Amazon compartilhará novo prédio com abrigo para sem-teto em Seattle

Nick Wingfield

Em Seattle (EUA)

  • Evan McGlinn/The New York Times

    Antigo motel usado como abrigo de sem-teto em Seattle (EUA)

    Antigo motel usado como abrigo de sem-teto em Seattle (EUA)

Há um ano, quando a Amazon permitiu que um abrigo para famílias sem-teto se mudasse para um antigo hotel de sua propriedade, aquilo foi visto como um gesto bacana, mas efêmero.

O hotel ficava em um pedaço de um terreno no centro onde a Amazon planejava erguer outro conjunto de prédios vistosos, para atender sua necessidade insaciável de espaço de escritórios nesta cidade, onde passou a representar tanto o boom econômico da região quanto suas dificuldades com a alta dos preços dos imóveis. O hotel seria demolido e o abrigo despejado quando chegasse a hora.

Em vez disso, a Amazon decidiu autorizar a permanência do abrigo. Em um arranjo incomum, a empresa concordou em dar ao abrigo, Mary's Place, um lar permanente dentro de um dos novos prédios de escritório cuja construção terá início no último trimestre do ano.

A Amazon cederá aproximadamente metade do prédio de seis andares ao abrigo, fornecendo a ele cerca de 4.400 metros quadrados de espaço com quartos privados capazes de receber 65 famílias, ou cerca de 220 pessoas e seus animais de estimação. A instalação, cuja expectativa é de que seja inaugurada no início de 2020, terá sua própria entrada e elevadores.

"Vejo isso como um presente imenso, porque a todos lugares que vamos, acabamos indo embora", disse Marty Hartman, diretora-executiva do Mary's Place, que administra sete abrigos de transição por toda a área de Seattle para abrigar famílias até que encontrem lares permanentes. "Você chega, se torna parte do bairro em que está e então se despede. Isso é algo difícil para muitas pessoas."

Graphite/The New York Times
Desenho do novo prédio da Amazon, onde a empresa pretende dar espaço para um abrigo de sem-tetos, em Seattle


Em uma entrevista no atual endereço do Mary's Place de propriedade da Amazon, que estava movimentado com o retorno das famílias ao abrigo para a noite, John Schoettler, o vice-presidente da Amazon para instalações e imóveis globais, disse que empresa gastaria "dezenas de milhões de dólares" no projeto e construção da parte do prédio destinada ao abrigo. A Amazon pagará as despesas de água, luz e serviços para o Mary's Place, que ocupará o espaço gratuitamente, com a organização ficando responsável apenas pelo pagamento de seus próprios funcionários.

Schoettler disse que a Amazon permitiu originalmente que o abrigo ficasse no hotel por causa da gravidade da crise de falta de moradias em Seattle, que levou o prefeito a declarar estado de emergência em 2015. Schoettler disse que a Amazon ficou impressionada com o Mary's Place, e descreveu seu plano de dar ao abrigo um lar permanente como sendo um investimento no bairro.

Em San Francisco, Google, Salesforce.com e outras empresas financiaram uma campanha para encontrar moradia permanente para as pessoas sem-teto. Mas Nan Roman, presidente da Aliança Nacional para o Fim da Falta de Moradia, um grupo de defesa sem fins lucrativos em Washington, D.C., disse desconhecer qualquer outra empresa privada integrando um abrigo para sem-teto em seu prédio.

"Com frequência, os sem-teto são empurrados para o outro lado da cidade", disse Roman. "Mantê-los como vizinhos é bacana."

Em Seattle, o plano também pode ajudar a lustrar a imagem da Amazon, que vem sofrendo alguns arranhões. Ela se tornou alvo de ativistas antigentrificação e sua cultura de trabalho de alta pressão foi tema de uma investigação pelo "New York Times" há dois anos.

A Amazon também é criticada por sua desconexão com a vida cívica em comparação a grande empresas locais conhecidas por suas doações filantrópicas, como a Boeing, Microsoft e Starbucks. Mais recentemente, isso começou a mudar, com presentes como a doação pela Amazon de US$ 10 milhões para a construção de um novo prédio de ciência da computação na Universidade de Washington.

"Sua reputação em Seattle certamente foi arranhada", disse Alan Durning, diretor executivo da Instituto Sightline, uma organização de pesquisa sem fins lucrativos focada na costa noroeste do Pacífico. "Fazer coisas como essa pode ser de seu interesse próprio esclarecido, bem ali para que todo o mundo veja."

A Amazon também é uma empresa diferente daquele de poucos anos atrás. Ela tem 30 mil funcionários na cidade, o que a torna a maior empregadora privada de Seattle, e transformou grandes trechos do centro e do bairro de South Lake Union.

Enquanto a empresa há não muito tempo perdia constantemente dinheiro, a Amazon agora tem lucro regularmente graças ao seu lucrativo negócio de computação em nuvem, o que lhe dá mais fôlego financeiro para atividades como filantropia.

A crise de falta de moradias em Seattle também se agravou, com acampamentos de tendas brotando ao lado de vias expressas, sob pontes e em parques. A área de King County onde a cidade se localiza contava com a terceira maior população de sem-teto no país no ano passado, atrás de Nova York e Los Angeles, segundo um relatório anual para o Congresso feito pelo Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano dos Estados Unidos.

Mais de 10 mil pessoas são sem-teto na área, com mais de 4.000 delas vivendo nas ruas, estimou a Coalizão de Seattle/King County para a Falta de Moradia em um relatório no ano passado.

Uma moradora do Mary's Place, Patricia Abbott, mãe de quatro, disse que se tornou sem-teto quando perdeu seu emprego após seu filho ter se ferido e ela ter precisado cuidar das necessidades médicas dele. Ela está no Mary's Place há seis meses e soube do apoio da Amazon à organização na festa de Natal do abrigo, quando recebeu da empresa uma boneca American Girl para sua filha.

"Há pessoas lá fora que realmente se importam", disse Abbott.

Schoettler disse que propôs o plano para a permanência do abrigo em uma reunião em janeiro do alto escalação da Amazon, incluindo Jeff Bezos, o presidente-executivo da empresa. Schoettler apresentou o convite a Hartman do Mary's Place na semana passada, ela disse em uma entrevista na segunda-feira.

"É permanente", disse Schoettler, fazendo uma pausa por um momento antes de acrescentar, "até que o problema da falta de moradia seja resolvido".

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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