Como o tsunami no Japão colocou em risco crianças do Camboja

Donald G. Mcneil Jr.

  • Arnaud Laillou/UNICEF Cambodia via The New York Times

    Sal iodado é testado durante uma visita do Unicef à província de Kampot, no Camboja

    Sal iodado é testado durante uma visita do Unicef à província de Kampot, no Camboja

O tsunami e o desastre nuclear de Fukushima, no Japão, agora estão ameaçando os cérebros em desenvolvimento de crianças no Camboja, mas não pelos motivos que poderiam se esperar.

O Camboja durante muito tempo teve de lidar com a deficiência de iodo. O elemento é crucial para o crescimento inicial do cérebro. Quando mulheres grávidas e seus bebês têm baixos níveis de iodo, as crianças podem perder permanentemente de 10 a 15 pontos de QI. A deficiência de iodo é considerada a principal causa evitável de deficiência mental do mundo.

Mas existe um remédio fácil e barato para isso: sal iodado. Enquanto o sal é limpo e embalado, pode-se borrifar iodato de potássio nele, normalmente a um custo de somente US$ 1 ou US$ 2 (R$ 3,13 a R$ 6,26) por tonelada.

Segundo especialistas em nutrição, isso significa que o QI de nações inteiras pode ser elevado em 10 pontos com somente 5 centavos de dólar por criança ao ano.

O Camboja vinha obtendo grandes progressos contra a deficiência de iodo até 2011, de acordo com um relatório publicado em 2015 pela Iodine Global Network (Rede Global de Iodo), uma parceria público-privada que combate a deficiência de iodo.

Assim como muitos países que sofrem inundações frequentes, o solo do Camboja possui pouco iodo natural, então seus cultivos contêm pouco dele. Em 1997, de acordo com o Unicef, quase um quinto de sua população tinha bócio, um inchaço na glândula tireoide no pescoço que indica uma deficiência grave, o que também pode causar nanismo e cretinismo.

Em 1999, com ajuda de doadores, o Camboja começou a iodar o sal de cozinha. Em 2003, o parlamento e o rei o tornaram obrigatório. Dezenas de pequenos produtores nas províncias de Kampot e Kep que faziam sal evaporando água do mar formaram uma cooperativa que recebeu máquinas de pulverização de iodato de potássio.

De 2000 a 2011, o uso de sal iodado cresceu de 13% para 70% dos lares, de acordo com um estudo de 2015 publicado pelo periódico "Nutrients". Uma amostragem feita nos mercados em 2008 encontrou somente 1% de sal sem nenhum iodo detectável.

Mas então as coisas começaram a degringolar.

Arnaud Laillou/UNICEF Cambodia via The New York Times
Produtores de sal na província de Kampot, no Camboja

Em 2010, o Unicef e outros doadores jogaram a responsabilidade pela iodação para o governo e os produtores de sal. A fiscalização foi se afrouxando e as máquinas de pulverização que quebravam ficavam sem conserto, de acordo com uma matéria recente da VOA News.

Então, em 2011, depois do terremoto e do tsunami no Japão, o preço mundial do iodo triplicou. O aumento do preço teve causas diversas, disse Roland Kupka, um especialista em micronutrientes do Unicef.

Os estoques mundiais de iodo já estavam baixos por causa da recessão de 2008. Um terço do iodo do mundo é produzido pelos perfuradores de gás natural do Japão, que o extraem da água salgada bombeada de poços costeiros.

A catástrofe danificou poços, incendiou refinarias e cortou bruscamente a produção de eletricidade. Para piorar o problema, a liberação de iodo radioativo do reator nuclear de Fukushima desencadeou compras motivadas por pânico de pílulas protetoras de iodeto de potássio, especialmente no oeste dos Estados Unidos. Os preços chegaram a aumentar 50 vezes por um breve período em relação aos seus níveis normais.

Os preços do iodo bruto permaneceram altos por dois anos, obrigando as empresas indianas que produzem o iodato de potássio a implorarem por ajuda de doadores. O iodo também é usado em máquinas de raio-X, telas de LCD e medicamentos. O sal iodado representava somente uma minúscula fatia de mercado, então os produtores não conseguiam chegar aos preços de outros compradores.

Todo o esforço global para a iodação "pode ser colocado em risco a menos que se tome uma providência", dizia um relatório de 2011 preparado para o Unicef.

Os preços altos também causaram um caos na indústria do sal do Camboja. O sal não iodado do Vietnã custava metade do preço, então ele foi contrabandeado para dentro do país. O sal destinado para a cooperativa de Kampot era vendido sem a iodação.

Alguns atacadistas que deveriam testar o sal antes de reembalá-los para varejistas pararam de fazê-lo.

Em 2014, cientistas do Unicef e do Ministério do Planejamento do Camboja testaram 1.862 amostras de sal comprado em dezenas de mercados. Eles descobriram que somente 1% do sal grosso e 23% do sal refinado estavam dentro dos padrões do governo.

Mas relatórios mensais da cooperativa de sal diziam que mais de 90% de suas amostras estavam dentro dos padrões. "Podemos ser céticos em relação à legitimidade do controle interno", dizia o relatório do Unicef.

Um teste rápido com 2.300 estudantes mostrou que as concentrações de iodo na urina haviam caído 30% desde 2011, e que o problema "ameaçava a sustentabilidade do programa", concluíram os autores.

O Unicef vem insistindo para que o governo faça cumprir suas próprias leis e realizem testes melhores, disse Kupka, e a cooperativa de Kampot criou um fundo para comprar iodato de potássio no atacado.

Ainda há tempo para salvar as crianças de um dano permanente, disse Jonathan Gorstein, diretor-executivo da Iodine Global Network.

"A tireoide é uma glândula bem eficiente em armazenar iodo", ele disse, então pode levar de cinco a dez anos de deficiência até que o bócio e os danos cerebrais voltem.

Ele diz que isso aconteceu na Etiópia. Até 2000, o país comprava sal naturalmente iodado da Eritreia, mas os conflitos entre os dois países suspenderam esse comércio e a Etiópia começou a explorar seus salares, que não tinham nenhum iodo.

Depois de aproximadamente oito anos, "veio ao mundo uma geração de recém-nascidos sem nenhuma proteção contra retardo mental", disse Gorstein.

Em 2011, a Etiópia atacou o problema. Com a ajuda de doadores, ela obteve maquinários de pulverização e começou a aplicar normas de iodação na indústria. Hoje, 80% de seus lares usam sal iodado.

"O que realmente queremos evitar", disse Gorstein, "é esse padrão no qual o sucesso leva a recaídas".

Tradutor: UOL

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