Opinião: Trump parece uma criança brincando de monarquia e deve sair

Ross Douthat

  • Yuri Gripas/ Reuters

    O presidente dos EUA, Donald Trump, participa de entrevista à imprensa na Casa Branca

    O presidente dos EUA, Donald Trump, participa de entrevista à imprensa na Casa Branca

Há apenas poucos dias, e uma vida inteira, escrevi uma coluna sobre a inadequação de Donald Trump para ser presidente que aparentava um tom entediado. Nada nesse caos da Casa Branca era surpreendente, diante do estilo da campanha de Trump, afirmei. Nenhum dos escândalos que irrompiam sugeria necessariamente crimes graves, em oposição à simples incompetência geral. E, como os republicanos fizeram as pazes com a inadequação de Trump muitos meses atrás, parecia inútil esperar que seus líderes agissem contra ele, a menos que surgisse alguma coisa muito, muito pior.

Como eu disse, poucos dias e uma vida inteira. Se a rendição republicana ao candidato Trump fez as exortações sobre o dever dos políticos republicanos para com seu país parecerem palavrório inútil, agora o presidente Trump conseguiu fazer essa exortação parecer novamente inevitável.

Ele o fez, a se acreditar nos vazamentos e revelações totalmente críveis durante vários dias, ao demonstrar de maneira especialmente conspícua por que a questão da "adequação" importa, para começar.

A Presidência não é apenas mais um cargo. Ela se tornou, por bons e maus motivos, uma sede de poder político semimonárquico, um lugar fixo onde pressões inimagináveis são enfrentadas diariamente e o ponto final para decisões que podem levar muito rapidamente à vida ou morte pessoas do mundo inteiro.

Não é preciso ser um super-herói da Marvel ou um Übermensch nietzschiano para encarar essa responsabilidade. Mas é preciso ter algumas atitudes básicas: um nível razoável de curiosidade intelectual, uma certa seriedade de objetivo, um nível básico de competência gerencial, uma capacidade de atenção decente, uma bússola moral funcional, uma medida de contenção e autocontrole. Se o presidente for deficiente em um ou mais deles, você pode ter certeza de que ele será exposto.

Trump parece ser deficiente em todos eles. Alguns talvez nunca tenham tido, outros supostamente se atrofiaram com a idade. Ele certamente tem talento político --carisma, uma destreza crua, um instinto para a jugular, uma forma de ser comum, uma certa criatividade que os políticos normais não têm. Ele não teria sido eleito sem essas qualidades. Mas elas não são suficientes, não podem preencher o vazio onde deveria haver outros dons humanos muito normais.

Como escreveu meu colega David Brooks na terça-feira (16), há uma infantilidade básica no homem que hoje ocupa a Presidência. Essa é a maneira mais simples de entender o que veio à luz aos trambolhões nos últimos dias: a Presidência hoje tem qualidades monárquicas, e temos uma criança no trono.

É uma criança que regurgita informação sigilosa para impressionar visitantes ilustres. É uma criança que pergunta ao diretor do FBI por que as regras não podem ser suspensas para seu amigo e aliado. É uma criança que não compreende as consequências óbvias de seus atos mais vingativos --como demitir o mesmo homem a quem você pediu para potencialmente obstruir a justiça em seu favor.

Uma criança não pode ser presidente. Eu amo meus filhos; eles não podem ter os códigos nucleares.

Mas uma criança também não pode realmente cometer "crimes e infrações graves" em qualquer sentido habitual da expressão. Haverá mais conversa sobre impeachment agora, mais conversa sobre um promotor especial para o assunto da Rússia; tudo bem. Mas afinal eu não acredito que nosso presidente compreenda suficientemente a natureza do cargo que ele detém, a natureza das restrições jurídicas que devem limitá-lo, talvez até a natureza das interações humanas normais, para ser culpado de obstrução de justiça no sentido nixoniano ou mesmo clintoniano do termo. Não acredito que ele seja realmente capaz da conspiração nos bastidores imaginada pelas teorias mais sombrias sobre a Rússia. E é difícil trair um juramento de cargo cujas obrigações você não demonstra sinal de realmente compreender ou respeitar.

O que não é argumento para permitir que ele ocupe o cargo. É, ao contrário, um argumento para se usar um mecanismo constitucional mais adequado que o impeachment para essa estranha situação: a 25ª Emenda da Constituição, que permite a remoção do presidente se a maioria do Gabinete informar ao Congresso que ele é "incapaz de desempenhar os poderes e deveres de seu cargo" e (se o presidente contestar sua remoção) uma votação de dois terços do Congresso confirmar a avaliação do Gabinete.

A situação de Trump não é exatamente do tipo que imaginavam os criadores da emenda, no tempo da Guerra Fria. Ele não sofreu uma tentativa de assassinato ou um derrame, nem foi acometido de Alzheimer. Mas sua incapacidade de realmente governar, de realmente executar os sérios deveres que lhe cabem, é de todo modo testemunhada diariamente --não por seus inimigos ou críticos externos, mas exatamente pelos homens e mulheres que a Constituição pede que sirvam de juízes para ele, os homens e mulheres que servem ao seu redor na Casa Branca e no Gabinete.

Leia as coisas que essas pessoas, membros de seu círculo mais próximo, seus nomeados escolhidos pessoalmente, dizem diariamente por meio de citações anônimas à imprensa. (E eu lhe garanto que eles dizem coisas piores "off the record".) Eles não o respeitam, na verdade parecem palpitar de desprezo por ele e considerar sua missão equivalente a ser camareiros de um imperador sifilítico.

Não são os conservadores melosos do "New York Times" que consideram o presidente uma criança, um vazio intelectual, um caso sem esperança, uma ameaça à segurança nacional; são as pessoas leais a ele por opção, que o apoiaram na campanha, que trabalham diariamente para ele. E tudo isso no terceiro mês de seu governo.

A coisa não vai melhorar. Poderá facilmente piorar. E, por mais difícil e polêmica que seja a 25ª Emenda, de certa maneira a remoção de Trump hoje seria menos dolorosa para os conservadores do que teria sido abandoná-lo na campanha --já que Hillary Clinton não será eleita de forma retroativa se Trump for removido, nem Neil Gorsuch será demitido. Qualquer custo para os republicanos será contado em divisões internas e futuros desafios nas primárias, e não em derrotas políticas imediatas.

Enquanto isso, da perspectiva do dever da liderança republicana com seu país, e de fato com o mundo que nosso império abarca, deixar um homem tão insensato e descontrolado em um cargo com esses poderes e responsabilidades é um ato de grave negligência, que nenhum objetivo no horizonte político em curto prazo parece importante o suficiente para justificar.

Teremos tempo para voltar ao tédio e ao cinismo enquanto essa agonia se arrasta. Neste momento, porém, serei aborrecido em minha sinceridade: respeitosamente peço a Mike Pence, Paul Ryan e Mitch McConnell que reconsiderem seu apoio a um homem que nunca deveria ter sido indicado por seu partido, nunca deveria ter sido elevado a esse cargo, nunca deveria ter sido endossado, apoiado e defendido por pessoas que compreenderam o tempo todo sua inadequação.

Hoje é um dia para redenção. Agora é uma hora aceitável.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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