Na histórica Weimar, refugiados refletem: quando quatro paredes se tornam um lar?

Kassie Bracken

  • Mauricio Lima/The New York Times

    Anas Alkarri e sua mulher, Aya Alnabulsi, ambos refugiados sírios, com seu filho Zaid, em casa em Weimar, na Alemanha

    Anas Alkarri e sua mulher, Aya Alnabulsi, ambos refugiados sírios, com seu filho Zaid, em casa em Weimar, na Alemanha


A histórica cidade de Weimar, Alemanha (população, 65 mil), absorveu 900 refugiados em um ano. Jornalistas do "New York Times" passaram meses ali examinando a integração por todos os lados.

Nesta história:

Omar, 28 anos, um sírio que se recusou a dizer seu sobrenome para proteger parentes, e sua namorada, Sarah Zdun, 26 anos, uma assistente social alemã.

Mohamed Khanom, 45 anos, um sírio que se separou de sua mulher após chegarem à Alemanha.

Bashar Al-Sulaiman, 20 anos, um estudante da Síria que compartilha um apartamento com sete alemães.

Moaazzaza Almustafa, 19 anos, uma síria que vivia com sua família em apenas um quarto.

Hindrin Omar Sharif, 34 anos, uma síria que vive com seu marido e filhos.

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Os refugiados trouxeram poucas coisas com eles: celulares, é claro; algumas roupas ou brinquedos; fotos da Síria, do lar. Eles passaram semanas ou meses em um dormitório apertado que consideravam um campo de refugiados à beira de Weimar, depois lentamente se espalharam para apartamentos por toda a cidade com parentes, outros refugiados que conheceram ao longo do caminho e, ocasionalmente, alemães.

Dentro desses quartos, vislumbramos suas novas vidas, ainda em construção. Há cozinhas minúsculas e prateleiras vazias, mas também lembranças meticulosamente arrumadas e cobertores bem empilhados.

Quando quatro paredes se transformam em um lar?

"Você sente dentro de seu coração", foi como Omar colocou.

Mauricio Lima/The New York Times
O refugiado sírio Omar e sua namorada alemã Sarah Zdun, em Weimar


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"Não posso pegar a outra cultura com uma colher e comê-la, para que entre dentro de mim"

Há uma palavra em alemão que captura os sentimentos de Omar a respeito de viver em Weimar: Heimat. Não há uma tradução direta em transmita o forte laço emocional, o senso de pertencer a um lugar espiritual, nem sempre físico.

Heimat não exatamente lar, é como ele sente o apartamento que agora compartilha com Sarah, que ele conheceu pouco depois de chegar a Weimar.

Na pequena sacada deles se encontra o presente de aniversário artesanal de Omar para Sarah: uma casa de passarinho. Em uma manhã luminosa de inverno, ela olhou para ela de forma otimista e disse: "Vamos ver se conseguimos um animal de estimação".

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'A dona deste apartamento, uma senhora alemã, deixou tudo aqui para nós'

A vida comunal no "campo" de refugiados de Weimar provou ser o ponto de ruptura para o casamento de Mohamed, que já estava abalado pela guerra e pela mudança. "Ela chamou a polícia porque gritei com ela muitas vezes", ele disse. "Foi um erro meu."

Agora, Mohamed paga 155 euros por mês (cerca de R$ 540) para compartilhar um apartamento de dois quartos subsidiado pelo governo, no extremo noroeste de Weimar, com três outros homens sírios. Ele está estudando alemão e ganha dinheiro costurando cortinas, um ofício que ele aprendeu com seu pai, assim como trabalhando como tradutor e apresentando um programa de rádio sobre as questões dos refugiados.

Ele preza especialmente algo que carecia no campo: ter uma cozinha. "Agora, planejo ganhar um pouco de peso em meu corpo por poder cozinhar minha própria comida!", ele disse.

Mas Mohamed sente falta de seus dois filhos, Hisham, 16 anos, Gheyath, 13 anos, e de sua filha de 3 anos, Dana. Ele ainda espera por uma reconciliação com sua mulher. "Muitas vezes eu acordo no meio da noite", ele disse. "Não consigo dormir. Eu choro."

"Esta é uma casa temporária", ele acrescentou.

Laura Boushnak/The New York Times
Haifaa Ibrahim em seu quarto em Weimar


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"Quando estava na Síria, meu lar era meu apartamento, onde estão meus pais"

Sentado entre seus colegas de casa, Bashar pode ser confundido como sendo um estudante de intercâmbio, e sua residência comunal, Hababusch, como sendo um experimento estudantil de modo de vida alternativo. Os oito moradores têm uma abordagem de "pegue algo, deixe algo" para roupas, calçados e outros itens guardados no vestíbulo, e realizam exposições e eventos nas áreas comuns.

Certa noite de sexta-feira, jovens lotavam o segundo andar para leituras de poesia e prosa. Bashar é seletivo em relação a compartilhar suas experiências na Síria e discutir suas esperanças para o futuro. "É a última porta que eu não gostaria de abrir", ele disse.

"Considero uma palavra realmente complicada para descrever, dizer se algo é um 'lar' ou não", disse Bashar, quando perguntado sobre seu nível de conforto em Hababusch. "Antes, quando estava na Síria, meu lar era meu apartamento, onde estão meus pais. Mas agora, lar não é um lugar", ele disse. "Agora, lar, eu acho que é mais um sentimento."

Mauricio Lima/The New York Times
Margret Aurin, que trabalha para um programa que coloca refugiados em contato com alemães, em Weimar


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"Um quarto para cinco pessoas e temos que compartilhar tudo"

Em dezembro, Moaazzaza e sua família estavam entre os cerca de 20 refugiados ainda vivendo nos prédios ao estilo dormitório em Nordstrasse, onde a prefeitura de Weimar abrigou todos os recém-chegados até que pudessem encontrar apartamentos.

O ambiente comunal era um desafio: como muçulmanos religiosos, Moaazzaza e sua mãe acreditavam que tinham que cobrir seus cabelos e braços até para ir ao banheiro ou beber água, já que poderiam encontrar homens que não eram seus parentes.

A família, incluindo os irmãos de 16 e 10 anos de Moaazzaza, dividia um quarto em Nordstrasse até 19 de janeiro, quando se mudou para um apartamento de três quartos no extremo sul da cidade, que é pago pelo governo.

Durante nossa visita, um irmão assistia a televisão sem som enquanto Moaazzaza e sua mãe, Lena, realizavam seus exercícios de escrita em alemão.

"Ela costumava me ensinar", disse a adolescente. "Agora eu ensino para ela."

Mauricio Lima/The New York Times
O refugiado sírio Bashar al-Sulaiman, no apartamento que compartilha com sete alemães, em Weimar


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"Meus filhos mais velhos têm lembranças"

Hindrin fugiu da Síria sem nenhuma foto da família. A casa dela em Kobani foi destruída, seu sogro foi morto. Ela, seu marido, Jihad, e seus filhos, Revan e Azad, atualmente com 11 e 8 anos, partiram com quase nada.

Agora ela considera suas posses mais valiosas as bugigangas exibidas em sua sala de estar em Weimar. Entre elas um trio de pequenos caminhões vermelhos, que ela comprou na Alemanha para que seus filhos se lembrassem do avô falecido, que antes dirigia um caminhão vermelho. Também há fotos em classe tiradas na nova escola alemã dos meninos.

"Gostaria de emoldurá-las, pendurá-las na parede", ela disse. "É assim que se torna uma casa bonita. Isso é o que faz me sentir em casa."

Um inconfundível pesar persistente preenche o apartamento de dois quartos ensolarado deles, mas também há um senso de alegria: Hindrin está esperando um menino para junho. Quando questionada sobre se considera o apartamento seu lar, ela inicialmente respondeu entre lágrimas que espera retornar para a Síria algum dia para reconstruir seu lar lá.

"Meus filhos mais velhos têm lembranças", ela disse. "Eles se lembram de sua antiga casa, do quarto deles, de seus brinquedos. Esta nova criança não terá nada disso."

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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