Discussão sobre símbolos confederados inflama tensão racial no sul dos EUA

Richard Fausset

Em Nova Orleans (EUA)

  • BRYAN TARNOWSKI/NYT

    Manifestantes contrários ao plano de remoção dos monumentos caminham em Nova Orleans

    Manifestantes contrários ao plano de remoção dos monumentos caminham em Nova Orleans

Para Malcolm Suber, os monumentos confederados que salpicam esta cidade no "sul profundo" dos EUA representam a supremacia branca, pura e simplesmente. Em vez de apenas derrubá-los, Suber, um ativista e organizador afro-americano, gostaria que a cidade distribuísse marretas e "deixasse todo mundo dar um golpe, como no Muro de Berlim".

Para Frank B. Stewart Jr., um branco originário de Nova Orleans, o plano do governo da cidade de remover as estátuas --ideia defendida pelo prefeito branco de Nova Orleans, Mitch Landrieu-- parece uma tentativa orwelliana de apagar a história. Na semana passada, Stewart, 81, um empresário e líder cívico, afirmou o mesmo em uma carta que publicou como anúncio de duas páginas, no jornal local "The Advocate".

"Eu lhe pergunto, Mitch, as pirâmides do Egito devem ser destruídas, já que foram construídas totalmente com trabalho escravo?", escreveu ele.

Stewart também divagou sobre o Coliseu de Roma: "Ele foi construído por escravos, que tiveram uma vida horrível sob a opressão romana, mas ele continua de pé e aprendemos muito ao vê-lo".

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Grupos a favor e contra o plano de remoção dos monumentos se encaram em Nova Orleans

Tais são os parâmetros irreconciliáveis de uma batalha sobre raça e história em Nova Orleans, que parece cada dia mais feia e demonstra o poder duradouro da Confederação de dividir os americanos, mais de 150 anos depois que a causa foi perdida.

"Não acredito que isso esteja acontecendo na minha cidade", disse Charles Washmon, um empreiteiro de 51 anos que estava perto de uma estátua de Jefferson Davis, o presidente confederado, na última quinta-feira. Washmon, que é branco, fazia parte de um grupo de manifestantes que agitavam bandeiras confederadas e atraíam buzinadas de apoio e invectivas dos carros que passaram durante toda a tarde. Assim como Stewart, ele temia que remover as estátuas privaria uma cidade cheia de história de uma camada crucial de seu passado. "É uma falsidade", dizia Washmon.

Em dezembro de 2015, Landrieu, um democrata que deixará o cargo no próximo ano por causa dos limites de mandato, assinou um decreto ordenando a retirada de quatro monumentos relacionados à Confederação e suas consequências. Foi seis meses depois que Dylann Roof, um supremacista branco admirador dos símbolos confederados, massacrou nove pessoas negras em uma igreja em Charleston, na Carolina do Sul. Um dos monumentos, um obelisco comemorativo de uma violenta rebelião em 1874 de cidadãos brancos que rejeitavam a Reconstrução, foi retirado em 24 de abril por trabalhadores usando jaquetas e cachecóis para esconder sua identidade.

A inquietação cresceu desde então. Landrieu disse que a cidade pretende remover os três monumentos restantes --primeiro a estátua de Davis, depois as de dois generais confederados, P.G.T. Beauregard e Robert E. Lee-- no próximo mês, mas não anunciou as datas precisas. Na semana passada, a estátua de Beauregard foi pichada com tinta vermelha por vândalos. E simpatizantes dos confederados e fãs de estátuas acorreram à cidade, de locais distantes como o Novo México e o Colorado, para protestar contra sua remoção.

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Manifestantes protestam contra e a favor da remoção dos monumentos na cidade de Nova Orleans

Na noite da última segunda-feira, defensores das estátuas enfrentaram um grande grupo de oponentes perto da estátua de Davis, na área central da cidade. "Saiam de Nova Orleans", cantava o grupo multirracial de adversários, ao som do Hino de Batalha da República, usando uma linguagem muito mais forte, "porque vocês não são bem-vindos aqui."

A polícia prendeu cinco pessoas acusadas de perturbar a paz e outras infrações, e autoridades municipais cercaram a estátua com barreiras e guardas policiais. Mas a multidão continuou aumentando, e alguns defensores dos monumentos chegaram fortemente armados. Um homem que se identificou apenas como K.K. caminhava pela rua na última terça-feira carregando um rifle AK-47 e uma pistola Glock na cintura.

Landrieu disse que a cidade vai manter o plano, mas parece que não será fácil. Retirar as estátuas restantes exigirá usar um guindaste pesado, e o prefeito disse ao jornal "The Times-Picayune" que todas as empresas de guindastes da região receberam ameaças.

Na tarde do último domingo, cerca de 500 manifestantes contrários aos monumentos, segundo estimativas da polícia, ocuparam as ruas em um desfile barulhento pelo bairro francês e pelo centro, terminando em Lee Circle, a rotatória onde fica a estátua do general Lee. Lá, eles enfrentaram cerca de 150 manifestantes que tinham vindo de todo o país para dar apoio à estátua. Alguns dos contramanifestantes empunhavam bandeiras confederadas, exibiam distintivos de Pepe o Sapo e outros símbolos da direita alternativa, um movimento marginal que abraça o nacionalismo branco.

E alguns usavam trajes de batalha improvisados, como capacetes de ciclistas, protetores de joelhos e escudos caseiros.

Mas o Departamento de Polícia de Nova Orleans tinha erguido barreiras para separar os dois grupos. A Louisiana é um Estado que permite o porte de armas, mas as autoridades policiais tinham avisado que as armas estavam proibidas no protesto de domingo, citando um decreto municipal. Um morador tinha levado grandes alto-falantes que usou para emitir canções pop, como "Dancing Queen", do grupo Abba, uma trilha sonora que ajudou a transformar o evento ameaçador em uma farsa.

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Manifestante segura bandeira dos Estados Confederados, em Nova Orleans

Beau Tidwell, diretor de comunicações do Departamento de Polícia, disse que três pessoas foram detidas no domingo por perturbar a paz em brigas leves.

O pai de Landrieu, Maurice Edwin Landrieu, conhecido como Moon, serviu como prefeito de 1970 a 1978 e conquistou o respeito de muitos moradores negros ao abrir para eles cargos na Prefeitura. O atual prefeito, que usufrui de parte dessa boa vontade, disse em um comunicado no final de abril que as estátuas seriam levadas para um museu "ou outra instalação onde possam ser colocadas em contexto", e assim mostrar ao mundo que Nova Orleans celebra a "diversidade, inclusão e tolerância".

A declaração também comentou que as estátuas foram erguidas décadas depois do fim da guerra e pretendiam "demonstrar que não havia sentimento de culpa pela causa em que o sul lutou a Guerra Civil".

Os defensores das estátuas são de várias correntes. Entre eles está David Duke, ex-líder da Ku Klux Klan que disputou cargos várias vezes na Louisiana. Como era previsível, ele vê as remoções como "destruição do nosso patrimônio" e chamou Landrieu de "um corno traidor", usando um termo dos nacionalistas brancos e da direita alternativa para insultar os políticos.

Mas há muitos, como Stewart, que não professam um amor pela supremacia ou pela escravidão. Stewart disse que as estátuas servem como lembrança da evolução da sociedade, afastando-se de ideias perigosas --prova, disse ele, de que nos distanciamos muito de nossos ancestrais".

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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