais de um ano na fronteira turca e não teve mais notícias deles. Ele espera que estejam aguardando por ele na Alemanha.

Em uma manhã recente, uma autoridade húngara apareceu em uma cerca próxima e chamou. "É hora", disse Sekendari para seus filhos.

Lentamente, eles se moveram em fila para atravessar o terreno arenoso em direção a uma catraca de metal à beira da zona de trânsito. Um por um, eles desapareceram além da fronteira. Nenhum deles olhou para trás.

Balint Bardi, em Budapeste (Hungria), contribuiu com reportagem adicional.

 

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