Por que é tão difícil prever as regras do populismo

Max Fisher e Amanda Taub

  • STEFAN WERMUTH/REUTERS

    Partido conservador de Theresa May não conseguiu eleger a maioria absoluta dos deputados do Parlamento britânico

    Partido conservador de Theresa May não conseguiu eleger a maioria absoluta dos deputados do Parlamento britânico

Theresa May, a primeira-ministra do Reino Unido, se juntou a uma longa fila de políticos que apostaram que entendiam a onda populista que varre a política ocidental e perderam.

A eleição de quinta-feira fechou um ano no qual a mais recente teoria política sobre a era populista parece perpetuamente destinada a provar estar incorreta, assim como muitas previsões de resultados eleitorais. O que explica essa aparente inexplicabilidade?

Afinal, os efeitos individuais do populismo se tornaram bem conhecidos. Os eleitores se opõem aos establishments partidários, passam por cima de coalizões demográficas e são mais motivados pelo que se opõem do que pelo que apoiam.

O problema é que, mesmo entre os principais acadêmicos, como esses fatores interagem em qualquer eleição específica ainda é pouco entendido.

As mudanças são simplesmente complexas demais e novas demais.

Todo mundo sabe que o populismo alterou as regras da política ocidental. Mas ninguém conseguiu deduzir quais são as novas regras.

O resultado é que políticos e observadores entram em cada eleição, quer saibam ou não, apenas tentando adivinhar. Erros de cálculo e surpresas se transformaram no novo normal.

Isso tem se mostrado de modo mais pronunciado no Reino Unido, onde a política se desenrola ao longo de uma questão, a Brexit, a votação pela saída do Reino Unido da União Europeia, que conta com quase 50% de apoio, de modo que o menor erro de cálculo pode mudar eleições, com consequências globais. Mas o fenômeno se estende por todas as democracias do Ocidente.

Os eleitores não estão esperando pelos acadêmicos entenderem sua mudança de comportamento e os políticos também não podem. Enquanto os líderes tentam lidar com forças que não conseguem compreender plenamente, a incerteza e a volatilidade fazem, por ora, parte do sistema.

Um ano de apostas fracassadas

May agiu com base no melhor e mais atual entendimento dos eleitores populistas e como explorá-los, o que mostra quão pouco o populismo é entendido.

O ano eleitoral anterior pareceu demonstrar que a defesa da Brexit e a promessa de reprimir o terrorismo, por meio do cerceamento das leis de direitos humanos, conduziria seu Partido Conservador à vitória.

O fato de os eleitores não terem simplesmente lhe proporcionado uma derrota, mas terem se deslocado para o Partido Trabalhista de centro-esquerda, no momento em que é liderado por um populista de esquerda, Jeremy Corbyn, novamente confunde o entendimento atual do movimento populista.

Ela está longe de ser a primeira política a sucumbir à falsa crença de que entende o populismo. David Cameron, seu antecessor, realizou o referendo de junho do ano passado sobre a saída da União Europeia acreditando que exploraria o sentimento nativista que era considerado marginal demais para predominar.

Nos Estados Unidos, os líderes do Partido Republicano, e segundo alguns relatos até mesmo a própria campanha de Donald Trump, subestimaram o inchaço anti-establishment que conduziu este à presidência na eleição de 2016.

E na Holanda neste ano, o primeiro-ministro de centro-direita, Mark Rutte, buscou conter o populismo explorando algumas de suas posturas duras em relação aos imigrantes, mas mesmo assim perdeu um quinto das cadeiras de seu partido no Parlamento.

Algumas surpresas reforçaram os establishments, ressaltando que a única certeza é a incerteza.

Nas eleições holandesas, o líder de extrema direita, Geert Wilders, ficou significativamente aquém das expectativas, sugerindo que até mesmo os populistas têm dificuldade em explorar o populismo.

Na França, após a candidata de extrema-direita, Marine Le Pen, ter conquistado mais votos na disputa presidencial do que seu partido jamais recebeu, muitos esperavam que o partido conseguiria ganhos nas eleições legislativas. Mas as pesquisas sugerem que ele está caminhando para uma derrota catastrófica.

Em vez disso, os eleitores franceses, agindo de uma forma prevista por nenhum modelo conhecido de política na era populista, parecem ter migrado para o partido de Emmanuel Macron, que de alguma forma é tanto pró e anti-establishment: recém-fundado, mas abraçando políticas centristas e globalistas.

Na Alemanha, a maior mudança no apoio do eleitor, apesar de apenas breve, foi do partido de centro-direita, liderado pela chanceler Angela Merkel, para o establishment de centro-esquerda.

Em quase todos os casos, a expectativa e a realidade entraram em choque, com frequência de modos totalmente novos.

Isso afeta não apenas as eleições. Os líderes agora devem governar sociedades mudadas por forças que não são compreendidas.

Encontrando uma nova teoria

Não se pode culpar os políticos por sua incerteza. Apesar dos acadêmicos terem avançado no entendimento do populismo, eles permanecem longe de uma teoria que possa explicar plenamente ou prever uma eleição.

Matthew Goodwin, um professor da Universidade de Kent que estuda política radical no Reino Unido, escreveu no mês passado no Twitter: "Não acredito que os trabalhistas, sob Jeremy Corbyn, atingirão 38% dos votos. Eu comerei meu novo livro sobre o Brexit se conseguirem".

Na última quinta-feira, enquanto as pesquisas de boca de urna apontavam os trabalhistas obtendo 40% dos votos, Goodwin tuitou: "Alguém tem ketchup?"

Especialistas em pesquisas não têm se saído muito melhor. Apesar de saberem que precisam ajustar seus modelos, eles ainda não conseguiram conceber uma fórmula para levar em consideração uma dinâmica repleta de incertezas.

Na eleição britânica, a maioria das pesquisas previa uma vitória conservadora. A empresa de pesquisa YouGov foi ridicularizada por prever um Parlamento "em suspenso" (sem maioria), mas no final provou estar certa.

Os establishments políticos, que contam com suas próprias subculturas teimosas, se agarram ao saber convencional, apesar dele tê-los feito tropeçar, por exemplo, ao desconsiderar o potencial de Corbyn.

Mas esses establishments também têm sido reativos, recalibrando drasticamente suas expectativas após cada nova eleição surpreendente, impondo uma nova teoria visando tentar entender o mundo. Essas teorias invariavelmente sobrevivem apenas até a eleição seguinte, mas enquanto isso moldam os modelos de pesquisa, a cobertura pela mídia de notícias e o comportamento dos partidos.

Impossivelmente complexo

Poucos sistemas no mundo são mais complexos do que aquele que fica entre as orelhas de uma pessoa, particularmente quando ele ou ela está decidindo como votar. É um ato tanto político quanto social, governado por uma série de fatores que são amplamente conhecidos, mas que interagem de formas profundamente complicadas.

Nem sempre pareceu dessa forma. Quando questões e candidatos se encaixam em um molde em geral semelhante ano após ano, as tendências de votação seguem padrões previsíveis. Mas o populismo introduziu um novo conjunto de fatores, ou pelo menos no momento mais poderoso, forçando qualquer pessoa que trabalhe ou estude a política a descartar modelos há muito mantidos.

Um deles é o sentimento anti-establishment que está bagunçando os partidos e suas agendas.

Os dois principais partidos britânicos concorreram contra o establishment mesmo fazendo parte dele, May ao se apresentar como campeã da Brexit e Corbyn ao rejeitar as décadas de centrismo do Partido Trabalhista.

Ainda não se sabe se os eleitores anti-establishment, nesta eleição ou em outras, buscaram escolher a plataforma mais anti-establishment, o líder mais fora do sistema ou o oposto de quem quer que esteja no poder.

Outro fator: os partidos estão enfraquecendo, mas a polarização está fortalecendo. Os eleitores cada vez mais se veem votando contra o partido ou pessoa que não gostam, em vez daquele ou daquela que gostam.

Isso é apenas uma amostra dos fatores que estão alterando a política. Qualquer um deles exigiria anos para ser plenamente entendido, mas juntos, eles confundem até mesmo a capacidade do mais experiente profissional de prever a política.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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