Escolha de Trump para o FBI é discreto e independente, dizem colegas

Adam Goldman e Matt Apuzzo

Em Washington (EUA)

  • King and Spalding/Divulgação via REUTERS

    7.jun.2017 - Christopher Wray, ex-promotor criminal federal que foi escolhido por Donald Trump como novo diretor do FBI

    7.jun.2017 - Christopher Wray, ex-promotor criminal federal que foi escolhido por Donald Trump como novo diretor do FBI

Christopher Wray era o principal promotor criminal do governo em 2004, quando o diretor do FBI, Robert S. Mueller 3º, e o vice-ministro da Justiça, James Comey, ameaçaram deixar o governo Bush por causa de um polêmico programa de vigilância. Ele se ofereceu para aderir ao protesto.

Hoje, com a escolha de Wray pelo presidente Donald Trump na quarta-feira (7) para comandar o FBI, os três serão figuras centrais na investigação da interferência russa na eleição de 2016 que abalou o governo Trump. Mueller está conduzindo a investigação da influência russa, e o inquérito levou Trump a demitir Comey.

Ao escolher Wray, o presidente está chamando um advogado tarimbado de Washington que é mais discreto e deliberativo que Mueller ou Comey, mas que continuará independente, segundo seus amigos e colegas.

"Ele não é vistoso. Não gosta de aparecer. É discreto", disse J. Michael Luttig, um antigo juiz que contratou Wray como oficial de justiça em 1992. Luttig, que disse que Comey e Mueller são seus amigos, afirmou que Wray trará um estilo de administração mais sutil ao FBI.

Chamando Wray de "um homem com credenciais impecáveis", o presidente Trump revelou sua escolha em um tuíte de manhã cedo na véspera de uma audiência no Congresso em que Comey iria depor sobre o que ele interpretou como tentativas impróprias de pressão por parte de Trump.

Wray é uma escolha segura, da corrente dominante, feita por um presidente que a certa altura considerou políticos para um cargo que historicamente ficou fora do partidarismo. Ex-vice-ministro da Justiça do presidente George W. Bush, Wray provavelmente acalmará os temores dos agentes do FBI que temiam que Trump tentaria enfraquecer ou politizar a agência federal de investigação.

Os que conhecem Wray dizem que sua atitude de deixar o Departamento de Justiça, há mais de uma década, por uma questão de princípio mostrou que ele recusará tentativas de interferência política e tentará proteger a independência do órgão.

Perguntas sobre essa atitude certamente surgirão durante sua audiência de confirmação no Senado. Trump se intrometeu diversas vezes em questões de Justiça criminal de um modo que presidentes anteriores evitaram. Sua demissão de Comey foi criticada como uma tentativa de obstruir a investigação do FBI sobre a campanha de Trump e seu possível conluio com a Rússia.

Mueller atua hoje como advogado especial do Departamento de Justiça que supervisiona a investigação. Ele e Wray se respeitam, disse Luttig, prevendo que trabalharão bem juntos.

Se confirmado, Wray terá de equilibrar o combate ao terrorismo enquanto tenta extirpar a corrupção pública e confrontar a espionagem russa e chinesa na principal organização judicial do país, que evoluiu para ser uma parte importante do aparato de segurança nacional. Ele chefiaria cerca de 35 mil pessoas em uma agência onde muitos esperam uma presença tranquilizadora depois de quase um ano de turbilhão.

"Ele dará uma forte ênfase a criar e alimentar a confiança de cada agente do FBI", disse Joe Whitley, ex-oficial do Departamento de Justiça que conhece Wray há anos.

Wray é uma figura conhecida em Washington; ele assumiu um cargo graduado no Departamento de Justiça na primavera de 2001 e teve um papel central na supervisão das operações após os atentados terroristas de 11 de setembro.

Wray provavelmente enfrentará em sua confirmação perguntas sobre o que sabia dos abusos da CIA nos anos após os ataques e como o Departamento de Justiça reagiu a eles.

Segundo documentos do governo que foram divulgados mais tarde, ele foi informado em fevereiro de 2004 da morte de um detido pela CIA no Iraque que foi considerada um homicídio e cujo caso foi enviado ao Departamento de Justiça.

Meses depois, Wray disse à Comissão de Justiça do Senado que soube dessa morte por meio da imprensa e não estava ciente de uma referência criminal do Pentágono ou do FBI, mas não disse se sabia de uma da CIA. Isso levou o senador Patrick Leahy (democrata, de Vermont) a acusar Wray de dar "uma resposta menos que completa e verdadeira".

Wray continuou servindo como chefe da divisão criminal de 2003 a 2005, dirigindo esforços para lidar com os escândalos de fraude corporativa e investigações políticas. Chris Swecker, o ex-chefe da divisão de investigações criminais do FBI, disse que Wray não teve medo de processar casos delicados de corrupção, que incluíram o famoso ex-lobista Jack Abramoff e os ex-deputados Randy Cunningham e William J. Jefferson.

Depois de ir para a firma de advocacia privada King & Spalding, Wray representou o governador de Nova Jersey, Chris Christie, ex-colega no Departamento de Justiça, no chamado escândalo Bridgegate, sobre um esquema com motivos políticos para causar engarrafamentos de trânsito. Dois ex-assessores de Christie, que é aliado de Trump, foram considerados culpados e condenados à prisão; o governador não foi acusado.

O fato de a habilidade política de Wray ter sido aprimorada no cadinho do escândalo lhe deu uma vantagem sobre o outro finalista, John Pistole, ex-vice-diretor do FBI e chefe da Administração de Segurança nos Transportes, segundo membros do governo. Wray conseguiu acalmar e aconselhar o instável Christie.

A União Americana de Liberdades Civis manifestou preocupação na quarta-feira sobre a nomeação de Wray, citando seu papel de supervisor depois dos atentados de 11 de Setembro e seu trabalho para Christie, o que "nos faz questionar sua capacidade de liderar o FBI com independência, julgamento equânime e compromisso com o Estado de direito que a agência merece", afirmou a organização em um comunicado.

A entidade também pediu que os senadores questionem vigorosamente Wray sobre o que ele sabia, como chefe da divisão criminal do Departamento de Justiça, sobre abusos praticados contra detidos sob custódia dos EUA no Iraque e no Afeganistão e em Guantánamo.

Wray formou-se em 1989 na Universidade Yale, onde conheceu sua futura mulher, Helen, no dormitório dos calouros. Sua família já foi proprietária do diário "Atlanta Journal-Constitution". Wray praticou remo nas equipes do colégio e da faculdade, segundo Andrew Hruska, seu sócio na firma de direito e amigo desde a infância.

"Sua disposição a aplicar um tremendo esforço para um objetivo de equipe realmente personifica Chris", disse Hruska.

Ele obteve o diploma de advogado em 1992 na Faculdade de Direito de Yale. Depois de trabalhar com Luttig, Wray mudou-se para Atlanta e entrou para o escritório do promotor federal.

Embora não seja conhecido por sua atuação partidária, Wray fez constantes doações a candidatos republicanos. Na última década, contribuiu com pelo menos US$ 35 mil para candidatos ou comitês republicanos, segundo dados da Comissão Eleitoral Federal. Não o fez durante a eleição de 2016, mas doou a nomeados presidenciais republicanos, inclusive US$ 2.300 em apoio ao senador John McCain, do Arizona, em 2008 e US$ 7.500 para Mitt Romney em 2012.

O senador Sheldon Whitehouse, de Rhode Island, democrata que serve na Comissão de Justiça, disse que vê com cautela a indicação de Wray. "Acima de tudo, ele vai ter de mostrar seu compromisso com a proteção da independência do departamento", afirmou.

Wray não vai tolerar interferências, dizem seus amigos.

"Ele certamente compreende as normas apropriadas que existem entre o Departamento de Justiça, o FBI e a Casa Branca", disse John Richter, colega advogado na King & Spalding que já foi promotor federal em Atlanta.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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