México vê um novo Trump, um "blefador" na mesa de pôquer

Kirk Semple e Elisabeth Malkin

Na Cidade do México

  • STEPHEN CROWLEY/NYT

    13.fev. 2017 - Donaldo Trump cumprimenta o primeiro ministro do Canadá, Justin Trudeau, na Casa Branca, em Washington

    13.fev. 2017 - Donaldo Trump cumprimenta o primeiro ministro do Canadá, Justin Trudeau, na Casa Branca, em Washington

Houve um tempo em que Donald Trump --primeiro como candidato e depois como presidente -- podia perturbar o México sem mesmo tentar.

Suas ameaças de construir um muro na fronteira e fazer os mexicanos pagarem por ele provocaram incêndios de fúria patriótica e ressentimento. Suas promessas de deportar milhões de pessoas que estão ilegalmente nos EUA fizeram os políticos traçarem planos de contingência. Sua intenção de reformular o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta) e deixar o México de joelhos, abalaram as fundações do Estado.

Mas na quarta-feira (26) a sugestão da Casa Branca de que Trump estaria finalizando uma ordem executiva para iniciar o processo de retirar os EUA do Nafta revelou um México diferente e mais experiente, que está aprendendo a conviver com o que considera arrogância e encenação de Trump --e não inclinado a reagir publicamente com demasiada rapidez.

"Parece que ele está sentado em uma mesa de pôquer blefando, em vez de tomando decisões sérias", disse o senador mexicano Armando Ríos Piter. "Na frente de um blefador, você sempre tem de manter uma posição firme e digna."

As autoridades mexicanas não comentaram em público até que Trump emitiu uma declaração, no final da noite de quarta, de que não pretende sair do Nafta, mas sim "fazer o Nafta se modernizar por meio de negociações".

Trump disse na quinta-feira (27) que atendeu a pedidos do presidente Enrique Peña Nieto, do México, e do primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, para que não saísse do tratado imediatamente. Ele também sofreu pressão de congressistas republicanos e líderes empresariais, alarmados pela possibilidade de que ele avançasse rapidamente para uma retirada.

Xinhua/Jim Loscalzo/Pool/CNP/ZumaPress
Donald Trump discursa no Congresso norte-americano

Peña Nieto também emitiu um breve comunicado, dizendo que os presidentes conversaram sobre "o objetivo comum de modernizar" o acordo comercial.

As instabilidades do dia deixaram muitos mexicanos com um pouco de torcicolo --o peso mexicano deu um mergulho--, mas também com uma leve sensação de satisfação por estarem finalmente aprendendo a entender o presidente americano.

Eduardo Bravo, ex-presidente da Associação de Empresários Mexicanos, disse que se sentiu aliviado pelo modo como a questão foi resolvida na quarta-feira, mas advertiu que ainda há um duro caminho pela frente, descrevendo o comportamento da Casa Branca como "muito esquizofrênico".

"Realmente, você tem de manter a esperança e continuar trabalhando para preservar o relacionamento", disse ele. "Há muito trabalho a fazer."

Em entrevistas com políticos, analistas, economistas, líderes empresariais e ex-diplomatas, um sentimento geral surgiu durante o dia de quarta de que a ameaça de Trump de se retirar do Nafta usando um decreto presidencial seria principalmente uma peça de teatro visando sua base eleitoral e também o México e o Canadá, e não algo para preocupar terrivelmente as pessoas.

Alguns especularam que a notícia do decreto foi um vazamento controlado, com o fim de avaliar a reação dos demais membros do Nafta e colocá-los na defensiva.

"A análise generosa seria que ele está brincando de estadista e tentando aumentar a aposta", disse Arturo Sarukhán, um ex-diplomata mexicano nos EUA. "Essa é uma maneira de mostrar as armas e dizer: 'Se vocês não aceitarem minhas exigências, vou acabar apertando o botão nuclear'."

Mas a notícia foi uma surpresa para muitos que observavam de perto o processo.

Depois de meses de conversa dura de Trump, seu governo parecia estar pronto para iniciar negociações sobre o Nafta ainda neste verão. Membros do governo circularam o rascunho de uma carta em março que expunha suas metas em uma negociação, um passo obrigatório no processo. A carta parecia sugerir uma abordagem muito mais modesta do que Trump havia ameaçado, deixando intacta grande parte do Nafta.

Antes que as negociações possam começar, o governo Trump precisaria consultar várias comissões legislativas e notificar formalmente o Congresso sobre sua intenção de renegociar o tratado.

Nas últimas semanas, membros do governo manifestaram frustração com o ritmo do processo, que foi desacelerado em parte por atrasos na confirmação do representante comercial do governo americano, Robert Lighthizer.

IVAN PIERRE AGUIRRE/NYT
Paso del Norte, ponte internacional entre El Paso, no Texas e Ciudad Juarez no México

Durante a quarta-feira, autoridades disseram que a ordem executiva proposta provocaria um processo diferente de retirada, com uma contagem regressiva de seis meses.

Mas isso não impediria o governo de continuar com as negociações, deixando muitos observadores no México a interpretar a ameaça de decreto como uma clara estratégia de pré-negociação.

Antonio Garza, um ex-embaixador americano no México, chamou a possível ordem executiva de Trump de "uma bola dura", acrescentando: "Provavelmente não é o modo de lidar com uma contraparte que é ao mesmo tempo um antigo parceiro comercial e crítico para tantas iniciativas de segurança, imigração e contraterrorismo".

Alguns especularam que Trump estaria tentando parecer durão para agradar à sua base eleitoral, especialmente considerando o histórico misto de objetivos alcançados ao se aproximar dos cem dias de governo.

"Claramente, no México isso seria visto como uma espécie de chilique de uma criança mimada que não ganhou os presentes esperados em seu aniversário, os cem dias", disse Rafael Fernández de Castro, um especialista em relações EUA-México no Instituto Tecnológico Autônomo do México, na Cidade do México.

O governo Peña Nieto adotou publicamente uma posição dura sobre o Nafta, declarando sua disposição a atualizar o tratado, mas expressando a intenção de deixar totalmente a mesa e o acordo. Nas últimas semanas, Peña Nieto enviou emissários, incluindo seu ministro das Relações Exteriores e seu embaixador em Washington, para confirmar essas posições.

Os mexicanos sentiram-se fortalecidos pelo apoio que receberam de membros importantes da comunidade empresarial dos EUA e de autoridades eleitas --incluindo congressistas republicanos-- que cada vez mais manifestaram seu apoio ao Nafta e à aliança dos EUA com o México.

Ao mesmo tempo, temendo as ameaças e a imprevisibilidade de Trump, o México vem explorando novos acordos comerciais com outros países ou modernizando antigos tratados.

Em um depoimento ao Congresso na cidade do México na terça-feira, Luis Videgaray, o ministro das Relações Exteriores, confirmou a posição do governo Peña Nieto.

"Não vamos aceitar qualquer tipo de renegociação", disse. "Preferimos, em qualquer caso, abandonar o tratado do que ter uma má negociação, e nisso fomos claros publicamente e com o governo dos EUA."

Sarukhán disse que o governo mexicano via Trump como "um veado apanhado pela luz dos faróis no meio da floresta", mas depois adotou uma posição mais madura, escolhendo cuidadosamente suas batalhas e emitindo "declarações cirúrgicas, precisas, sobre o relacionamento e bancando o adulto". Essa posição, disse ele, era a exibida na quarta-feira.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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