Longe de recuar, populismo ganha força e aumenta influência na política mundial

Max Fisher e Amanda Taub

  • ADAM FERGUSON/NYT

    Nigel Farage, líder do Partido da Independência em Londres

    Nigel Farage, líder do Partido da Independência em Londres

Como se a política ocidental não fosse suficientemente volátil, uma série de eleições recentes parece oferecer evidências contraditórias sobre o populismo estar avançando ou recuando.

Ele triunfou na votação britânica pela saída da União Europeia e na corrida presidencial nos EUA, quase venceu nas eleições holandesas e teve seu maior sucesso no primeiro turno da eleição presidencial da França, mas enfrentará uma provável humilhação no segundo turno.

Esses resultados talvez não sejam tão contraditórios quanto parecem. Porém, como sugerem as pesquisas, o populismo vem crescendo constantemente desde os anos 1960. Hoje está alcançando um tamanho que muitas vezes é pequeno para vencer diretamente, mas grande o bastante para modificar e às vezes reverter a política de um país.

Se os partidos populistas ganham ou perdem não depende só do nível de apoio popular --que parece surpreendentemente consistente em todos os países--, mas também da natureza do sistema político.

O populismo ocidental pode estar entrando em algo como seus anos estranhos de adolescência --é capaz de pedir o carro emprestado, mas não de possuí-lo, ter uma influência na casa, mas ser jovem demais para administrá-la.

Mas as pesquisas sugerem que ele continuará crescendo como força política. Quatro grandes eleições no ano passado mostraram que essa dinâmica pode se desenrolar de maneiras diferentes.

Ganho gradual, mas não evidente

Marine Le Pen, a líder do partido de extrema-direita Frente Nacional (FN), da França, demonstrou no primeiro turno da eleição presidencial quão longe seu movimento chegou. No segundo turno, se as pesquisas estiverem certas, ela mostrará o quanto falta para ocupar o poder.

Com o tempo, a FN melhorou constantemente seu desempenho. Em 1988, ganhou 14%; em 2002, o único outro ano em que chegou ao segundo turno, obteve 17%; em 2012, 18%. Neste ano Le Pen recebeu 21% dos votos, o que a coloca no segundo turno da eleição.

Essa tem sido a história do populismo em toda a Europa: um crescimento constante ao longo de décadas.

Desde os anos 1960, os partidos populistas duplicaram sua votação média nas eleições europeias e triplicaram seus assentos nas legislaturas europeias, segundo um trabalho recente dos cientistas políticos Ronald Ingleheart e Pippa Norris.

Hoje esses partidos detêm 13% dos assentos parlamentares e obtêm mais ou menos a mesma porcentagem de votos nacionais, segundo eles. Le Pen está se saindo melhor que a média --cada país é um pouco diferente, afinal--, mas não muito.

Esse processo foi tão gradual que quase não foi notado até agora. Parece repentino.

Enquanto as eleições são imprevisíveis e tudo é possível, a projeção é que Le Pen perca no segundo turno por até 20 pontos percentuais. Assim, embora a onda populista esteja crescendo, seu ritmo é lento para sozinha levá-la ao poder.

Essa é a natureza do estranho tamanho do populismo. Ele é pequeno demais para vencer confiavelmente eleições nacionais, mas grande o bastante para reenquadrar a política, na França e em outros lugares, assim como o debate entre globalismo e etnonacionalismo. As linhas de tendências continuam apontando para cima.

DAMON WINTER/NYT
Donald Trump durante o seu último dia de campanha presidencial, em Grand Rapids, nos EUA

Sistema pode fazer a diferença

Durante a maior parte da disputa presidencial nos EUA em 2016, parecia que Donald Trump faria um percurso semelhante ao de Le Pen: vitória sem precedentes na primária republicana, seguida de uma derrota humilhante na eleição geral.

Nas competitivas disputas primárias, o apoio de Trump pairou em torno de 30%. As pesquisas o mostravam extremamente impopular entre os que apoiavam os candidatos mais da corrente dominante, assim como entre a maioria dos democratas.

Isso levou muitos analistas a concluírem que, no plano nacional, o apoio a Trump teria um teto de talvez 40%, mais uma vez equivalente ao de Le Pen.

Mas havia uma diferença crucial: décadas de polarização partidária no sistema de dois partidos dos EUA.

Enquanto Trump conquistou alguns eleitores democratas da classe trabalhadora, seu maior salto ocorreu quando republicanos antes céticos se uniram ao seu redor, empurrando-o além de seu suposto teto. E o sistema de colégio eleitoral fez que Trump pudesse vencer, mesmo perdendo o voto popular por 2 pontos percentuais.

Enquanto os partidos de centro-direita da França se sentem à vontade rejeitando Le Pen, o Partido Republicano dos EUA viu pouca opção além de apoiar Trump. E embora os eleitores republicanos possam ter sido céticos sobre Trump, a polarização fez a vitória do seu lado --e a derrota do outro-- parecer imperativa.

A polarização, embora menos radical em outros lugares, está se manifestando em todas as sociedades ocidentais, levando eleitores antes centristas para partidos mais radicais à direita e à esquerda --espaços muitas vezes ocupados por populistas.

Grande demais para ignorar

Os establishments ocidentais, após meses de alarme, comemoraram as eleições legislativas na Holanda em março como um sinal de que a maré populista tinha recuado.

O Partido pela Liberdade, de extrema-direita, liderado por Geert Wilders, cresceu de 15 para 20 assentos, tornando-se o segundo maior do país, seguindo a ascensão continental do populismo.

Afinal, porém, ele teve só 13% dos votos, pouco abaixo do que as pesquisas projetavam e muito pouco para forçar sua entrada em um governo de coalizão. Os eleitores holandeses parecem ter encerrado a série de vitórias populistas.

Mas Wilders foi contido pela tirania matemática dos sistemas parlamentares, não apenas por uma reação antipopulista.

Nos sistemas parlamentares, os votos tendem a ser divididos entre vários partidos, com nenhum deles garantindo uma maioria própria. Para governar, um partido tem de formar uma coalizão majoritária com outros partidos.

Isso significa que enquanto um partido populista não vencer mais de 50% dos votos --o que é virtualmente impossível em sistemas como o dos Países Baixos--, os demais partidos podem se unir para formar uma coalizão, excluindo-o, o chamado "cordão sanitário".

Apesar de Wilders não tomar o controle do governo, seu movimento e suas políticas avançaram.

O partido de centro-direita, que lidera o governo, conseguiu o poder em parte por usar a mensagem de Wilders, especialmente sobre a imigração. O primeiro-ministro Mark Rutte disse aos migrantes em uma carta aberta pouco antes da votação: "Ajam normalmente ou saiam".

Forças semelhantes poderão atuar nas eleições legislativas na França em junho. Mesmo que Le Pen perca, os partidos estabelecidos se fraturaram e os de centro-direita tornaram-se mais populistas. Seu adversário de centro, Emmanuel Macron, enfrentará pressão para se deslocar à direita.

Com o tempo, essa dinâmica poderá acelerar ainda mais o crescimento do populismo, segundo escreveu o cientista político holandês Cas Mudde em "Foreign Affairs" em setembro.

Conforme mais partidos populistas se tornem o segundo ou terceiro em seus países, os partidos da corrente dominante terão de formar mais "cordões sanitários" para mantê-los fora. Para os eleitores populistas, isso parece uma conspiração do establishment para reprimir a vontade popular, aprofundando a indignação contra um sistema aparentemente insensível.

ADAM FERGUSON/NYT
Turistas em Londres em época onde o Partido da Independência influenciou nas votações da saída do Reino Unido da Europa

Populismo da corrente dominante

Mesmo que os partidos populistas com frequência sejam muito pequenos para assumir o poder, quando as forças corretas se alinham eles são poderosos o suficiente para reformular a política.

Foi assim que o Partido da Independência do Reino Unido, o Ukip, ajudou a provocar a saída do Reino Unido da UE.

Depois de anos de resultados de um dígito nas eleições nacionais, o partido ganhou 13% dos votos em 2015, mais uma vez seguindo as medidas de tendências mais amplas.

Ele ganhou só um assento no Parlamento, elegendo um representante que mais tarde deixou o partido. Mas essa vitória ajudou a causar medo no Partido Conservador, de centro-direita, de que ele pudesse perder poder, ou que sua liderança de centro pudesse cair, a menos que usasse a atração do Ukip. Por isso o partido propôs o referendo sobre a saída da UE. Ele parecia acreditar que o referendo fracassaria. Afinal, 13% não eram muito.

Mas o chamado Brexit foi aprovado, com 52%, por causa do apoio dos eleitores que os estudiosos Jonathan Mellon e Geoffrey Evans chamaram de "curiosos do Ukip" --os que não apoiavam o partido de forma consistente, mas eram receptivos a sua mensagem.

"Vivemos em uma era sem precedentes de apoio partidário volátil", escreveram os acadêmicos, querendo dizer que até um partido tão marginal quanto o Ukip poderia exercer pressão suficiente sobre o sistema para impor sua política na agenda --e que existia apoio latente suficiente para garantir uma maioria, mesmo que só por uma eleição, em um dia.

Isso dificilmente significa que o Ukip um dia assumirá o poder, ou mesmo necessariamente ganhará um segundo assento no Parlamento. Mas ele não precisa disso. Como prova o Brexit, a onda populista pode fazer muito com 13%.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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