Contra exploração, chineses começam a deixar fábricas e ameaçam produção vendida pelo mundo

Keith Bradsher

Em Dongguan (China)

  • GILLES SABRIÈ/NYT

    Mulher trabalha na fábrica de sapatos Huajian International, que faz sapatos para Ivanka Trump e outros designers, em Dongguan, na China

    Mulher trabalha na fábrica de sapatos Huajian International, que faz sapatos para Ivanka Trump e outros designers, em Dongguan, na China

Os operários da fábrica que faz os sapatos de Ivanka Trump e outros estilistas se reúnem às 7h40 toda manhã para cantar.

Às vezes, eles exaltam a solidariedade do trabalhador. Geralmente proclamam os laços entre a China e a África, o tema do hino corporativo de seu empregador.

Isso não é por acaso. Com tantos trabalhadores aqui se queixando das horas de trabalho excessivas e buscando melhores salários, o dono da fábrica deseja transferir os empregos deles para a Etiópia.

A empregadora, a Huajian International, agora enfrenta escrutínio de ativistas trabalhistas pela forma como trata seus funcionários. As autoridades chinesas detiveram nesta semana um ativista de um grupo de direitos trabalhistas que se infiltrou na fábrica da empresa aqui. Dois outros ativistas que trabalharam na Huajian estão desaparecidos; não se sabe se foram detidos.

O foco dos ativistas nas fábricas da Huajian aponta para uma mudança nas condições de trabalho na China, à medida que o setor manufatureiro tenta extrair mais trabalho de um pool de mão de obra cada vez mais caro.

O pai de Ivanka fez campanha para a presidência dos Estados Unidos com uma plataforma de trazer de volta do exterior os empregos manufatureiros. Mas mudanças demográficas e econômicas profundas fazem com que muito trabalho barato (como fabricação de calçados) não proporcione grandes lucros na China. Enquanto o presidente Donald Trump acusa a China de roubar empregos, esses empregos agora estão partindo para outros lugares.

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Funcionários inspecionam sapatos na fábrica Huaijian International, na China


A Huajian, que fabrica sapatos para várias marcas americanas, foi uma grande beneficiária da saída ao longo de décadas de empregos manufatureiros dos Estados Unidos. Marcas globais migraram para a China para explorar o pool de mão de obra barata e disposta do país.

Hoje, os trabalhadores chineses são menos baratos e menos dispostos. Mais jovens estão cursando a universidade e querem empregos em escritórios. A força de trabalho de colarinho azul está envelhecendo. Os longos dias de trabalho em uma fábrica não têm mais apelo para esses trabalhadores mais velhos, mesmo com a promessa de pagamento de hora extra.

Em entrevistas em dezembro e de novo no domingo e na segunda-feira, do lado de fora do vasto complexo industrial da Huajian nesta cidade fabril do sul da China, vários trabalhadores entrevistados pelo "New York Times" se queixaram da jornada de trabalho diária de 14 horas. Apesar de muitos gostarem do pagamento de horas extras, eles dizem que os dias são longos demais, especialmente por incluírem com frequência até três horas de pausas não remuneradas para almoço e jantar. Os trabalhadores insistem no anonimato, por temerem retaliação da gerência.

O China Labor Watch, o grupo de defesa que investiga as fábricas, disse ter encontrado funcionários trabalhando semanas mais longas do que o permitido pela lei trabalhista chinesa, até mesmo excluindo as pausas. Essas violações são comuns nas fábricas chinesas.

Um porta-voz da Huajian, Wei Xuegang, disse que a empresa não tem nenhum conhecimento de ativistas. Ao ser perguntado sobre a acusação do China Labor Watch, ele disse que a Huajian agenda horas extras durante épocas mais movimentadas, mas paga aos trabalhadores de acordo com a lei. Em uma entrevista em dezembro, Zhang Huarong, o fundador e presidente da empresa, disse que a Huajian segue as leis de horas extras.

A marca Ivanka Trump se recusou a comentar sobre as condições de trabalho ou sobre os ativistas. Em termos de trazer de volta os empregos para os Estados Unidos, disse a empresa, ela "aguarda para participar da conversa".

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Zhang Huarong, no centro, é o fundador da fábrica de sapatos Huajian International que faz sapatos para Ivanka Trump e outros designers, na China


Essas tensões estão alimentando a decisão de Zhang, o fundador da Huajian, de transferir o trabalho para a Etiópia. Um ex-sargento das forças armadas chinesas que às vezes lidera seus operários em ensaios para desfiles, Zhang diz que o trabalho de fabricação de calçados nunca retornará aos Estados Unidos e também está cada vez mais difícil na China.

"Os americanos realmente gostam de trabalhar, de realizar essas tarefas simples e repetitivas?" disse Zhang, na entrevista em dezembro. "Os jovens chineses também não querem fazer isso após se formarem na faculdade."

Em muitos aspectos, a economia da China está amadurecendo.

O número de pessoas que completa 18 anos a cada ano e não se matricula em uma faculdade, o grupo que poderia considerar um emprego em fábrica, despencou de 18,5 milhões em 2000 para 10,5 milhões em 2015, segundo dados do governo.

Devido aos efeitos da antiga política de um só filho da China, a previsão é de que o número caia abaixo de 7 milhões em 2020.

Os custos também estão aumentando, à medida que o governo eleva o salário mínimo e os benefícios em um esforço de afastar a economia da China da manufatura barata. Os salários em Dongguan cresceram nove vezes desde o final dos anos 90, disse Zhang.

Os trabalhadores disseram se ressentir das horas de trabalho, especialmente as pausas não remuneradas.

O quadro de horário impresso de um funcionário em dezembro mostrava que a fábrica exigiu 60 horas e 10 minutos de trabalho remunerado por semana. As leis chinesas exigem que a carga horária média semanal não passe de 44 horas e limita as horas extras a 36 horas por mês.

Na segunda-feira, em meio ao feriado de três dias do Festival dos Barcos Dragão chinês, um grande número de trabalhadores enchia a fábrica.

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Funcionários da fábrica Huajian International fazem fila para o jantar


Ao ser perguntado sobre se comeria zongzi, o tradicional bolinho de arroz servido durante o feriado, um trabalhador respondeu que eles não o celebrariam. Outro disse que a Huajian deu a cada trabalhador dois pequenos bolinhos e um ovo devido ao feriado.

Uma trabalhadora, uma mulher de meia-idade de sobrenome Du, disse que seus filhos foram para casa na região central da China. Du gostaria de ter tido folga para celebrar, para que pudesse preparar os bolinhos de arroz para eles.

Zhang disse que sua empresa mantém as horas de trabalho dentro dos limites legais, apesar dos trabalhadores quererem maior remuneração pelas horas extras.

"Não podemos deixá-los trabalhar horas extras apenas porque o salário deles é baixo", disse Zhang em uma longa entrevista. "Nós pensamos a respeito, mas queremos realizar nossos negócios direito."

A China Labor Watch disse na terça-feira que perdeu contato com três ativistas infiltrados nas fábricas da Huajian. A esposa de um na fábrica em Dongguan disse que ele foi detido pela polícia.

Li Qiang, que iniciou a China Labor Watch há 17 anos, disse que os ativistas do grupo nunca antes foram detidos pela polícia.

"Estou muito preocupado com a segurança deles", ele disse. "Quanto maior a demora por um contato com eles, mais me preocupo."

A Huajian atingiu o pico de 26 mil funcionários na China em 2006. Mas o número de trabalhadores foi reduzido para entre 7.000 e 8.000 graças à automação e a transferência para a Etiópia, disse Zhang.

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Sapatos sendo feitos na fábrica Huajian International, na China


Entre 100 mil e 200 mil pares dos sapatos de Ivanka Trump são produzidos por ano pela Huajian, uma fração pequena dos 8 milhões de pares de calçados que produz por ano. A fábrica de Dongguan produz os saltos, enquanto uma segunda fábrica completa os sapatos. A Marc Fisher Footwear, que licencia a marca Ivanka Trump para os sapatos fabricados pela Huijian, disse estar investigando as alegações.

Zhang já teve problemas ocasionais com as leis trabalhistas chinesas, apesar de não mais do que muitos empregadores nesta sociedade cada vez mais litigiosa. Em 2014, Li Jianguo, um operário, processou a Huajian, dizendo ter trabalhado 104 horas extras por mês e não ter sido remunerado por elas. A Huajian reconheceu naquele caso que o operário vinha trabalhando 52 horas extras por mês, segundo o texto do veredicto do tribunal, e concordou em pagá-lo por isso.

Segundo Zhang, os trabalhadores ganham entre US$ 525 a US$ 580 por mês (cerca de R$ 1.705 a R$ R$ 1.884), incluindo horas extras, mas sem incluir os benefícios pagos pela empresa, como plano de saúde e auxílio moradia. Os trabalhadores dizem que são pagos entre US$ 380 a US$ 580 por mês (cerca de R$ 1.234 a R$ 1.884).

O dinheiro pode render bastante em uma cidade fabril como Dongguan. Os operários disseram que um apartamento de 20 metros quadrados pode ser alugado no bairro por US$ 29 (cerca de R$ 95). A empresa fornece um auxílio moradia mensal de US$ 11,60 (cerca de R$ 37,70).

Citando custos trabalhistas e o esforço do país para investimento no exterior, a Huajian está construindo um amplo complexo de fábricas, prédios de escritórios e um hotel ao sul da capital da Etiópia, Adis Abeba. A fábrica de sapatos de Zhang, ali já conta com 5.000 funcionários.

Quando concluído daqui quatro anos, o complexo de Adis Abeba será cercado por uma réplica da Grande Muralha da China.

Alguns trabalhadores entrevistados da Huajian disseram não estar preocupados com a transferência de empregos para a Etiópia, dada a abundância de empregos na zona manufatureira do sul da China.

Mesmo assim, muitos trabalhadores veteranos enfrentam a discriminação com a idade caso queiram sair, já que outras fábricas preferem trabalhadores com menos de 35 anos. A fabricação de sapatos não é extenuante e proporciona poucos riscos físicos, o que a torna atraente para trabalhadores mais velhos.

"Eu realmente não conseguia me acostumar às longas horas de trabalho no início", disse um trabalhador, "mas realmente não tenho escolha".

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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