Sorte, habilidade e a história sombria da França: como Macron foi eleito?

Adam Nossiter

Em Paris (França)

  • Christian Hartmann/ Reuters

O segundo turno nacional francês transcendeu a política nacional. Foi globalização contra nacionalismo. Futuro contra o passado. Abertura contra fechamento.

Mas em sua retumbante vitória na noite de domingo, Emmanuel Macron, o novato político centrista, venceu por ser beneficiário de um legado histórico e cultural francês único, onde muitos eleitores queriam mudanças, mas estavam assustados com o tipo de fúria populista que virou de cabeça para baixo a política no Reino Unido e nos Estados Unidos. Ele derrotou a candidata de extrema-direita, Marine Le Pen, a mantendo abaixo de 40%, apesar dos assessores dela terem dito antes da votação que qualquer coisa abaixo desse número seria considerado um fracasso.

A vitória dele provocou imediatamente alegria entre o establishment político europeu, especialmente porque uma vitória de Le Pen ter mergulhado a União Europeia em crise. Mas no final, Macron, com apenas 39 anos, um ex-banqueiro de investimento e um candidato pouco inspirador, venceu devido à sorte, uma demonstração inesperada de habilidade política e aos temores enraizados e o desprezo que a maioria dos franceses ainda sente por Le Pen e seu partido, a Frente Nacional.

Ao longo do último ano, a questão política mais urgente era se a ampla frustração do público com as classes políticas ocidentais tinha se transformado em um movimento populista global. A votação no Reino Unido pela saída da UE em junho, seguida pela eleição presidencial de Donald Trump nos Estados Unidos, criaram a impressão de uma onda crescente. Le Pen, um símbolo da extrema-direita europeia, era o próximo grande teste.

Mas o desafio de Le Pen era diferente, pela história da França ser diferente. Ela passou os últimos seis anos como presidente da Frente Nacional, focada em um só objetivo: apagar a mancha da associação de seu partido com os ex-colaboracionistas, extremistas de direita, racistas que odeiam imigrantes e antissemitas que o fundaram há 45 anos.

Ela sabia, como seu pai, o patriarca do partido, Jean-Marie Le Pen, sempre se recusou a reconhecer, que ela sempre seria uma candidata da minoria enquanto lembrasse aos franceses daquela que talvez seja a maior mancha em sua história, os quatro anos do governo de extrema-direita durante a Segunda Guerra Mundial. Dentro e fora do partido esse processo era chamado de "desdemonização", um termo sugerindo os demônios ainda associados ao seu partido. Os franceses não os queriam de volta.

"Não havia outra escolha. Eu não podia votar em Le Pen. Não se deve votar em extremistas", disse Martine Nurit, 52, dona de um pequeno restaurante, que tinha acabado de votar no 20º Arrondissement de Paris no domingo. Ela votou no candidato de extrema-esquerda, Jean-Luc Mélenchon no primeiro turno, e foi "sem nenhuma alegria" que ela votou no "candidato pró-negócios", Macron, no segundo.

"Eu votei principalmente contra Le Pen", ela disse.

No final, Marine Le Pen fracassou espetacularmente em "desdemonizar". Ela fracassou durante a campanha, quando seus comícios furiosos arrastaram a Frente Nacional de volta ao pântano do qual tinha saído. E ela fracassou decisivamente em um dos momentos críticos da campanha, no debate da semana passada com Macron, em que na prática "redemonizou" a si mesma e ao partido, como notaram muitos comentaristas franceses.

Foi um longo discurso contra Macron, repleto de ofensas e terrivelmente deficiente em substância. Ela parecia perdida em um assunto após o outro, hesitando em um de seus principais temas, a saída do euro, à qual a maioria dos franceses é contra. Algo essencial sobre Le Pen e sobre a Frente Nacional foi revelado à França.

Macron, por sua vez, demonstrou uma qualidade que os eleitores franceses, diferente de muitos anglo-saxões, há muito consideram essencial em seus candidatos bem-sucedidos: domínio frio das questões críticas enfrentadas pelo país. Enquanto Le Pen repetidamente se perdia entre as ervas daninhas, Macron passava tranquilamente por elas. Se ele será capaz de traduzir esse conhecimento em ação é outra questão.

Até o momento, ele foi beneficiário de uma sorte espetacular.

Há quatro meses, ele estava em um distante terceiro lugar nas pesquisas, um perdedor quase certo, cujo movimento independente não partidário era considerado promissor para o futuro, mas ainda não maduro. A elevada banalidade de sua retórica parecia afugentar tantos eleitores quanto inspirava. Seus discursos começavam com entusiasmo, mas logo declinavam sob o peso de seus discursos.

Mas isso foi antes do candidato de centro-direita François Fillon, o líder nas pesquisas de intenção de votos, implodir devido a um escândalo de peculato, alimentando a ascensão de Macron para disputa do segundo turno contra Le Pen. Muitos eleitores de Fillon votaram de modo relutante em Macron no domingo, rejeitando Le Pen, que se concentrou em atrair os eleitores de Mélenchon, o candidato que ficou em quarto lugar no primeiro turno e que defendia uma plataforma anticapitalista semelhante. E Macron teve sorte em enfrentar Le Pen, uma candidata simplesmente considerada inaceitável pela maioria dos franceses.

Mas ele também jogou com as cartas limitas que dispunha com grande habilidade desde o início, superando pessoas mais experientes que ele. Primeiro, ele foi sábio em renunciar ao homem que o lançou na política, o altamente impopular presidente socialista François Hollande, pedindo demissão de seu posto como ministro da Economia no governo de Hollande antes que fosse tarde demais. Então, ele se recusou a participar na primária do Partido Socialista em janeiro, julgando acertadamente que os ativistas do partido dominariam e escolheriam um candidato de extrema-esquerda à margem, que então seria devorado por Mélenchon, exatamente o que aconteceu.

A última aposta correta de Macron foi que os eleitores franceses, como os de outros lugares, estavam enojados dos principais partidos, após terem julgado as prescrições políticas tanto do establishment de esquerda quanto de direita como fracassos no tratamento dos múltiplos males da França. Ele se posicionou no centro, atraindo pessoas tanto da esquerda quanto da direita, equilibrando proteção ao Estado de bem-estar social francês com um leve encorajamento às empresas, em uma tentativa de superar a estagnação de empregos e produtividade da França.

Mas as posições pró-mercado de Macron provocaram muita oposição. Mélenchon não apenas se recusou a apoiá-lo, como também alimentou a ideia de que Macron e Le Pen eram ameaças equivalentes, um cálculo apoiado por muitos eleitores de extrema-esquerda. Quase metade do eleitorado no primeiro turno votou em candidatos hostis ao livre mercado e ao capitalismo. Apesar de terem votado em Macron no domingo para salvar o país de Le Pen, eles o fizeram sem entusiasmo.

Parte da antipatia deriva de sua personalidade hermética, como uma caricatura do tecnocrata educado, sabe tudo, da elite, trajando perpetuamente um terno preto, que guiou a França durante grande parte de sua história do pós-guerra, geralmente nos bastidores, e cujo retrospecto é ambíguo.

"Ele não é alguém por quem sinto grande convicção", disse Thomas Goldschmidt, um funcionário de 26 anos de um escritório de arquitetura em Paris, que votou em Macron após ter votado no primeiro turno no socialista Benoît Hamon. "Ele é alguém que levanta muitas questões. Sua visão da sociedade é muito pró-negócios", disse Goldschmidt. "É toda essa ideia torna a vida profissional mais incerta. Não podemos apostar nisso, que todos podem ser empreendedores. A sociedade não funciona assim."

Macron parece ciente de que sua grande vitória não significa um grande mandato, que a pressão agora é assegurar que a rejeição pela França da Frente Nacional não seja apenas temporária. "Se fracassarmos em solucionar os problemas da França, ou fracassarmos em oferecer um começo sólido para solucioná-los, daqui cinco anos será ainda pior", ele disse ao site de notícias de esquerda "Mediapart" na noite de sexta-feira. "O que nutre a Frente Nacional será ainda mais virulento", ele acrescentou.

Sem contar com o apoio de um partido estabelecido, o primeiro obstáculo de Macron serão as eleições legislativas de junho para o Parlamento francês. Ele prometeu lançar candidatos em todos os 577 distritos parlamentares, mas se conseguirá fazê-lo é incerto. Nem está claro quantos socialistas apoiarão seu programa.

A Frente Nacional pode conquistar até 100 cadeiras no novo Parlamento, segundo algumas análises, a transformando em um partido de oposição formidável. De fato, apesar da forte derrota sofrida por Le Pen no domingo, ela ainda assim obteve um resultado que há não muito tempo seria impensável. E em seu discurso de concessão da vitória a Macron, ela deixou claro que já está olhando para o futuro, para as eleições parlamentares.

E há a oposição potencial representada por Mélenchon, que venceu em algumas das maiores cidades da França (Marselha, Toulouse e Lille) e já está reivindicando o manto de principal oponente de Macron na esquerda. Os eleitores dele, assim como os de Le Pen, não confiam em Macron.

Macron, em seu discurso da vitória incomumente breve e sóbrio, reconheceu que tem muitas pessoas a conquistar. "Minha responsabilidade será unir todos os homens e mulheres prontos a encarar os desafios tremendos que nos aguardam, e agir", disse Macron. "Lutarei com todas as minhas forças contra as divisões que nos minam, que estão nos separando."
 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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